Lula: O mesmo MP que invadiu minha casa não se manifestou sobre a acusação de corrupção contra a Globo

Em entrevista exclusiva a Fernando Morais, neste bloco 1, Lula faz um balanço das caravanas pelo Nordeste e por Minas Gerais, e conta o que espera de 2018: “Que a gente tenha eleições livres e democráticas”.

Via Nocaute em 17/11/2017

Fernando Morais: Boa tarde, presidente Lula. É uma alegria estar aqui com o senhor. O presidente Lula nos deu a honra de ser o primeiro entrevistado aqui do estúdio, o nosso modesto estúdio do Nocaute. Vamos conversar um pouco sobre ele e sobre o Brasil. Antes, porém, eu queria que ele fizesse a gentileza de grudar ali do lado do Cassius Clay a nossa plaquinha.
Lula: Está inaugurado. Um pouco torto, mas está inaugurado.

Fernando Morais: Presidente, primeiro eu queria começar com as coisas mais suaves: caravana. O senhor tinha feito antes uma caravana para o Nordeste, mais demorada, que eu não pude ir. Mas eu fui na segunda, a de Minas Gerais e eu fiquei muito bem impressionado. Eu queria saber a sua impressão. Qual é o saldo que fica para o senhor dessas duas caravanas, que vão continuar semana que vem.
Lula: Primeiro eu pensei que você ia começar no dia 16 de novembro me perguntando da vitória do Corinthians ontem. Porque ontem o Corinthians antecipadamente se tornou pela sétima vez consecutiva campeão brasileiro, que não é pouca coisa. E como no Brasil nós temos duas coisas: um partido político é o PT e o resto é antipetista. E no futebol você tem o time de futebol que é o Corinthians, o resto é anticorintiano. Então, eu só posso estar feliz porque eu trabalho com muito palmeirense.

Fernando Morais: Você assustou na hora que o Fluminense fez o gol?
Lula: Me assustei. Te confesso que me assustei. Pensei: não é possível que vai dar urucubaca. Mas depois a gente mostrou que a gente estava em primeiro lugar porque o time tinha estabilidade emocional, tinha autocontrole. Porque o nosso time não é dos melhores. O Corinthians já teve time melhor, mas na draga que está o futebol brasileiro, o Corinthians mereceu esse título. Vamos pensar agora no terceiro título mundial.

Fernando Morais: Beleza! Deus te ouça.
Lula: A caravana.

Fernando Morais: A caravana. Primeiro a do Nordeste.
Lula: Fernando, a caravana teve como objetivo. Eu tinha duas coisas na cabeça quando pensei a caravana. Primeiro, fazer um reencontro com o Brasil. O Brasil é muito grande, muito heterogêneo, é uma diversidade cultural, econômica e social muito grande. E eu tinha noção do que nós tínhamos feito no período que governamos o Brasil e queria ver, nesse momento de desmonte do Brasil, o que estava acontecendo com os setores da sociedade que tinham sido os setores mais beneficiados com os programas de inclusão social.
Então, resolvi fazer esse reencontro com o Brasil e uma tentativa de fazer com que o PT recuperasse a sua imagem diante da sociedade brasileira, porque os meninos do Ministério Público resolveram criar a ideia de criminalizar o PT. A ponto de tentarem dizer que o PT é uma organização criminosa. Era preciso recuperar a moral da tropa, recuperar o PT, fazer o PT ir pra rua. E mostrar para o PT que ninguém vai defender o PT, a não ser o próprio PT. Ou seja, ou o PT se conscientiza que a acusação que se faz ao PT na perspectiva de criminalizá-lo e tirá-lo da legalidade política, como já fizeram com o Partido Comunista no auge do PC no Brasil, inventaram essa mentira do PowerPoint para tentar no fundo acabar com essa coisa que começou a ser conhecida pela sociedade que são as políticas de inclusão social. Fazer com que as pessoas possam subir um degrau na escala social. Que as pessoas possam comer melhor, trabalhar melhor, ganhar melhor. Sabe? Que as pessoas possam conquistar a cidadania. Então, era esse o objetivo. E o sucesso foi extraordinário.
A do Nordeste, eu sou suspeito porque eu sou nordestino, então o pessoal fala que eu gosto muito do Nordeste e o Nordeste gosta muito de mim. Eu tenho orgulho de ser nordestino e tentei fazer para o Nordeste, não uma política de privilégio, tentei fazer com que aquela distorção que vinha existindo desde que D. João VI chegou ao Brasil e foi para o Rio de Janeiro. Porque até então, Pernambuco era o estado rico do Brasil e começou a fazer com que os investimentos saíssem do Nordeste e viessem para o Sul e para o Sudeste. Nós queríamos fazer que o Nordeste tivesse um pouco mais de ajuda do estado brasileiro para que o Brasil se tornasse mais igual, mais equânime. Para que o desenvolvimento ficasse espraiado por todo o território nacional e não apenas no eixo Rio-São Paulo-Minas Gerais. E isto eu fiz com muito gosto. Tanto no campo da saúde, da educação, da ciência e tecnologia e no campo da geração de oportunidade. Então, foi extraordinária essa caravana. Eu acho que o resultado foi extraordinário.
Aí eu queria fazer uma no Sudeste. Eu resolvi fazer numa região que eu tenho verdadeira paixão que é aquela parte mais empobrecida da região, não que seja pobre, mas um pouco mais empobrecida de Minas Gerais que é o Vale do Jequitinhonha. Eu tenho uma admiração pela capacidade cultural daquele povo. Mesmo vivendo em adversidade social é um povo muito criativo. Resolvi estar perto e para mim foi uma surpresa agradável, foi uma emoção o companheirismo, a presença das pessoas. Terminei Minas Gerais, eu agora vou fazer uma outra pelo Espírito Santo e pelo Rio de Janeiro e deixar para depois do carnaval fazer os estados do Sudeste e do Sul, começar pelos estados do Sul. E depois fazer a caravana do Norte, a caravana do centro-oeste. Aí eu termino e vamos ver o que vai acontecer no Brasill.

