Globogate: Corrupção e propina no futebol uniram Globo, Marin e Del Nero, diz delator

O delator Alejandro Burzaco em imagem de arquivo. Foto: Andrew Gombert/EFE.

Empresário argentino diz que emissora pagava propina aos cartolas para obter direitos de transmissão.

Via El País Brasil em 15/11/2017

Uma delação premiada no caso que investiga a Fifa na Justiça norte-americana respingou na Rede Globo, um dos maiores grupos de comunicação da América Latina. O empresário argentino Alejandro Burzaco, ex-diretor da empresa de eventos esportivos Torneos y Competencias, afirmou na terça feira em depoimento à Justiça dos Estados Unidos que a emissora pagou propinas para conseguir direitos de transmissão de campeonatos de futebol. As autoridades norte-americanas investigam um esquema de corrupção envolvendo a Fifa e outras federações de futebol, apelidado de Fifagate. O dinheiro pago pela Globo teria sido destinado a altos executivos da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e da Confederação Sul-Americana de Futebol, a Conmebol, responsável por campeonatos como a Copa Libertadores da América e a Copa América. A informação foi divulgada em primeira mão pelo site Buzz Feed News. O delator não mencionou quais os valores pagos pela empresa.

Ao ser indagado pelo promotor quais grupos de mídia teriam participado do esquema, o empresário argentino citou “Fox Sports dos Estados Unidos, Televisa do México, Media Pro da Espanha, TV Globo do Brasil, Full Play da Argentina e Traffic do Brasil”. Segundo Burzaco, Marcelo Campos Pinto, então diretor do departamento esportivo da Globo, teria negociado com os cartolas o pagamento da propina. A reportagem não conseguiu entrar em contato com ele, que deixou a emissora em 2015.

Mas a emissora não foi a única atingida pelo depoimento de Burzaco. Além da Globo, que nega qualquer irregularidade, o delator também implicou dois ex-presidentes da CBF (José Maria Marin e Ricardo Teixeira), e o atual mandatário, Marco Polo Del Nero. O primeiro já responde a processo nos EUA por sua participação no esquema de corrupção envolvendo empresas de marketing e a CBF. Ele está em prisão domiciliar no país. De acordo com o delator, os três teriam recebido pagamentos de um período que vai de 2006 a 2015. Os valores recebidos por cada um deles chegavam até a um US$1 milhão (aproximadamente R$3,3 milhões) por campeonato cujos direitos de transmissão negociavam.

Del Nero, que não viaja aos Estados Unidos para evitar uma possível prisão, teria ganho importância no esquema após a morte, em 2014, de Júlio Grondona, o poderoso ex-presidente da Associação Argentina de Futebol. O cartola brasileiro e Marin teriam até mesmo pedido um “aumento” no valor da propina paga em troca dos direitos de transmissão. “Marin me deu um abraço e fez um discurso de agradecimento. Del Nero abriu um caderno e anotou os valores. Os dois disseram que dariam instruções sobre como queriam receber o dinheiro”, afirmou Burzaco.

Em nota, Del Nero afirmou que “nega, com indignação, que tivesse conhecimento de qualquer esquema de corrupção supostamente existente no âmbito das entidades do futebol a que se referiu”. Segundo o cartola, “as investigações levadas a efeito naquele país [EUA] não apontaram qualquer indício de recebimento de vantagens econômicas ou de qualquer outra natureza por parte do atual presidente da CBF”.

Ao site Globoesporte.com, Teixeira também negou ter recebido dinheiro, e disse ainda “quem acusa tem que provar. Ele [Burzaco] tem que provar tudo isso” Seu advogado não quis comentar as acusações de que seu cliente receberia uma espécie de mesada anual de US$600 mil (cerca de R$2 milhões).

Em nota lida em seus diversos telejornais, a emissora afirmou que “não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina”. “Após mais de dois anos de investigação [a Globo], não é parte nos processos que correm na Justiça norte-americana”. A assessoria da rede disse ainda que “em suas amplas investigações internas, apurou que jamais realizou pagamentos que não os previstos nos contratos”. Por fim, o texto afirma que “o grupo Globo se colocará plenamente à disposição das autoridades norte-americanas”, e que para a empresa esclarecer o ocorrido é “questão de honra”.

A Fox Sports, também mencionada pelo delator, afirmou em nota que “qualquer menção em relação a que Fox Sports teve conhecimento ou aprovou subornos é absolutamente falsa”.

CITADO POR DELATOR SE SUICIDA NA ARGENTINA
Na Argentina as declarações de Burzaco tiveram um impacto devastador para um dos citados. O advogado Jorge Delhon, ex-integrante do governo de Cristina Kirchner, cometeu suicídio se jogando nos trilhos de uma linha do metrô poucas horas após ter sido mencionado pelo delator. Ele havia participado do programa Futebol Para Todos, uma iniciativa da ex-presidenta para nacionalizar a transmissão das partidas.

