Gustavo Conde: 39 perguntas que não foram feitas a Sérgio Moro no Roda Viva

Gustavo Conde, via Jornal GGN em 25/3/2018

O Roda Viva já foi um programa importante para o jornalismo brasileiro. Adolescente, eu aguardava ansiosamente o programa, sem me importar com o entrevistado: o formato me agradava. Era o contraditório, o debate, a provocação e, às vezes, a inteligência. Vi Tom Jobim, Chomsky, Darcy Ribeiro, Brizola, Lula, Bresser, Marilena Chauí, enfim, personalidades que marcaram e marcam nossa história.

De uns tempos para cá, o Roda Viva se apequenou. Tornou-se um braço político do PSDB – sempre foi, é verdade, mas, o “consórcio” acabou por se tornar oficial. Depois disso, até Chico Buarque pediu para que se retirasse sua música da abertura, mais de 20 anos depois.

Desta feita, sou informado que o juiz Sérgio Moro debutará no programa na segunda-feira, dia 26/3. Pensei: o que será que vão perguntar a ele? Como prevejo apenas perguntas amistosas e dóceis da bancada que lhe será a simpatia encarnada, abri uma postagem em minha rede social para coletar algumas perguntas pertinentes e que dessem margem ao contraditório.

Recebi uma enxurrada de sugestões. Prometi que levaria ao programa pelas vias institucionais e levarei. Mas antes, publicá-las-ei aqui neste espaço. Certamente, trata-se de uma fonte interessante de consulta, até para os jornalistas que comporão a bancada do programa. A chance é boa para extrair algum tipo de verdade subjacente àquela personalidade um tanto sombria e retraída.

Jornalismo é isso. É emparedar o entrevistado. É ver até onde ele aguenta. Não há razão para acovardamentos e adesões pusilânimes. Millôr Fernandes dizia: imprensa é oposição, o resto e secos e molhados.

Assim, encaminho à rede pública um volume denso de perguntas. Eu mesmo gostaria de perguntar a Moro sobre Tacla Duran, sobre o Banestado, sobre o auxílio-moradia, sobre a Apae, sobre sua queda de popularidade etc. Mas, deixo as questões com meus colaboradores contumazes, que me autorizaram a fazê-lo aqui.

Apreciem, portanto, a qualidade e a profundidade das perguntas que talvez jamais sejam feitas cara a a cara com Sérgio Moro. Ao menos, teremos o habitual silêncio eloquente daqueles que se escondem em suas próprias limitações e vergonhas.

1) Ao copiar a Operação Mãos Limpas italianas, o senhor não tem medo de que as consequências no Brasil sejam tão terríveis quanto na Itália? O vazio do poder e um Berlusconi com a mesma corrupção de sempre? Luciana Hidalgo.

2) É verdade que o doutoramento do senhor se deu em 4 semestres? Leonardo Mazulo.

3) Por que Claudia Cruz, Andrea Neves, doleiros e empresários corruptores foram absolvidos? Andrea Borba.

4) O vazamento das interceptações telefônicas foi advertido pelo STF, ao que se seguiu seu pedido de escusas. Por que em seus pronunciamentos seguintes continua a tentativa de legitimar tal arbitrariedade, admitida em suas escusas, com o argumento ilegal – segundo o STF e a Constituição – de que o povo tem o direito de saber? O direito do povo não seria o respeito às leis, incluindo a do sigilo telefônico de presidente da república, garantindo que a subjetividade do juiz não resulte em decisões parciais e/ou políticas? Ana Clara Duarte Gavião.

5) Fale sobre as alegações de vínculos com a “intelligence community” dos USA. Richard Klein.

6) O senhor teria algo a comentar sobre o Helicoca e o caso Teori? O senhor lamenta por Teori? Terezinha Menger.

7) Por que o senhor soltou Alberto Youssef? Ana Julia Rodrigues.

8) O senhor acha correto dar palestras do caso Lula e receber por isso? Robson Lopes.

9) É verdade que você chama Lula de nine (por causa dos nove dedos) entre seus amigos? Isso tem relação com os 9 anos e meio de prisão? Ou é só uma mera coincidência? Qual sua relação com o MBL? Aceitar que sua imagem seja vendida em canecas e camisetas é correto? Será que isso seria apropriado para um juiz, considerando que esse grupo é assumidamente uma milícia fascista? Gustavo Conde.

10) Não configuraria obstrução da justiça ignorar todas as provas produzidas pela defesa? Lola Laborda.

11) Soubemos que seu Green Card foi recusado pelo governo norte-americano. A Cia ou alguma outra instituição não puderam influir para um desfecho positivo? Lola Laborda.

12) Por que a palavra do delator Tacla Duran não vale para acusar Vossa Excelência mas a de outro delator, Leo Pinheiro, vale para acusar Lula? Lola Laborda.

13) O senhor tem conhecimento sobre as contas de Zucolotto? Elas estão na Suíça, Liechtenstein, Caribe ou EUA? Caetano Vissirini.