Fernando Morais: Dez entre dez brasileiros gostariam de saber o que é que o senhor acha que vai acontecer em 2018 no Brasil.
Lula: Primeiro um desejo pessoal: eu espero que o povo brasileiro esteja melhor, que tenha diminuído o número de pobres e aumentado o número de emprego, que as pessoas estejam comendo melhor, morando melhor e tendo mais expectativa de vida. E que a gente tenha eleições livres e democráticas. O que eu espero é que o jogo democrático no país que foi truncado durante tanto tempo na história do Brasil da forma mais vergonhosa possível, com uma mentira inventada de uma pedalada, desrespeitando 54 milhões de seres humanos que foram votar na Dilma. Fora aqueles que foram votar no Aécio e que, portanto, queriam democracia. Desrespeitaram mais de 100 milhões de votos para fazer com que uma pessoa que tenha assumido o cargo de deputado, sub judice, porque nem isso ele tinha eleito, assumisse a Presidência da República, para prestar serviço ao mercado e tentar desmontar toda a estrutura de desenvolvimento que o Brasil conseguiu construir ao longo de tantos anos. Espero que a gente chegue nas eleições, não importa quantos candidatos tenha, o importante é que as eleições sejam democráticas e que vença o que tiver mais votos e que respeitem o resultado das eleições como eu respeitei em 89, 94 e 98.
Então eu acho que eleição é feita para isso. Você fala a verdade, você conta mentira, faz o que você quiser, mas o importante é que tem o dia D que é o dia de abrir as urnas. Ali tem o resultado, o resultado tem que ser acatado e governa quem ganhou as eleições. Isso é consolidar a democracia no Brasil.

Fernando Morais: O senhor tem expectativa de que vão permitir que o senhor dispute as eleições?
Lula: Eu nem discuto isso. Porque se eu ficar discutindo: será que eles vão deixar, será que eu posso? Aí eu estou fazendo o jogo deles. Eu sei o que eles querem e eu sei o que eu quero. Eles não querem que eu seja candidato. Então, não tem nada melhor do que perguntar para o povo. O povo pode me condenar, ou o povo pode me eleger de novo presidente da República desse país. Eu só quero livremente provar a minha inocência, aliás eu já provei a minha inocência em cada processo. Eles que têm que encontrar provas de que eu sou culpado. E tentar tocar a vida e cuidar desse povo. Porque esse povo está precisando de cuidado. Esse povo não está precisando ser governado, esse povo está precisando de cuidado. E cuidado significa você cuidar da saúde, da educação, da segurança, da creche, universidade. Significa você cuidar do investimento em Ciência e Tecnologia, cuidar do emprego, cuidar das pessoas que ganham menos. Significa você respeitar o exercício da democracia e ao invés de tomar decisões palacianas com meia dúzia de pessoas. Voltar a fazer as conferências nacionais que eu fazia, voltar a fazer as políticas públicas que a sociedade quer que sejam implantadas. Fazer com que o Brasil seja respeitado na África, na Ásia, nos Estados Unidos. Porque respeito é bom. Eu gosto de receber e gosto de dar também. É isso que eu quero que aconteça no Brasil. E é por isso que eu tenho a firme convicção e muita vontade de concorrer nas eleições na expectativa de que o que nós fizemos é o passaporte para que esse povo nos dê mais uma autorização de uma viagem de 4 anos governando esse país.

