Da fábrica ao lobby: O caminho das balas que mataram Marielle

Após assassinato de Marielle e Anderson, Taurus e CBC doaram fuzis e munições aos militares.

Doação de fuzis e munições à intervenção no Rio é “cala-boca” para forças de segurança, afirma deputado integrante da Bancada da Bala.

Felipe Corazza, via CartaCapital em 23/3/2018

Como as balas que mataram Marielle Franco e Anderson Gomes saíram da fábrica da CBC e chegaram até a cena do crime no Rio de Janeiro? “É um descontrole total”, na visão de um dos mais destacados integrantes da chamada Bancada da Bala no Congresso. Na visão do deputado Major Olímpio, eleito pelo Solidariedade de São Paulo, o Exército, que é responsável pelo controle de compra e venda de armas e munições no país, não consegue exercer plenamente essa função.

Os cartuchos que mataram a vereadora carioca e seu motorista faziam parte de um lote vendido para a Polícia Federal em 2006. Antes do assassinato no Rio, balas do mesmo lote já haviam aparecido na maior chacina já registrada no Estado de São Paulo, em uma noite sangrenta que deixou 23 mortos entre as cidades de Osasco e Barueri. O cenário reacende, no Congresso, uma briga antiga entre integrantes da Bancada da Bala, que se acusam mutuamente de lobby a favor de empresas nacionais, de um lado, e estrangeiras de outro.

A identificação de balas usadas pelas forças de segurança, no Brasil, é feita pela marcação obrigatória nas cápsulas que acomodam o explosivo e o projétil. Segundo a portaria Nº 16-D, de 28 de dezembro de 2004, munições comercializadas no território nacional “para armas de fogo de alma raiada dos calibres .380, .38, .357, 9mm, .40, .45, 5,56mm, .30, 7,62mm e .50, e de alma lisa calibre 12”, quando destinadas às forças de segurança, deverão “conter gravação na base dos estojos, que garanta a identificação do lote da munição e do adquirente de forma unívoca”. As balas que mataram Marielle e Anderson eram de calibre 9mm.

Mas a venda de armas e munições para as forças de segurança é alvo de acalorados debates e mesmo trocas de acusações entre os integrantes da própria Bancada da Bala. Um bate-boca entre o Major Olímpio e o deputado Alberto Fraga, durante uma audiência pública em 2016, deixou explícita a cizânia.

“Não tenho contatos, não sou lobista. Nenhuma empresa de armas nunca me deu um centavo para campanha nem para porcaria nenhuma”, afirmou Olímpio, em uma referência aos 80 mil reais doados pela Taurus para a campanha de Fraga à Câmara em 2014. Fraga, que após a morte de Marielle foi execrado em redes sociais por espalhar informações falsas sobre a vereadora tentado associá-la ao crime organizado, negou por diversas vezes atuar a favor da Taurus por esse motivo.

A briga interna sobre o tema na Bancada da Bala tem duas raízes principais: uma está nas acusações de defeitos em armas da Taurus que estariam ferindo e matando usuários ao atirarem “sozinhas”; a segunda, uma disputa de mercado, já que as empresas brasileiras mantêm uma posição quase monopolista do fornecimento de armamentos às forças de segurança do país. Fraga insiste que as acusações de problemas nas pistolas da empresa gaúcha estão sendo usadas como pressão de empresas estrangeiras que querem parte desse mercado. Olímpio rebate afirmando não fazer lobby para ninguém e exigindo respeito aos policiais que ficaram feridos por disparos acidentais.

E a discussão se amplifica com ações como a de ontem, quando a CBC e a Taurus anunciaram a doação de 100 fuzis e 100 mil munições para as Forças Armadas, como um reforço para as operações da intervenção no Rio. “É um cala-boca da Taurus e da CBC para a intervenção. Quem deveria estar esclarecendo (o desvio de munição) acabou virando o principal mecenas”, acusa o deputado em entrevista a CartaCapital. Pedindo desculpas pelos termos, Olímpio acrescenta ter ficado “p. da vida” ao ver as fotos da entrega de fuzis feita por Salesio Nuhs, presidente da Taurus.

O valor dos equipamentos doados, segundo Nuhs, soma 1,5 milhão de reais. “Foi uma decisão dessas duas empresas estratégicas de defesa. Nós sentimos na obrigação, como empresas brasileiras, de colaborar com o Exército nessa intervenção no Rio de Janeiro, para melhoria da segurança pública”.

O valor é uma fração pequena do faturamento das empresas em contratos de fornecimento. Em 2017, a CBC – que desde 2014 controla também a Taurus – vendeu cerca de 85 milhões de reais para o governo, segundo os registros do Portal da Transparência.

A reportagem procurou a Taurus para responder à acusação do deputado, mas não obteve resposta até a noite de quinta-feira, dia 22/3.

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