14) Quando o Senhor disparou a Operação Farol da Colina, dentro da Operação Macuco (caso Banestado), e prendeu os 63 doleiros concorrentes do Youssef, isto teria sido moeda de troca com o doleiro, para ele mentir e omitir em sua delação de forma a manter inalterada a política de total impunidade para toda a corrupção do Brasil, deflagrada no governo FHC/PSDB, já que ele passou a ter todas as facilidades para assumir a hegemonia na lavagem de dinheiro. O que o senhor teria a dizer sobre isso? Mauro Chuairi.

15) Como o senhor conseguiu comprar um apartamento de 2 milhões por 170 mil? Procede essa informação? Marcia Botelho.

16) O que o senhor faz durante as viagens aos EUA? Para receber premiações só precisaria de no máximo 3 dias e o senhor passa em média 2 semanas – e ainda recebe como se estivesse no trabalho. O senhor acha justo e moral receber sem estar trabalhando? Lia Leah.

17) Quem paga essas passagens? Solange Pires.

18) Quantas vezes o senhor foi reprovado na prova da OAB? Roberto Nozaki.

19) Por que inocentou a mulher do Cunha mas mandou devolver o dinheiro? Maria Julia Temer.

20) Fale sobre o doleiro Dario Messer. Vilma Viana.

21) Por que barrou as perguntas do Eduardo Cunha ao Temer? Roberto Nozaki.

22) Onde foi parar o dinheiro do Banestado? Lola Laborda.

23) Como o senhor possui imóvel próprio, o senhor seria capaz de utilizar o auxílio-moradia para fazer caixa e comprar outros imóveis? Luciano Santos.

24) Por que o senhor manteve o nome de dona Marisa no processo, mesmo depois de seu falecimento? Por que o senhor absolveu Cláudia Cruz e Adriana Ancelmo, mesmo depois de confirmada as ilegalidades cometidas por ambas? Adriana Tornero.

25) Comente sobre o artigo quinto da constituição. Nelson Silva.

26) O senhor teria algo a dizer sobre o rombo da APAE? Jô Freitas.

27) Onde trabalhou a sua esposa no período de 1997 a 2001, já que esta informação está suprimida até na Wikipédia? Mauro Chuairi.

28) Como foram os bastidores do julgamento do mensalão, já que o senhor era o juiz assessor da Rosa Weber, que condenou o Dirceu com base na tese do domínio do fato, nos exatos moldes de sua sentença contra o Lula? Mauro Chuairi.

29) Porque confiar em Alberto Youssef como delator se no caso do Banestado ele descumpriu as cláusulas do acordo firmado? Aliás, pelo descumprimento no caso Banestado, ele não deveria ser preso por falsidade ideológica ou descumprimento de delação? Alexandre Vaz Pichoneri.

30) Gostaria que o senhor comentasse sobre a correlação entre a denúncia aceita referindo propina dos três contratos da Petrobrás e a resposta dos embargos de declaração que refere jamais ter havido esses vínculos. Como justificar a possibilidade de o senhor ser o Juiz da ação? Carlos Miranda.

31) Como definir “ato de ofício indeterminado”? Se é indeterminado é possível que essa indeterminação tenha ocorrido após a presidência-Lula? A conta de propinas, como explicitado pelo Dr. Euclides Mance em seu livro, era contábil e não uma conta corrente específica. Por que o senhor não mandou rastreá-la? Se era contábil como saber qual montante de dinheiro veio de onde e para quem? Francisco Couto.

32) É compreensível seu indeferimento à solicitação da defesa do ex-presidente Lula de ouvir Tacla Duran, já que em depoimento à CPMI da JBS na Câmara dos Deputados, Duran apresentou provas de tentativa de negociação de sentença com redução de pena mediante propina, por parte de seu amigo e advogado Zucolotto, ex-sócio de sua esposa Rosângela Moro, cuja conta bancária recebeu valores diretamente de Tácla Duran, conforme extrato da Receita Federal. Já que, além dessas provas, há outras de que o sistema MyWebDay foi adulterado pelo MPF, provas da inocência do réu desconsideradas, entre outras nulidades, não seria melhor para todos, para sua família, para o país, que renunciasse para se defender de tais acusações? Ana Clara Duarte Gavião.

33) Comente sobre Paulo Preto e o desvio da Dersa. Gilberto Lima.

34) O que o senhor quer exatamente dizer com a frase “não vem ao caso”? Itamar Assiere.

35) O senhor pretende prestar mais uma vez o exame da OAB para exercer a profissão de advogado nos EUA, depois que sair do país? Inês Duarte.

36) Após dar ordem para que não fizessem imagens da revista na casa do Presidente Lula e da condução coercitiva, achou normal utilizarem estas imagens no filme “A Lei É Para Todos”? O senhor tem algum conhecimento de quem são os patrocinadores do filme em sua homenagem? O Senhor acha normal a cessão de veículos da PF, incluindo helicóptero para produção do filme? O que o senhor está achando da série da Netflix “O mecanismo”? O senhor, tem alguma participação direta ou indireta na produção da série? O senhor deu consultoria aos produtores? Leandro Pimenta Silva.