Fernando Morais: Agora presidente, a perspectiva, a possibilidade de que a Justiça impeça o senhor de ser candidato já está permitindo muita gente, sorrateiramente, de querer tomar o seu legado de voto, de apoio popular. Como que o senhor vê essa mobilização? Porque a esquerda vai ter que ter candidato. Se não for o senhor, o que vai acontecer?
Lula: O povo não pode ser visto, tratado e pensado como gado, rebanho, que alguém é dono, que pode dizer “Vai pra lá, vai pra cá”. Não. Obviamente que, se eu puder ter influência num eleitor para votar em mim, eu vou ter. Se eu não for ser candidato, eu faria o que eu fiz a vida inteira: ser cabo eleitoral daquela pessoa que eu achar mais justo para concorrer. Eu trabalho com a seguinte ideia. Primeiro eu trabalho com a convicção e a certeza de que eu vou ser candidato à presidência da República. Se eu for candidato, eu tenho muita, mas muita certeza que as possibilidades de ganhar são enormes e eu confio muito que o povo vai compreender o que nós fizemos nesse país e o que ele pode esperar, porque vamos dizer às claras o que nós queremos fazer no Brasil. E esse país tem que voltar a crescer, o povo tem que voltar a ser feliz, o povo tem que acreditar no futuro, o povo tem que ter esperança. E o povo brasileiro sabe de uma coisa.
Se tem uma coisa que eu aprendi a fazer com o próprio povo foi a cuidar dele com carinho, a saber quem mais precisa, saber para quem o Estado tem que governar. Obviamente o Estado tem que ser de todos. Mas dentre esses “todos” você tem aqueles que precisam mais do que o outro. Você vai dar água para quem tem sede. Quem tem fartura de água vai ter que emprestar um pouco para quem tem sede. Você vai dar mais comida para quem tem fome. Quem tem muita comida vai ter que dar um pouco. É assim que a gente vai construir um mundo mais solidário, uma sociedade mais humanista. Um povo com uma concepção de solidariedade maior. Eu sonho.
Agora, o que está acontecendo? Eu acho que quem está numa encalacrada não sou eu. Eu acho que há uma perspectiva e uma tentativa de julgar os 12 anos do PT no governo. E para fazer esse julgamento eles construíram uma mentira monstruosa. Construíram uma mentira, criando a ideia e apresentando em rede nacional de que o PT era uma organização criminosa, de que o PT nasceu para ser uma quadrilha, que o PT pensou em ganhar para poder roubar. E que quando eu ganhei, montei para roubar.
Eles querem julgar porque eu indiquei, porque eu não escolhi você para ser secretário de comunicação, porque eu escolhi o Franklin Martins, porque que eu indiquei não sei quem. Como se alguma pessoa soubesse anteriormente que um cidadão vai roubar. Ninguém tem escrito na testa que é ladrão. Às vezes as pessoas mesmo sendo ladras elas parecem as mais honestas do planeta.
Eu estou sendo acusado de uma série de bobagens. Eu fico até irritado com os depoimentos porque são de uma cretinice sem tamanho. E como esse processo, tem coisas sérias nele. É importante aproveitar o Nocaute para dizer que eu não sou contra a Lava-Jato, de combate à corrupção. Tem coisa muito importante. O povo brasileiro fica feliz de saber que rico está indo para a cadeia, de saber que, se o político roubou, vai para a cadeia. Porque antes só ia para a cadeia o cara que roubava um Melhoral na farmácia, o cara que roubava um pão, uma galinha. Esse coitado vai preso e passa 3 anos na cadeia sem ter um advogado que faça assistência pra ele. Então isso é importante. Mas é importante separar o joio do trigo. Todo processo, para rico e para pobre, ele tem que ter um determinado critério. As pessoas têm que ter direito à defesa. As pessoas não podem ser acusadas e condenadas pelos meios de comunicação. Porque no caso do PT, eu já apresentei todas as minhas defesas, todas as provas da minha inocência e eles até agora não apresentaram uma única prova de culpa.
Aliás, o promotor que é o chefe do PowerPoint nunca apareceu em nenhuma audiência. As audiências não são levadas em conta. Só para você ter ideia, essa audiência agora, no caso da Zelotes que fala dos caças, nada menos do que Dilma Rousseff foi testemunha, Nelson Jobim, que foi ministro da Defesa, companheiro Celso Amorim, foi ministro da Defesa também, o brigadeiro Saito e os militares responsáveis pela escolha técnica. Então eu não sei em que momento de loucura alguém imaginou: “Bom, o Lula teve influência na escolha dos caças”. E por aí vai.
Eu fui prestar depoimento sobre o estádio do Corinthians. Eles não leem jornal e só aqueles que eles querem ler, e não sabem que eu defendia que a Copa do Mundo fosse realizada no Morumbi. Que eu levei no Morumbi o Serra, o Kassab, o Alckmin, a Confederação Brasileira, que era para todo mundo ver: temos um estádio pronto, vamos fazer.
Eu defendia que São Paulo, como era o estado mais importante da federação, o mais rico, o que tem o melhor futebol, não poderia ficar de fora da abertura da Copa do Mundo. Era até uma coisa engraçada porque o Sérgio Cabral falava: “Eu quero que o encerramento da Copa do Mundo seja no Rio de Janeiro”. E eu falava: “Sérgio, o encerramento você não sabe se o Brasil vai estar. Na abertura você sabe, então é melhor você querer fazer a abertura no Maracanã”. O que aconteceu é que o Brasil nem jogou no Maracanã.
Então é por isso que eu tenho consciência de que eu vou ser candidato. Eu acho que em algum momento as coisas vão clarear. Acho que em algum momento as pessoas vão perceber alguma coisa errada nessa coisa contra o PT. E eu digo para todo mundo: se no PT tiver alguém culpado, se no PT tiver alguém que roubou, essa pessoa tem que pagar. Mas essa pessoa tem que ter um julgamento certo. Isso vale para mim, para você, para qualquer um. Ninguém está acima da lei. Eu quero que todo mundo seja tratado em igualdade de condições, sem mentira.
Eu não quero falar mal de ninguém aqui, acho que todo mundo é inocente até que prove o contrário. Mas eu não sei se o Jornal Nacional vai dar o mesmo destaque que deu a mim durante 30 horas, desde que começou a operação Lava-Jato, à acusação desse empresário argentino que diz da corrupção praticada pela Globo. Eu nem sei se é verdade. Eu defendo que a Globo tenha direito de defesa, que seja apurado corretamente, e ela será inocente até que prove o contrário. Mas alguém tem que investigar. O que eu acho estranho é que o Ministério Público até agora, o mesmo MP que invadiu o Instituto Lula, que invadiu a minha vida, até agora não falou nem fez nada. Espero que faça para a gente descobrir se é verdade que teve influência de um canal de televisão que deteve o monopólio seja na Copa das Confederações, seja na Copa do Mundo, seja no Sul-Americano, seja na Copa Brasil. O que é importante é que o futebol é uma paixão nacional e eu acho que está na hora dos jogos serem transmitidos ao vivo em todos os canais para todo mundo que possa ver e não só para quem possa pagar uma TV a cabo.
Sinceramente, eu poderia estar mais nervoso, mas estou tranquilo. Estou tranquilo porque tenho consciência do que eles querem, do que eu fiz, do que eu posso fazer por esse país, e quero jogar. E, com todo respeito aos demais candidatos, não sou contra ninguém que seja de direta, de centro, extrema direita, extrema esquerda, tem espaço para todo mundo, e o povo será o nosso juiz.

