O que está por trás da indicação do novo comandante da PF

Luis Nassif em 20/11/2017

Assim como a nova procuradora-geral da República (PGR) Raquel Dodge, o novo diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segóvia, parece mais vítima da falta de traquejo com a mídia, do que de seus atos concretos.

Ele está submetido a três tipos de tiroteio.

O primeiro, em torno da nomeação dos diretores das PFs estaduais, das quais a mais relevante é São Paulo. Até a decisão haverá fogo de dentro e de fora.

O segundo tiroteio é a herança da disputa com o Ministério Público Federal (MPF), especialmente em torno do instituto da delação premiada. A PF tem certeza absoluta de que os procuradores não dispõem de experiência em investigação e acabam desperdiçando o poder que ganharam sobre os delatores.

O terceiro, é a disputa com a elite engravatada da Lava-Jato, que viciou em holofotes da mídia e em trocar todo o aparato investigativo pela comodidade das delações premiadas – levantadas por procuradores.

Nos últimos meses houve uma disputa renhida entre grupos que pretendiam a divisão da Polícia Federal em várias PFs temáticas, a fim de consolidar feudos em suas áreas de atuação. Grande parte desse grupo estava entre os bacharéis, os delegados advogados que, a exemplo dos procuradores da Lava-Jato, pretendiam o protagonismo da corporação, atritando com investigadores e quadros técnicos.

Segóvia conseguiu o apoio de cerca de 80% da categoria, unificando os quadros mais experientes – que tinham sido jogados para segundo plano pelo padrão de investigação Google dos delegados –, e os quadros técnicos.

Foi bastante explorada ontem sua declaração, de que “talvez uma única mala não desse toda a materialidade para apontar se houve crime, e quais os partícipes”. Houve quem interpretasse como defesa de Temer.

Fontes ligadas a ele sustentam que foi crítica óbvia às investigações do ex-PGR Rodrigo Janot que, com sua pressa, transformou uma bala de canhão em um tiroteio confuso, do qual se prevaleceu Michel Temer.

A pressa fez com que não se periciassem inicialmente as gravações. Com mais profissionalismo, se poderia ter ido até o fim do trajeto da mala de dinheiro carregada por Rocha Loures. E não se teria cometido o erro de centrar toda a repercussão em um trecho do diálogo entre Joesley Batista e Michel Temer que não permitia cem por cento de certeza sobre o tal cala-boca em Eduardo Cunha.

Tanto as críticas se referiam ao passado, que Segóvia passou três horas em conversas com a PGR Raquel Dodge, visando aprimorar a parceria MPF-PF.

Essa mesma opinião, sobre os erros do PGR com a delação da JBS, foi externada por Segóvia em entrevistas a repórteres do Globo, Folha, Estadão e revistas, com quem conversou nos últimos dias. Vai ter que ganhar mais experiência até descobrir que nenhuma publicação resiste a uma frase de efeito, mesmo tirada do contexto,

De certo modo, Segóvia vocalizou a maior crítica dos quadros internos da PF contra o estrelismo da Lava-Jato. Não é por outro motivo que a resposta petulante veio do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima.

Há uma área técnica bem montada na PF, trabalhando com sistemas de computação, com perícia, exames mais aprofundados. Tudo isso foi jogado para segundo plano pelos próprios delegados da Lava-Jato, indo a reboque de delações que servem apenas para os procuradores fazerem valer suas teses – independentemente da existência ou não de provas.

Se conseguir, ao mesmo tempo, trazer a PF de volta ao seu status de órgão do Estado, e não a serviço de egos, e, ao mesmo tempo, dar um enfoque profissional nas investigações, terá cumprido sua missão.

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