Um tributo a Ives Gandra e a tragédia de ser um homem branco, rico e hétero

Kiko Nogueira, via DCM em 16/11/2017

A tragédia do jurista Ives Gandra da Silva Martins está comovendo o Brasil.

Num texto corajoso, em que o autor se desnuda por inteiro, ele expõe o drama de ser homem, branco, rico e heterossexual.

Sim. É terrível.

O desabafo foi publicado num blog do jornal O Povo, do Ceará, intitulado “Portugal sem passaporte”.

“Não sou: nem negro, nem homossexual, nem índio, nem assaltante, nem guerrilheiro, nem invasor de terras. Como faço para viver no Brasil nos dias atuais?”, pergunta-se.

“Na verdade eu sou branco, honesto, professor, advogado, contribuinte, eleitor, hétero… E tudo isso para quê?”

Para quê?, repito.

Aquele é apenas o começo, a protofonia da peça. É difícil conter as lágrimas antes de chegar ao fim.

Uma pergunta primordial fica no ar: como é que Deus impõe a um fiel servo (ele é membro da Opus Dei) tal provação?

Mais: por que o Senhor, em sua infinita sabedoria, não fez de Ives uma mulher negra nordestina gay favelada da tribo ianomâmi? Por que não lhe concedeu essa bênção?

POR QUE PREFERIU TORTURÁ-LO?

Que desígnios misteriosos são esses?

Acompanhe o testemunho desse guerreiro:

Hoje, tenho eu a impressão de que no Brasil o “cidadão comum e branco” é agressivamente discriminado pelas autoridades governamentais constituídas e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que eles sejam índios, afrodescendentes, sem-terra, homossexuais ou se autodeclarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos.
Assim é que, se um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, ou seja, um pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco hoje é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior (Carta Magna).
Os índios, que pela Constituição (art. 231) só deveriam ter direito às terras que eles ocupassem em 5 de outubro de 1988, por lei infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado, e ponham passado nisso.
Assim, menos de 450 mil índios brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também por tabela – passaram a ser donos de mais de 15% de todo o território nacional, enquanto os outros 195 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% do restante dele. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados.
Aos “quilombolas”, que deveriam ser apenas aqueles descendentes dos participantes de quilombos, e não todos os afrodescendentes, em geral, que vivem em torno daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de território consideravelmente maior do que a Constituição Federal permite (art. 68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra nesse conceito.
Os homossexuais obtiveram do presidente Lula e da ministra Dilma Rousseff o direito de ter um Congresso e Seminários financiados por dinheiro público, para realçar as suas tendências – algo que um cidadão comum jamais conseguiria do governo! Os invasores de terras, que matam, destroem e violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que este governo considera, mais que legítima, digamos justa e meritória, a conduta consistente em agredir o direito. […]
Desertores, terroristas, assaltantes de bancos e assassinos que, no passado, participaram da guerrilha, garantem a seus descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes brasileiros. […]
E são tantas as discriminações, que chegou a hora de se perguntar: de que vale o inciso IV, do art. 3º, da Lei Suprema? Como modesto professor, advogado, cidadão comum e além disso branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço nesta sociedade, em terra de castas e privilégios, deste governo.

Gandra não está só. Sua dor extrapola as fronteiras brasileiras.

O ator norte-americano Bo Burnham compôs um hino em tributo a essa parcela da humanidade jogada às traças, esses párias.

Posto aqui o vídeo da canção com trechos da letra traduzida na sequência.

Andando por aí
Não tenho ninguém com quem falar
Há todos
E então só fico eu
Se eu pudesse mudar
Você não acha que eu faria isso?

Só Deus sabe
Por que ele me amaldiçoou fazendo de mim
Um homem branco hétero

Eu conto meus problemas
Outras pessoas se entediam
[…]
Eu sei que a estrada parece difícil à frente
As mulheres querem direitos
Os gays querem crianças (o quê?)
Vocês não podem nos deixar em paz?
[…]

Todo mundo acha que minha vida é fácil
Só porque é verdade
Não significa que esteja certo
Então puxe uma cadeira
E deixe de lado seu tridente
Me dê uma chance
Para mostrar o que é
Ser um homem branco hétero

A Constituição do meu país
Foi escrita à mão pela minha raça
[…]

Homem branco hétero
Eu sei que a estrada parece difícil à frente
As mulheres querem direitos
Os negros querem
Não ser chamado de “os pretos” (desculpe)
Vocês não podem nos deixar em paz?

Homem branco hétero
Saiba que a estrada parece difícil à frente
As mulheres querem direitos
Os negros também
Costumávamos ter todo o dinheiro e a terra
E ainda temos
Mas não é tão divertido agora

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