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LULA: VAMOS PARAR COM O PRECONCEITO. QUEM BUZINA ALTO NÃO É NEGRO.
Está cheio de branco buzinando alto e jogando latinha de cerveja na rua limpa de São Paulo para que os mais humildes recolham. O preconceito é uma doença e eu quero extirpar essa doença do Brasil.

Via Nocaute em 17/11/2017

Fernando Morais: Na caravana, na de Minas, pelo menos, o senhor tocou com insistência em dois pontos que me parecem fundamentais para a sociedade, não para um setor da sociedade, para a sociedade como um todo. Primeiro, é o seguinte. Se eleito presidente da República reaver o que o governo golpista do Temer está vendendo da soberania nacional da bacia das almas. O primeiro é ver o que o governo Temer fez que feriu a soberania ou os direitos adquiridos dos trabalhadores. Esse é o primeiro item que eu gostaria que o senhor desenvolvesse um pouco mais. O segundo é a democratização dos meios de comunicação no Brasil. Eu me lembro que em determinadas cidades a impressão que dava era que se fosse tocar neste assunto o povo ia receber com frieza. A tigrada uivava quando o senhor falava nisso.
Lula: É porque o povo, o povo sabe o que está acontecendo. O que eu estou propondo na verdade é propor um referendo revogatório. Ou seja, você aprovar no Congresso Nacional um referendo para que o povo dê autorização para fazer as reformas.
O que precisa ser feito? Sobretudo o desmonte de empresas públicas brasileiras como a Petrobras. Porque a Petrobras não é apenas uma empresa de petróleo. A Petrobras é uma espécie de empresa de desenvolvimento neste país. Tem milhares de pequenas empresas que dependem do crescimento, do desenvolvimento da Petrobras. A Petrobras é a empresa que mais investia em pesquisa neste país. Ou seja, nós não achamos o pré-sal por acaso. Nós achamos o pré-sal porque fizemos muito, muito, muito investimento em pesquisa.
E quando a gente descobriu o pré-sal eles diziam “não, porque não vai dar certo, está a sete mil metros de profundidade”.

