Luis Nassif: Fake news como estratégia de censura aos blogs oposicionistas

Luis Nassif, via Jornal GGN em 14/3/2018

O mercado da opinião pública é uma realidade complexa, com vários públicos, cada qual envolvendo nuances e desdobramentos variados.

No campo jurídico – e no mercado de opinião mainstream – há uma divisão clara entre personagens vulneráveis e blindados, e entre notícias que contam e as que não contam.

Não é por outro motivo que, há muitos anos, desenvolveu-se o método do assassinato de reputações nas guerras corporativas, utilizados com maestria por personagens como Daniel Dantas. Ou desqualificações de informações sob a acusação genérica de teoria conspiratória ou – no padrão atual – de serem fake news.

A parceria velha mídia-Lava-Jato valeu-se dessas características do mercado de opinião: só vale denúncia veiculada pela velha mídia, independentemente da sua fundamentação ou da fundamentação das notícias da nova mídia. Qualquer denúncia de outro veículo é jogada na vala comum da militância política, uma posição extremamente cômoda para manter alvos e blindados sob controle.

Esse mesmo jogo ocorre internacionalmente com os tribunais internacionais de direitos humanos, de meio ambiente, com os tratados internacionais, com os grandes veículos de mídia, com o mundo jurídico, qualificando as fontes de informação.

Até alguns anos atrás, a única fonte de informação sobre o Brasil eram os veículos da velha mídia brasileira e alguns organismos de direitos humanos. Após o impeachment, houve várias autocríticas de grandes jornais europeus lamentando o fato de terem se baseado apenas nos relatos dos jornais brasileiros, contaminados pelo pacto de 2005, conduzido por Roberto Civita, da Abril, que jogou a imprensa brasileira no nível mais baixo da história.

O aparecimento dos blogs e das redes sociais tirou da velha mídia o protagonismo único na difusão e interpretação dos fatos. Especialmente em países em desenvolvimento, a opinião pública internacional passou a prestar atenção cada vez maior no discurso contra hegemônico dos novos atores. Em vários países, da África ao Brasil, ganharam relevância blogs independentes que passaram a denunciar as mazelas sociais e os escândalos internos.

A desmoralização da velha mídia – não apenas por aqui, mas em países emergentes em geral – abriu espaço para dois novos personagens.

O primeiro, o blogueiro independente, o jornalista que decidiu denunciar as mazelas nacionais, correndo risco pessoal. O segundo, bilionários da nova economia, ou do mercado financeiro, financiando experiências na novíssima mídia, sites que abrigam bons repórteres investigativos. É o caso da BuzzFeed, Intercept e outros.

Por trás do apoio, há, de um lado, a vontade de legitimação da nova ordem global. Aliás, na história, muitos bilionários, em determinado momento, se sentiram condutores do processo civilizatório, como a segunda geração dos Rockefellers, dos Vanderbilts, do J.P.Morgan, dos Rothschild, entre outros.

Nesse movimento, há a estratégia de legitimação de sua atividade e do combate ao poder remanescente da velha economia e das velhas relações de poder.

A ordem da nova economia funda-se em algumas teses bastante legitimadoras:

1) Defesa dos direitos sociais nas nações menos desenvolvidas.
2) Defesa do meio ambiente.
3) Luta contra a corrupção.

Coincidentemente, são três características da velha economia e, em muitos casos, de economias fechadas. Mas que não se entre em discussões mais aprofundadas sobre globalização e as grandes jogadas financeiras e corporativas. O jogo de denúncias é parcial.

É o que se verá a seguir.

A guerra de narrativas
No Brasil, desde o início dos blogs, o contraponto à velha mídia foi protagonizado por um conjunto de blogs e sites jornalísticos, tratados genericamente como blogosfera progressista – um termo genérico que misturou sites militantes com sites jornalísticos e atrapalhou bastante o trabalho de mediação da notícia que poderia ter sido oferecido pelos sites jornalísticos. Vamos chamá-los de nova mídia.

Por outro lado, nos últimos anos, ao lado de sites investigativos bancados por bilionários financeiros ou tecnológicos – como o Intercept, o BuzzFeed e o Pública – surgiram novas experiências no Brasil, algumas bem-sucedidas, inovando na linguagem e no modelo de negócios. Chamaremos de novíssima mídia.

Há características distintas, e outras comuns, entre a nova e a novíssima mídia.