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EXECUTIVO DA TELEVISA, CITADA NO CASO FIFA, É ASSASSINADO
Via Brasil 247 em 20/11/2017

O executivo Adolph Lagos, vice-presidente de telecomunicações do grupo mexicano Televisa, foi assassinado neste domingo, quando viajava de bicicleta por uma rodovia do Estado central do México, informou hoje o Ministério Público do país.

A mexicana Televisa, assim como a rede Globo, foi acusada por Alejandro Burzaco, ex-chefe da companhia de marketing esportivo Torneos y Competencias, de ter pagado propina à Fifa para garantir a transmissão das Copas do Mundo de Futebol

Lagos, de 69 anos e ex-diretor do Banco Santander, está viajando de bicicleta na estrada que conduz às pirâmides de Teotihuacán quando ele foi ferido por armas de fogo por estranhos e levado para um hospital “onde infelizmente morreu”, disse o Ministério Público do Estado do México.

Lagos, sobrinho do lendário banqueiro mexicano Enrique Espinosa Yglesias, ocupou o cargo de vice-presidente corporativo de telecomunicações da Televisa desde 2013 e da administração geral do sistema de televisão a cabo Izzy.

As informações são de reportagem do Infobae. Confira abaixo uma reportagem da Reuters sobre o escândalo de corrupção da Televisa e da Globo:

Uma testemunha da acusação no julgamento por corrupção de três ex-dirigentes do futebol testemunhou nesta quarta-feira que o mexicano Grupo Televisa e a brasileira Globo participaram de uma propina de US$15 milhões para um executivo da Fifa para assegurar direitos midiáticos para as edições de 2026 e 2030 da Copa do Mundo.

Alejandro Burzaco, ex-chefe da companhia de marketing esportivo Torneos y Competencias, testemunhou por um segundo dia em um tribunal dos Estados Unidos, acrescentando detalhes ao testemunho de terça-feira de que Televisa, Globo e Fox Sports estavam envolvidas nas propinas.

No primeiro julgamento em uma investigação dos EUA sobre subornos envolvendo a Fifa, Burzaco disse a membros do júri em tribunal federal no Brooklyn nesta quarta-feira que a Torneos, Televisa e Globo pagaram propina para Júlio Humberto Grondona, um executivo da Fifa que morreu em 2014.

Burzaco disse que a Torneos e a Fox Sports, uma unidade da Twenty-First Century Fox, eram parceiras em uma venture de marketing esportivo, a T&T Sports Marketing Ltd.

A porta-voz da Fox Sports Terri Hines disse na terça-feira que a parceria da T&T era com uma afiliada da Fox Sports, a Fox Pan American Sports, que era de propriedade majoritária de uma empresa de private equity, e que a Fox Sports não possuía “controle operacional” sobre a T&T.

“Quaisquer sugestões de que a Fox Sports sabia ou aprovava quaisquer propinas são enfaticamente falsas”, disse.

A Globo informou na terça-feira que “não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina” e que irá cooperar com autoridades dos EUA.

A Televisa se negou a comentar na terça-feira e não pôde ser contatada imediatamente nesta quarta-feira. As três companhias midiáticas não foram acusadas no caso nos EUA.

O testemunho de Burzaco descreveu propinas para dirigentes em troca de direitos midiáticos no futebol internacional, incluindo pagamentos regulares chegando até a dezenas de milhões de dólares para direitos da Copa América e Copa Libertadores.

Jorge Delhon, um advogado argentino que trabalhava para o programa de TV estatal Futebol para Todos, cometeu suicídio na noite de terça-feira, horas após Burzaco testemunhar que Delhon recebeu propinas, segundo a polícia argentina.

Os três ex-dirigentes em julgamento nos EUA são Juan Ángel Napout, ex-presidente da Conmebol e da federação do Paraguai; Manuel Burga, ex-presidente da federação peruana; e José Maria Marin, ex-presidente da CBF.

Burzaco testemunhou que estava envolvido no pagamento de propinas para todos os três. Em declarações de abertura na segunda-feira, os advogados dos ex-dirigentes negaram recebimento de propinas.

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O FUTEBOL BRASILEIRO NO BANCO DOS RÉUS
Proprietária do nosso futebol, a CBF enfrenta as consequências de ter usado uma paixão nacional para enriquecimento ilícito.
Jamil Chade, via El País Brasil em 18/11/2017

 

O cronista Nelson Rodrigues, há mais de 50 anos, já constatou: “o pior cego é o que só vê a bola”. Numa corte de Nova Iorque, nesta semana, é um senhor frágil, de cabelo e tez branca que se depara diante da juíza federal Pamela Chen. O julgamento contra José Maria Marin, entretanto, não é apenas contra um dirigente que comandou a CBF. Trata-se, na realidade, de um processo sobre o próprio futebol nacional, sobre seus cúmplices e suas entranhas do poder. Um processo contra aqueles que promoveram uma cegueira quase generalizada.