Fernando Morais: “É economicamente inviável”, diziam.
Lula: É inviável, não sei das quantas, é o xisto, o gás de xisto norte-americano que é barato. Passados três anos, o que acontece? O barril do petróleo antes do imposto tirado do pré-sal custa oito dólares e meio. Na Arábia Saudita custa seis dólares e meio. Portanto, o nosso petróleo está muito barato, porque a Petrobras investiu em tecnologia, conhecimento, e a gente consegue tirar hoje mais da metade do petróleo que consumimos já do pré-sal. Esta é uma coisa.
A outra coisa é você não permitir a destruição de bancos como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, O BNDES, que são instrumentos da política econômica do governo. Na crise de 2008, se não fossem os bancos públicos, se não fosse o BNDES, a gente tinha entrado em uma crise profunda como entrou a União Europeia, como entraram os Estados Unidos.
Foi valendo-se dos bancos públicos que a gente continuou fazendo financiamento. Foi passando seis bilhões para o BNDES que a gente conseguiu fazer financiamento e investimento. Se o governo abrir mão disso, o governo vai ficar refém do mercado a vida inteira e não é correto.
Eu não sou defensor, Fernando, de um Estado empresarial. O Estado tem que fazer? Não. Eu sou defensor do Estado indutor. Ou seja, o Estado tem que ter instrumentos de indução. Ou seja, de levar desenvolvimento para as mais diferentes regiões do Brasil, para permitir que as pessoas possam viver numa sociedade equânime, em um país mais igualitário.
Não é uma região em que se pode comer quatro vezes por dia e na outra não pode comer nem uma vez por dia. Em todas tem que poder comer três vezes por dia. Então eu quero pedir licença. O direito trabalhista, ou seja, rasgaram a CLT. Não que a CLT não precisasse de uma adequação. Afinal de contas ela foi feita pelo Getúlio em 1943. Ela merece uma adequação. Muita coisa já tinha sido mudada por lei ordinária neste período todo. Mas você pode adequá-la a cada tempo, a um novo mercado de trabalho, ao mundo. Mas não da forma como eles fizeram. Você junta o movimento sindical, os empresários, junta os estudiosos, bota o governo, e vamos debater o que você faz para aprimorar e adequar a legislação à realidade histórica que você está vivendo.
A outra coisa é não permitir a reforma da Previdência que eles vão querer fazer a toque de caixa. A outra coisa é evitar um desmonte do que eles já fizeram. Já fizeram muito desmonte. Na Petrobras. E não permitir que vendam a Amazônia como estão vendendo. O que eu quero na verdade é conquistar o direito do povo brasileiro de revogar determinadas coisas. Um país não poderá abrir mão da sua soberania. Um país tem que consultar seu povo para decidir. E somente o povo daquele país é que pode decidir o que fazer com seu próprio país. Como pode um presidente que não foi eleito ficar entregando empresa, ficar entregando bloco do pré-sal, ficar entregando terra na Amazônia. Ficar entregando Alcântara para os norte-americanos fazerem uma base.
É a vergonha elevada à quinta potência. Um país que é a oitava economia do mundo – no nosso governo era a sexta – permitir que os norte-americanos venham fazer uma base em Alcântara. Uma base que começa com um experimento para não sei o quê espacial e daqui a pouco os norte-americanos estarão dando ordem aqui, tentando controlar, como tentam controlar outros países.
É importante as pessoas saberem. Eu não vou mentir durante a campanha. Quem votar em mim vai votar sabendo o que vai acontecer. Eu vou pedir ao povo brasileiro – e por isso eu falei do referendo revogatório – para que a gente mude algumas coisas absurdas que foram feitas. E obviamente eu acho que o povo vai dar autorização porque o que eles estão fazendo é um estelionato. Estuprando a nossa democracia e a nossa soberania. Realmente isso me revolta.
Me revolta porque nós temos um território imenso. Nós temos uma fronteira, tanto marítima, como seca imensa. Nós temos um povo ávido para conquistar a democracia. Nós não vamos permitir que eles o Brasil desenvolvido. Essa é uma coisa que eu sonho, sabe? De propor um referendo revogatório.
E a outra coisa é a questão da democratização dos meios de comunicação. Este é um tema sempre muito delicado porque toda vez que você fala da imprensa aparece alguém e fala assim para você: “mas presidente, o senhor precisa conversar mais com a imprensa. Por que não chama a Globo para tomar um café ou para jantar? Por que não chama a Veja para um almoço, para jantar?”. Sabe? Eu acho que eu engordei de tanto conversar com eles. E não resolve, é uma questão ideológica.
Não quero censurar nada porque eu sou contra a censura. Quem tem que censurar a rádio é o ouvinte. Quem tem que censurar a televisão é o telespectador. Quem tem que censurar os jornais, sabe, é o leitor. E quem tem que censurar a internet é o internauta.
Ou seja, o que nós queremos é garantir a democratização. Que as pessoas também possam ter acesso aos meios de comunicação. Que a gente possa garantir o direito de resposta decentemente. Que a gente possa fazer com que as universidades tenham televisão. Que o sindicato tenha televisão. E que a gente possa efetivamente democratizar.
Eu não quero uma televisão como a de Cuba. Eu não quero uma televisão como a da China. Não quero uma regulação como a chinesa. Eu quero uma regulação que pode ser igual à inglesa, igual à alemã, igual a dos Estados Unidos. O que eu quero é que esse país tenha mais gente podendo ter acesso a ter um canal de televisão, e não ficar subordinado a nove famílias que detêm isso há meio século. É isso que eu quero fazer.
Nós tínhamos um projeto que era para dar entrada quando a Dilma tomou posse. Eu acho que ela também foi induzida, como eu, a que uma conversinha a mais resolve. Um café a mais resolve, um jantar a mais resolve. Não resolve.
Então, acho que é preciso fazer com que a sociedade discuta essa condição dos meios de comunicação porque um país deste tamanho tem que ter informações corretas. Se o dono de um jornal, um canal de televisão, um rádio quiser ter um pensamento políticos ele tem direito de ter um editorial de dez minutos, do tempo que ele quiser para falar o que pensa. Agora, quando for informação, quando for fato, nós queremos que ele seja verdadeiro, que não minta. É só isso. Não mintam. Não digam inverdades como eles costumam dizer todo santo dia.
Eu acho que eles na hora em que estiverem acessando o Nocaute vão ficar nervosos. Até dizem que “não podemos mais votar no Lula porque o Lula está ultra-esquerdista”.
É importante lembrar, Fernando, que quando eu deixei a presidência da República, eu era quase que unanimidade. Eu tinha 87% de bom e ótimo, 10% de regular, que se somado, pode subir, e só tinha 3% de ruim e péssimo, que devia ser do comitê dos meus amigos tucanos.