Em comum, a defesa de bandeiras civilizatórias, denunciando crimes contra direitos sociais, contra o meio ambiente, os exageros corporativistas. De diferente, o fato da novíssima mídia não se posicionar em relação a teses políticas e econômicas. Dificilmente se verá jornal da novíssima mídia desbravando escândalos como o da privatização da Eletrobrás, ou fazendo a defesa do chamado interesse nacional, questionando aspectos fiscais ou monetários da política econômica, ou denunciando negócios envolvendo o grande capital.

Isso não os torna nem piores nem melhores do que os jornais eletrônicos envolvidos no contraponto. Mas reside aí a diferença. Um grupo defende o que entende por interesse nacional. O outro grupo é simpático a princípios globais, mas passa ao largo dos ditos interesses nacionais ou mesmo das discussões sobre globalização, capital financeiro, limitando-se a reportagens sobre temas pontuais.

Há espaço para todas essas experiências, das mais às menos engajadas politicamente, desde que haja um compromisso firme de respeito aos fatos. A diversidade é a grande riqueza da Internet, e o respeito aos fatos a arena comum.

E é por aí que se entende a extravagante pesquisa do cientista social Pablo Ortellado sobre a mídia – publicada no site Publica. A ideia básica é reforçar o protagonismo da novíssima mídia sobre o espírito crítico da nova mídia.

A explicitação da estratégia
No ano passado, em parceria com a Nova Escola – apoiada por Jorge Paulo Lehman – a Pública montou um seminário com as novas experiências jornalísticas, tendo o apoio do Google News. Para o seminário foram convidados apenas expoentes da novíssima mídia. Nada demais. Havia um critério claro de reunir novos modelos e eles estavam bem representados. Mas foi a primeira tentativa de isolar a nova mídia, já que nenhum representante dos sites políticos foi convidado para o encontro.

Também há em andamento um “Projeto Credibilidade“ reunindo universidades de vários países e órgãos jornalísticos, tradicionais e novos, de combate às “fake news”, propondo-se a conferir selos de qualidade aos veículos. Não há indicação dos critérios para se associar, e não há nenhum representante dos novos veículos que fazem contraponto à velha mídia.

Agora, a pesquisa de Pablo Ortellado expõe a estratégia.

Trata-se do artigo “Jovens se afastam de páginas engajadas e interagem com a imprensa tradicional, revela estudo“, assinado por Natália Vianna e por um grupo de alunos da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing”, que participaram das pesquisas coordenadas por Ortellado.

As fragilidades metodológicas do estudo foram bem dissecadas por Renato Rovai – que acaba de defender uma tese de doutorado sobre as redes sociais.

Agora de manhã, Ortellado publicou parte da pesquisa em seu perfil do Facebook.

Não é necessária formação acadêmica para entender a lógica do estudo e do artigo.

O primeiro trabalho de Ortellado sobre a polarização das redes sociais foi “2016: o ano da polarização“, em parceria com Esther Solano e Márcio Moreto. Nele, analisam três grupos de blogs militantes.

Pela direita Amigos da Rota, Novo 30, Vem Pra Rua, Aécio Neves e Conversa com os Brasileiros. Pela esquerda, PT, Blog da Dilma Rousseff, Lula, Jean Wyllys e Feminismo Sem Demagogia. Pelo chamado centro, Marina Silva, o blog do deputado federal Silas Câmara e das ONGs ambientalistas Greenpeace e SOS Mata Atlântica.

No estudo recente e no artigo os atores mudam.

1) Ortellado dividiu o mercado de opinião arbitrariamente em três grupos: blogs de direita, blogs de esquerda, e a velha mídia.
2) Pela direita, entram Jornalivre, Papo TV, Folha Política, Partido Anti-PT e Anti-PT, claramente produtores de notícias fake.
3) Fosse metodologicamente preciso, o trabalho trataria de comparar com blogs fakes de esquerda. No entanto, optou por igualar pela esquerda, Jornal GGN, Diário do Centro do Mundo, Revista Fórum, Falando Verdades, O Cafezinho, Brasil 247, Mídia Ninja.
4) No centro, entraram Veja, Folha de S.Paulo, G1, UOL Notícias, O Globo, Estadão, revista IstoÉ, Exame, Época, e CartaCapital na divisa.

E aí concluiu que as duas pontas são mais propensas a difundir jornalismo fake. E a velha mídia, com sua linguagem “isenta” – expressão que consta da reportagem, não da pesquisa – é que atrai os jovens. Para dar realismo à afirmação, a reportagem ouviu quatro (atenção: QUATRO) jovens que dizem preferir se informar através da leitura dos jornais. Qualquer observador das redes sociais sabe que a maioria absoluta dos jovens chega às notícias através das chamadas de Facebook e Twitter.