Conforme a data do julgamento se aproximava, não foram poucos os dirigentes da Fifa e da CBF que me admitiam que estavam preocupados sobre o que poderia surgir do processo. Hoje, depois de pouco mais de dez dias de audiências, tudo o que essas entidades temiam se transformou em realidade. Acusados e testemunhas passaram a usar a corte como um palco privilegiado para revelar um lado obscuro do esporte. O futebol como ele é.

Para se defender das acusações de corrupção, os advogados de Marin usaram um fato que qualquer um envolvido na CBF sempre via: ele jamais a governou sozinho. Seu braço direito, vice-presidente e homem que o acompanhava a todas as reuniões era Marco Polo Del Nero, o atual comandante do futebol brasileiro desde 2015. Para a defesa de Marin, quem “tomava as decisões” era o seu vice.

Ainda que seja uma estratégia dos advogados para reduzir a responsabilidade de seu cliente, a realidade é que a tática surpreendeu a muitos dentro da CBF e Del Nero foi jogado para o centro do debate.

Nos dias que se seguiram, coube ao argentino Alejandro Burzaco, ex-executivo que comprava direitos de TV de torneios sul-americanos, admitir que a corrupção era a regra do jogo. Na qualidade de testemunha, seu relato confirmou os pagamentos a Marin. Mas também indicou que o próprio Del Nero o procurou em 2014 para negociar um aumento da propina. O entendimento com o futuro chefe do futebol brasileiro ainda vinha com um pedido: adiar o pagamento do suborno para 2015, quando Marin não seria mais presidente da CBF. Assim, Del Nero não teria mais de dividir a propina com seu “amigo”.

As audiências ainda jogaram ao centro da arena Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF entre 1989 e 2012. Ele teria recebido, desde 2006, US$600 mil por ano em propinas para ceder contratos de transmissão da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana.

Não escaparam nem mesmo grandes grupos de imprensa do Brasil e América Latina, citados pela única testemunha ouvida até agora como parte de um esquema de corrupção. No caso da TV Globo, ela foi mencionada como tendo destinado supostas propinas para ficar com o direito de transmissão das Copas de 2026 e 2030, algo que a empresa nega de forma veemente.

O processo também atinge em cheio as pretensões do Catar de sobreviver como sede da Copa até 2022. O ex-dirigente argentino, Júlio Grondona, morto em 2014, foi apontado nesta semana como receptor de US$1 milhão em troca de seu voto aos árabes para que pudessem sediar o Mundial. Ele era o presidente do Comitê de Finanças da Fifa e, em outras palavras, era o dono da chave do cofre da entidade.

Ao relatar o caso, Burzaco revelou como Grondona o contou bastidores do dia da votação. Nas primeiras rodadas, o então presidente da Conmebol, Nicolas Leoz, teria votado pelo Japão e Coreia do Sul. Num dos intervalos, Grondona e Teixeira chegaram até o paraguaio e o “chacoalharam”. “O que você está fazendo?”. Quando o processo eleitoral foi retomado, Leoz mudou de comportamento e votou pelo Catar.

O tsunami das declarações chegou ainda até a Argentina. Na noite de terça-feira, Jorge Alejandro Delhon, um dos executivos denunciados, teria se matado. As audiências ainda tiveram cenas de dramalhões latino-americanos, com Burzaco chorando diante do que poderia ser um ato de intimidação de um dos acusados, o ex-presidente da Federação Peruana de Futebol, Manuel Burga. O peruano o teria feito um sinal de cortar o pescoço, em plena audiência.

Horas depois, a testemunha não conseguiria segurar as lágrimas quando lembrou que fora avisada de que a polícia argentina o mataria se retornasse ao país.

Entre supostas ameaças, choros, mortes, relatos extraordinários e contas milionárias, não deixa de chamar a atenção o fato de que o processo está apenas em sua segunda semana. Por mais um mês, como num cenário de um jogo de Copa descrito pelo cronista, o mundo da cartolagem e seus cúmplices viverão “uma suspensão temporária da vida e da morte”.

Todos os citados, por enquanto, negam qualquer tipo de responsabilidade. Mas o que o processo começa a revelar é que, de fato, uma paixão nacional foi tomada por um grupo com um único objetivo: o enriquecimento próprio. De forma infesta, sequestraram uma das poucas coisas que é legítimo em um torcedor: sua emoção. A cada partida assistida em campo ou na televisão, em cada camisa comprada, em cada item adquirido, o torcedor aparentemente não financiou o futebol nacional. Mas seus donos, em contas secretas em Andorra, Suíça e paraísos fiscais.

Desde criança, foi vendida a história a todos nós de que aquele time de amarelo nos representa. Quando ganha, é o presidente da República quem os recebe, como heróis nacionais numa conquista “do país”. Quando é humilhado em campo, é uma nação que flerta com a depressão.

Em Nova Iorque, enquanto a cegueira começa a se dissipar, estamos vendo que esse futebol “nacional” tem dono. E não é o torcedor.

Jamil Chade é jornalista, autor do livro Política, Propina e Futebol (Cia das Letras, 2015).

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