Fernando Morais: O oposto do Michel Temer.
Lula: É verdade. Então hoje eles querem mostrar para a sociedade que aquele Lula paz e amor não existe mais. Agora é o Lula raivoso. Não existe o Lula raivoso. O Lula com 72 anos não tem mais o direito de ficar raivoso. Eu fico sim indignado com a falta de respeito, com o preconceito, com o ódio, ódio, porque chega a ser ódio.
Então, ninguém pode ficar nervoso porque as pessoas mais pobres da periferia estão chegando à universidade. Ninguém pode ficar nervoso porque o salário mínimo aumentou, porque a empregada doméstica tem seu trabalho regulado. Isso é bom. Isso é bom para o povo pobre, é bom para a classe média e é bom para o mais rico.
As pessoas terem acesso à universidade, à boa educação, é a única chance de este país ser competitivo. Ser competitivo do ponto de vista comercial, ser competitivo do ponto de vista intelectual, do ponto de vista político. Não existe na história da humanidade nenhum país que ficou rico, que cresceu, sem educação.
Então é este o crime que estamos cometendo? Permitir que as pessoas comam, que as pessoas recebam um salário, que as pessoas trabalhem, que as pessoas estudem? Então esse é o tipo de crime que estamos cometendo. Colocar mais gente na escola, melhorar a qualidade das escolas. Essas coisas todas nós vamos fazer e não tem radicalismo, não. Não tem radicalismo. Qualquer cristão do mundo faria isso.
Até o Henry Ford dizia isso: “Eu tenho que pagar bem meus trabalhadores para que eles possam comprar os produtos que eu fabrico”. Então, eu estou mais indignado que eu estive da outra vez. Porque da outra vez eu não conhecia vocês, fiz muita relação com empresário, fiz relação com meios de comunicação, e eu percebi que o problema dessa gente não é ganhar ou não ganhar. É que democracia para eles é só se eles estiverem no governo ou estiverem um bate pau deles, como está o Temer agora, para fazer o que eles querem. Porque o mercado precisa. Eu não vou pedir voto para mercado, vou pedir para o povo. Vou para rua. Se por acaso o mercado estiver na rua, aproveita e vota em mim também. Porque acabou o tempo. Eu fico ouvindo o discurso deles. Eu lembro que na campanha de 2002, em 89, eu ia fazer passeata aqui na Paulista, ali no centro bancário, a bolsa de valores fechava as portas com medo do demônio. Depois eu ganhei as eleições, eles nunca tiveram… Antes de eu chegar na presidência, eles faziam 4 IPOs. No meu governo fizeram 150. Essa gente tem medo de ganhar dinheiro honestamente. Nós vamos fazer eles ganharem dinheiro. Mas não vão ganhar dinheiro apenas especulando. É preciso que vocês pensem no Brasil. Eu vou querer discutir reforma tributária durante a campanha. Não vou deixar nada para fazer depois. Todo mundo que me conhece sabe que não tem conversa às escondidas.
Não acredito em mágica na economia. A economia tem duas palavras chaves. A primeira é a credibilidade de quem a faz. A segunda é previsibilidade para que o país não seja pego de surpresa. E a terceira, que para mim é a mais charmosa de todas, é que temos que ter dinheiro circulando na sociedade. Os mais pobres, os trabalhadores, os assalariados, eles têm que ter acesso a financiamento, a crédito. Quando eles têm acesso, ele não pega mil reais no banco para comprar dólar, ele pega para comprar arroz, feijão, carne, pão. E isso vai desenvolver a economia.
A gente tem que criar políticas de incentivo ao microempreendedorismo. As pessoas gostam de trabalhar por conta própria então temos que criar condições poderem trabalhar, criar seu próprio negócio. Estou com muitas ideias na cabeça e é isso que eu quero fazer. Não tem nada radical na minha vida, tudo é com muita calma e construção coletiva, e com muita participação da sociedade. É isso que eu vou fazer e tenho muita fé em Deus.

