O surto de altruísmo do Banco Mundial

David Deccache, via Meu Professor de História em 7/3/2018

Crises costumam ser muito úteis ao processo de reconstrução do grande capital em novas bases. Abrem enormes janelas para o grande capital esmagar o trabalhador, iniciando um novo ciclo com uma nova correlação de forças. Aliás, muitas crises são criadas exatamente para isso.

Hoje mesmo, o Banco Mundial lançou um estudo que sugere que a culpa da informalidade e da precarização do trabalho no Brasil é do suposto – não caia da cadeira – elevado salário mínimo brasileiro. Será que eles estão muito preocupados com a informalidade do trabalhador e querem resolver isso diminuindo o salário do trabalhador? Baita altruísmo, não?

O Banco Mundial alega que a nossa produtividade do trabalho é muito baixa e não acompanhou, nos últimos anos, o suposto “alto salário mínimo brasileiro”. A partir do diagnóstico, sugerem que devemos criar regras de crescimento do salário mínimo atreladas à elevação da produtividade do trabalho.

Curioso, é que no mesmo documento o Banco Mundial afirma que medir a produtividade é um desafio e que, provavelmente, não temos dados disponíveis.

Putz, primeiro eles dizem que descobriram que a produtividade está muito acima do salário, depois falam que não dá pra calcular a produtividade com os dados disponíveis.

Curiosíssimo.

Mas vamos continuar falando de produtividade.

Na década de 1990, o Banco Mundial alegava que a nossa produtividade era muito baixa porque o Brasil era muito fechado para o comércio mundial. Era necessário, segundo eles, uma ampla abertura comercial já que a exposição da economia à concorrência internacional estimularia incrementos na produtividade e, por consequência, permitiria um novo impulso ao crescimento econômico. Acatamos, como cordeirinhos, a sugestão do Banco Mundial: pegamos uma indústria –sucateada pela crise dos anos 1980 – e jogamos em uma dura competição global sem um mínimo de competitividade: câmbio valorizado, queda brusca na proteção tarifária e não tarifária e a total ausência de políticas dirigidas ao setor.

Conclusão: ao contrário do previsto pelo Banco Mundial, entramos em uma fase, sem precedentes, de aguda desindustrialização.

E sem indústria, meus amigos, sabe o que acontece com a tal da produtividade? Ela afunda. Junto com os salários, com os empregos de melhor qualidade e com a formalidade.

Fora isso, houve recomendações em prol da redução de impostos para ricos, de austeridade fiscal, liberalização financeira e afins. Nada disso funcionou, ou melhor, não funcionou para o conjunto da sociedade… já para os mais ricos, ao que parece, funcionou muito bem. Até hoje os nossos ricaços não pagam 1 real sobre os lucros e dividendos que recebem.

Enfim, geralmente, quando o Banco Mundial aparece no meio de grandes crises mostrando preocupação com os países periféricos é bom desconfiarmos um pouquinho. Neoliberais costumam encarar crises como oportunidades.

É sempre bom desconfiar dos surtos de altruísmo dos neoliberais

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