Intencionalmente ou não, a pesquisa de Ortellado incorre em um erro básico, entre outros. Não existe o leitor da Folha. Existe o leitor da Editoria de Poder, de Esporte, da Ilustrada, de Economia, público totalmente distintos. Esses veículos, mais ainda a UOL e o G1, difundem matérias gerais, reportagens sobre celebridades, sobre TV, sobre esporte, mais de agrado dos jovens. Uma pesquisa criteriosa compararia os leitores de Política dos veículos com os leitores de blogs. Que raios é essa metodologia que compara públicos de natureza distinta?

Mais ainda.

Se, em lugar dos blogs fake de direita, tivesse colocado o contraponto dos novos sites – BuzzFeed, Intercept e outros –, ou os contrapontos dos blogs fakes de esquerda, a pesquisa ganharia credibilidade. Indaguei dele essa questão e ele explicou que os novíssimos sites não têm audiência suficiente para ser mapeada. E as fake de esquerda não têm audiência relevante, como os de direita.

Tudo poderia ser debitado na conta das metodologias incorretas, não fosse a continuação óbvia da pesquisa: um evento da revista Veja, patrocinado pela Ambev, para discutir as ameaças das fake news à democracia.

Entre os palestrantes, nosso bravo Ortellado, apresentado pela Veja como o maior especialista brasileiro em fake news. A pesquisa confirma o fake. E, do alto do padrão Veja de discernimento, erigido à condição de “maior especialista brasileiro”, quiçá do mundo, em fake news, a pesquisa indicando que blogs políticos têm a mesma propensão a difundir notícias fake que os blogs fake de direita.

Fica clara a intenção de influenciar Google e Facebook, e o público do mercado formal de opinião – juízes, procuradores, TSE, TSJ – sobre o papel da nova mídia, ao equiparar os veículos aos geradores de fake news da direita. Um prato cheio para as promessas de Luiz Fux, de colocar Polícia Federal e Ministério Público para busca e apreensão de quem ousar difundir notícias fake – isto é, que não saem na velha mídia

A disputa do mercado de opinião
Essa possibilidade de satanização da imprensa independente, associando-a aos fake news, foi denunciada recentemente pela Grupo de Especialistas de Alto Nível sobre Fake News, da Comissão Europeia, em um trabalho intitulado “Uma Abordagem Multidimensional da Desinformação“ e divulgado pela Revista Fórum.

Diz ele:

“Embora a desinformação seja claramente um problema, sua escala e impacto, agentes associados e infraestruturas de amplificação não foram adequadamente investigados ou examinados. Sem essa base de evidências, intervenções concretas – além de pesquisas adicionais e suporte contínuo para iniciativas educacionais, desde que sejam claramente avaliadas – não devem ser implementadas”.

Apresenta seis sugestões:

1) O abandono claro e inequívoco do termo “fake news” que a Comissão Europeia estava usando inicialmente. É um termo inadequado que não explica a complexidade da situação e gera confusão na mídia e debates políticos, bem como no tratamento do tema pelos pesquisadores.
2) Um apelo claro para apoio financeiro para meios de comunicação independentes, verificação de dados e fontes, e alfabetização de mídia e informação. O relatório aponta especificamente a necessidade de financiar iniciativas independentes, livres da interferência de autoridades públicas ou empresas de tecnologia que possam ser tentadas a usar esses projetos como uma vitrine em suas relações públicas.
3) Um apelo às plataformas para que compartilhem os dados. A comunidade de verificadores e “fact-checkers” pedem às plataformas mais acesso aos dados há anos, é especialmente importante que o Google, o Facebook e o Twitter se comprometam com isso. […]
4) Um pedido para que instituições públicas em todos os níveis da União Europeia compartilhem os dados de forma rápida e eficiente quando solicitado por organizações de verificação de dados, corrigindo-os quando apropriado. Isso significa reconhecer que os atores políticos e as instituições desempenham um papel crucial na melhoria do nosso ecossistema de informação.
5) A criação de uma rede de centros de pesquisa sobre desinformação na União Europeia. Nosso conhecimento atual se concentra quase que exclusivamente em dados dos EUA e é vital que a União Europeia colete dados de estudos transfronteiriços para compreender as diferenças e nuances no escopo, escala e impacto da desinformação nos 28 estados membros.
6) A insistência em uma abordagem colaborativa que envolve todos os atores relevantes, com um processo previamente estruturado que documentará os progressos realizados e irá apontar os atores que não tomam suas responsabilidades a sério.

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