Fernando Morais: No ano que vem, o senhor sendo candidato, o senhor vai ter que, obrigatoriamente, por causa da forma como o Brasil se organizou politicamente, o senhor vai ter que fazer alianças para governar. Para a esquerda, o espectro é muito pequeno, não dá para fazer maioria. O senhor vai ter que ir atrás do pessoal que enfiou a faca nas suas costas? Como vai ser isso?
Lula: Deixa eu te contar uma coisa para ficar claro para a sociedade brasileira. Eu já falei isso muitas vezes, mas vou repetir aqui porque você está inaugurando o estúdio. Primeira vez que eu venho aqui no Nocaute e dou entrevista, então é o seguinte. Primeiro, você vai ter que lidar com o povo do jeito que o povo é. O ideal num partido político seria que o partido pudesse disputar uma eleição sozinho, fazer maioria no Congresso, na Câmara e no Senado, e eleger o presidente da República. PMDB fez isso em 86 e não deu resultado. A segunda coisa mais ideal seria, não ganhando sozinho, você pudesse ganhar com os partidos aliados de esquerda. Pegar todo o bloco de esquerda e fazer maioria, fazer presidente, 26 governadores, todos os senadores e deputados. Também não é possível. A terceira coisa ideal é você fazer aliança programática com quem foi eleito.
Uma vez eu fui para Espanha conversar com Felipe Gonzalez, na campanha de 89, eu não esqueço nunca. Eu falava muito naquele tempo em democratizar as Forças Armadas. E aí o Felipe Gonzalez me fez a seguinte pergunta: como que você vai fazer para democratizar um general? Eu falei que tudo começava pela base, ensino fundamental, você tem que ir preparando, aí o cara vai pro ensino médio, para universidade… O cara falou: “Ô, Lula, sabe o que acontece? Deixa eu te dar uma informação. O seu mandato é de 4 anos. Um general para ser formado precisa de 40 anos. Então não dá para você criar seu general democrático. Você vai ter que aprender a conviver com os que são generais quando você ganhar as eleições”. Na aliança política é a mesma coisa. Quem disser que não vai fazer aliança política, não governa o país.
Eu pergunto o seguinte: Fernando Morais, candidato à presidência da República, marxista-leninista ortodoxo, eu não faço aliança com ninguém, PT é de direita, ganha as eleições. Fernando de Morais é eleito presidente da República, cinco deputados federais e dois senadores. Tem 81 na casa de senadores de 513 deputados. Como você governa? Você vai ter que sentar, você pode fazer um acordo programático.
Uma coisa que precisamos fazer é parar de negociar cargo e cada partido político ser responsável pelo que ele tem. Porque se você fizesse um acordo com um partido qualquer e esse partido tivesse um ministério e autoridade para montar seu ministério, você vai montar o Ministério da Educação, ele é teu. Você vai escolher a equipe, é tua. Se der resultado, maravilha, o Brasil ganha. Se der errado, uma desgraça. O Brasil perde e você também.
O problema é que depois que você faz um acordo com os partidos, o que é memorável na democracia em qualquer lugar do mundo, menos nos EUA, que não acontece isso porque é muito rachado, republicanos e democratas. Mas na Alemanha você está lembrado? Antigamente, os cristãos não faziam acordo com a social democracia. Agora cabe qualquer um para Ângela Merkel construir a maioria dela. Na França ele não precisou agora, mas ele vai ver quando começar a governar.
Eu acho que o que não dá é depois que você faz um acordo partidário, aí o cara fala: “Eu quero a chave do prédio. Eu quero o motorista não sei das quantas”, você vai banalizando a arte de um acordo partidário, que deve ser uma coisa certa, séria e importante para manter a governança de um país. Sempre trabalhando na expectativa de que você vai colher como resultado eleitoral o povo brasileiro votando em gente mais séria, mais comprometida.
Quando você é candidato, pedem declaração de renda, e tal, mas não tem nenhum mecanismo para você apurar se o cara vai ser ladrão depois que ganhar. Você faz um levantamento, o cara não tem antecedentes criminais, o cara pode ser candidato. Você não vai saber o que ele vai ser. Então esse é um assunto que eu quero discutir com o povo durante a campanha. Por isso que é importante você ter um programa com temas muito importantes para você dizer pro povo: olha, se você quer que isso aconteça no Brasil, você só pode votar em gente que pensa assim. Não pode votar em gente que você já sabe antecipadamente que é um vigarista na sua região. É preciso também cobrar do povo muita seriedade no processo eleitoral, porque esse Congresso que está aí é a parte da cara política do eleitor brasileiro no dia da eleição. Essas pessoas pediram e ganharam voto. Eu quero repartir com o povo a responsabilidade de que não é o presidente que vai resolver todos os problemas. A sociedade tem que ser coparticipante da elaboração desse projeto. Ela tem que ser a responsável pela eleição, pela fiscalização e eu diria pelo bom resultado que a gente tem no país.
Eu não esqueço nunca que fizemos 74 conferências nacionais no meu governo. Conferências que começavam no município, depois para o estado e aí a nível nacional. Discutíamos todos os temas. Eu lembro quando eu fui fazer conferência nacional LGBT, muita gente ligada a mim disse “não, presidente, o senhor não pode ir. E se alguém beijar o senhor na boca? E se um travesti beijar e se abraçar”. Eu falei “Gente, se eu estiver com medo disso, eu não mereço ser presidente”. Essa gente, qualquer que seja o comportamento sexual dele, paga imposto de renda e quando vota, ninguém recusa. Por que eu vou tratá-lo diferente? Vou ouvir o que eles têm a dizer. São cidadãos e cidadãs brasileiros. E foi um aprendizado e é por isso que hoje eu sou um defensor de que essas pessoas tenham total liberdade. Por isso que o PT criou um setorial LGBT. Vamos parar com o preconceito. Quem buzina carro alto não é negrão. Tá cheio de branco buzinando carro alto e jogando latinha de cerveja na rua limpa de São Paulo para que os mais humildes recolham. O preconceito é uma doença e eu quero extirpar essa doença do Brasil.

***

LULA: EU NUNCA TINHA VISTO A MÍDIA INSTIGAR TANTO ÓDIO COMO NO PERÍODO DE 2013 ATÉ 2017
“É bem verdade que depois do Temer, o povo descobriu que foi enganado literalmente. Eu penso que a sociedade está voltando a uma certa normalidade”.