37) O que o senhor achou do livro “Comentários a uma sentencia anunciada – O processo Lula”? Beth Nani.

38) Vossa Excelência acha normal frequentar, ser fotografado e palestrar em eventos patrocinados com o logotipo do PSDB e de veículos da imprensa? Adriana Tornero.

39) O que o senhor teria a dizer sobre a quebra do sigilo telefônico de advogados que defendem réus processados na vara de Curitiba? Clau Rota.

***

NO RODA VIVA, MORO PRESSIONA SUPREMO A SER “FIRME” COM LULA E OUTROS RÉUS DA LAVA-JATO
Via Jornal GGN em 27/3/2018

O juiz Sérgio Moro usou o programa Roda Viva para pressionar as instâncias superiores, principalmente o Supremo Tribunal Federal, a ser “firme” nos processos da Lava-Jato, inclusive o que culminou na condenação de Lula. O magistrado de Curitiba fez o apelo após ser questionado sobre um possível “acordão” no STF para salvar o ex-presidente petista e outros políticos envolvidos na operação.

Moro respondeu que, “como juiz”, não pode “simplesmente acreditar numa hipótese dessa [acordão]”. Agora, é importante, e isso é verdadeiro, que as instituições – e não digo só o Supremo, mas todas as instâncias – mostrem firmeza.”

“Porque o que a Lava-Jato revela é que havia corrupção muito grave, a dita corrupção sistêmica, que joga a gente (o País) para trás, afeta nossa economia, a qualidade da nossa democracia e o pior, ao meu ver, afeta a fé das pessoas no nosso regime democrático”, acrescentou Moro.

“Eu tenho a esperança e a confiança que o Supremo vai tomar as decisões apropriadas para esses, e não digo o caso do ex-presidente, mas todos os casos envolvendo a Lava-Jato.”

Um dia antes de Moro participar do Roda Viva, o ex-presidente Lula comentou, durante uma caravana no Sul do País, que gostaria de ver o Supremo revisar o mérito do caso triplex para corrigir os erros cometidos em primeira e segunda instâncias.

Golpista
Moro também foi questionado, no programa da TV Cultura, sobre como reage quando parte da população o chama de golpista, nas ruas.

Ele disse que entende que alguns processos da Lava-Jato têm “consequências políticas” e que isso “suscita paixões contra e a favor”. Apesar disso, disse Moro: “Eu tô muito tranquilo em relação ao que eu fiz nos processos da Lava-Jato.”

“É de se lamentar esse tipo de ofensa, mas acredito que essas coisas passam. Com o tempo, as pessoas vão poder analisar esses fatos de maneira objetiva e de maneira mais distante do presente, e vão compreender o que foi feito.”

Na entrevista, Moro também defendeu o fim do foro privilegiado, o auxílio-moradia como forma de complementar o salário dos juízes e a prisão em segunda instância.

***

SÉRGIO MORO COMETE ERRO BÁSICO DE PORTUGUÊS DURANTE ENTREVISTA
Diogo Arrais, Via Exame em 27/3/2018

Durante a entrevista do juiz Sérgio Moro no programa Roda Viva, da TV Cultura, tive a curiosidade de separar um trecho dito por ele:

“…mas havia todo um anseio da população para que houvessem reformas legislativas que incrementassem a eficiência do sistema em relação a esse tipo de criminalidade.”

Como se sabe, o “haver”, quando utilizado como impessoal, deve concordar na 3ª pessoa do singular. Isso ocorre porque o verbo não tem sujeito, ou seja, alguém que execute a ação. É “haver” no sentido de “existir”. Vejamos:

“Havia inúmeros protestos no Brasil.”
“Se houvesse reformas legislativas, o sistema seria eficiente.”
“…para que houvesse reformas legislativas no Brasil.”

Além disso, caso esteja em locução verbal (conjunto de dois ou mais verbos), também fica invariável o auxiliar do verbo haver impessoal:

“Deveria haver inúmeros protestos na Petrobras.”
“Há de haver novas leis contra a lavagem de dinheiro.”
“Pode haver, ali, desvio de verba.”

Ainda sobre um trecho da fala do eminente doutor Sérgio Moro, chama-me atenção o uso de “todo um”. Apesar de ser mais comum a combinação entre “todo” e o artigo definido (indicando a totalidade de algo), é possível encontrarmos sim o artigo indefinido. Sérgio Moro: Juiz responde acusações de Lula sobre ajuda dos EUA.

Expõe assim Evanildo Bechara, em pesquisa:

“Desaparece, naturalmente, a vacilação quando, em vez do artigo definido, aparecer o indefinido um, pois aí todo um denota inteiro, total: todo um dia (a par de um dia todo), toda uma cidade, construção, aliás, sem razão, rejeitada por puristas intransigentes.”

Um grande abraço, até a próxima e inscreva-se no meu canal!

Diogo Arrais – @diogoarrais
Canal Mesma Língua
Autor Gramatical pela Editora Saraiva
Professor de Língua Portuguesa

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