Como o capital vadio assalta o povo pela “financeirização”

José Carlos de Assis, via Jornal GGN em 18/11/2017

Alguns conceitos entram na linguagem comum de uma forma que mascaram inteiramente seu real significado. A palavra “financeirização” surgiu com um significado técnico definido, mas acabou ficando acima do entendimento até de muitos especialistas. Com o tempo muito se fala de “financeirização” mas poucos se dão conta do que se deve entender por isso efetivamente. No entanto, o claro entendimento desse conceito é de extrema importância para a luta política contra o capital financeiro especulativo, ou vadio.

Vou me limitar inicialmente a um único exemplo pelo qual acredito possa ser bem compreendido o conceito. Darei um exemplo pessoal. Há poucas semanas comprei uma televisão numa loja do Catete, no Rio. Fiz a compra burocraticamente, me valendo apenas das informações do vendedor. Na hora de pagar, eu estava em condições de fazê-lo à vista. Ele, porém, me ofereceu a pechincha de pagar oito vezes sem juros pelo valor de à vista. Distraído, autorizei imediatamente o faturamento da tevê a prazo.

Ora, sou economista com mais de 40 anos de experiência. Sei exatamente distinguir uma compra a prazo, obviamente com juros, de uma compra à vista, com desconto dos juros. Entretanto, fiz uma compra totalmente imbecil. Apenas me limitei a perguntar ao devedor se havia desconto na compra à vista. Ele disse que não. Eu deveria tomar a única providência racional, ou seja, desejar-lhe boa sorte e procurar outra loja. Entretanto, esse procedimento parece estar disseminado no comércio das grandes capitais. Não é possível escapar dele.

A esse processo de espoliação da clientela se chama “financeirização”. O sistema financeiro se apropria de parte do faturamento do comércio, no mundo real, mesmo quando isso é absolutamente desnecessário do ponto de vista do comprador. Este último é induzido a pagar juros que são sobrepostos aos preços das mercadorias pelos bancos ou pelas financeiras. As taxas de juros, como regra, são exorbitantes, capturando grande parte da mais valia produzida pela sociedade em favor do capital financeiro vadio.

Uma outra forma de “financeirização” com grande repercussão social é o crédito consignado. Apresentado, no governo Lula, como uma forma de facilitar o crédito para os pobres, tornou-se na verdade uma forma de facilitar a apropriação segura pelos bancos de parte do dinheiro de aposentadorias, pensões e salários, sem risco. Foi por isso que os bancos acolheram com entusiasmo esse sistema, na medida em que o devedor fica prisioneiro do contrato e não pode parar de pagar, mesmo quando está morto de fome.

É claro que há mecanismos de “financeirização” mais complexos, sendo o principal deles aquilo que Maria Lúcia Fatorelli chama o sistema da dívida. Nesse caso, o que temos é um mecanismo pelo qual credores da dívida pública, pressionando por taxas de juros de agiotagem, acumulam fortunas gigantescas apenas no campo das finanças, sem produzir um alfinete. Só no ano passado e neste ano, o governo doou a esses especuladores mais de R$1 trilhão em cada ano, sem nenhuma contrapartida de produção ou serviço.

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