Via Nocaute em 18/11/2017

Fernando Morais: Presidente, numa entrevista que eu fiz com a presidente Dilma Rousseff, ela chamou a atenção para um aspecto que é o seguinte: Fernando Henrique governou aliado com três partidos, o senhor com 12 e ela com 20. Ela dizia que não são vinte propostas diferentes para o Brasil. Só muda isso, e aí sou eu quem estou dizendo, com a Constituinte exclusiva. O senhor acha que deputado vai votar alguma coisa que vai impedi-lo de voltar para a Câmara no ano seguinte? Não vai. Qual é a solução?
Lula: Deixa eu te dizer uma coisa engraçada. Nós tínhamos um coordenador político. Eu tive o Aldo Rabelo, o Jaques Wagner, o Tarso Genro, o Zé Múcio que está no Tribunal de Contas, tive o Padilha. Então, qual é o problema hoje? A Dilma fez com vinte, quem entrar hoje vai fazer com trinta e dois. Porque todo dia nasce um novo partido.
Qual é o problema? Um dia você poderia chamar um desses caras que coordenou política para saber.
Então, eu faço um acordo com o partido do Fernando Morais. Vamos supor que seja o PF o partido do Fernando Morais. Então, o Fernando Morais vai lá, acerta comigo e diz: presidente, eu ficaria satisfeito se o senhor me desse o Ministério das Minas e Energia que eu sou especialista nisso, essa área eu domino. Aí eu digo: Fernando é você. Aí o Fernando aceitou, o presidente fala: estou satisfeito porque foi indicado um cara sério. Na semana seguinte aparece a bancada do partido do Fernando Morais, lá de um estado e fala assim: presidente, aquele acordo é para o Fernando Morais, mas e o meu estado? O meu estado não foi contemplado, a minha bancada é de dez e tem mais uns aliados aqui, são vinte, presidente. É preciso a gente ter um cargo. Eu digo: vá falar com o Fernando Morais. Eles dizem: não adianta falar com eles, nós vamos esperar. Eu ficaria contente com um cargo. Isso quem diz pra gente é o ministro organizador. Olha, quando vier o voto, vamos ver o que vai acontecer. Aí sai aquela região. Daqui a pouco vota a região de outro estado e fala: presidente, sabe aquele cargo de ministro? Aquele é pro presidente do partido, aquele outro cargo é pra aquela bancada. Mas o meu estado não foi contemplado, presidente.
É isso aí, meu filho. Como você está com a política totalmente deteriorada, a política vale menos do que qualquer coisa nesse país. Não tem mais liderança que representa a bancada. Eu fui líder do partido na Constituinte. Quando eu sentava com o Mário Covas e fazia um acordo, eu ia para a minha bancada e exigia que ela cumprisse o acordo. Hoje não. Hoje o cara fala: presidente, aquele acordo com o meu líder só vale para ele. Ele não representa a bancada. Mas como não representa se ele é o líder? Ele é o líder porque o presidente do partido quis, mas na verdade, ele não representa a bancada.
Então é assim, presidente do partido não representa mais nada. Líder de partido não representa mais nada. E as bancadas, cada uma age por conta própria. É por isso que se levanta tanto ódio contra o PT. É porque o PT, se você for analisar a história política do país, é o único partido nacional que existe nesse país. Você pode pegar uma pesquisa, Ibope, Datafolha, qual você quiser, se tiver uma pergunta lá: partido nacional, qual é o partido da sua preferência? Você vai perceber que o PT aparece, em 19%, 20%, 22% e o segundo colocado tem 1%. Porque a cultura política do Brasil não é de partido nacional. É de tribos locais. É o partido de São Paulo, Minas, então o PT é o único que é nacional. Então, explica a necessidade de se construir aliança política.
Eu acho importante a gente dizer. Tem gente que fala assim: fazer aliança com o povo. É muito fácil de falar. E é o seguinte: se o povo estivesse lá para votar todo dia. Se eu pudesse fazer toda e qualquer coisa importante por um plebiscito, seria ótimo. Mas não é assim. Então, eu acho que nós precisamos ter consciência para que o povo na eleição de 2018 consiga eleger uma Câmara de deputados com gente de muita boa fé.

Fernando Morais: O senhor não acha que essa tarefa é um pouco de liderança com a sua expressão? Porque me parece que uma boa maneira de diminuir esses obstáculos de governança é fazer bancadas mais qualificadas. Eu acho que os partidos tinham que ir dizendo o seguinte: olha, tem vários candidatos aqui, mas estamos pedindo voto aqui pro Moreno. Faz a campanha para presidente, mas transmite para as pessoas que o voto para deputado e senador é tão importante ou mais do que de presidente da República.
Lula: Acontece que se você fizer uma campanha e durante a campanha você tiver aliados, você não pode defender só o seu partido. Você tem que defender o seu partido e os aliados, porque senão você compra uma briga. Na campanha de 2002, 98, o pessoal queria que eu indicasse o ministério antes. Eu dizia que eram doidos. Na hora que eu indicar, os 20 que eu indiquei vão gostar. E o milhão que eu não indiquei vão ficar votando contra.

Fernando Morais: E como que acaba com isso?
Lula: É um processo de evolução política da sociedade brasileira. Não tem outro jeito. Quando fui eleito em 2002, elegi 91 deputados, de 513. Elegi acho que 9 senadores de 81. É uma coisa complicada. Mas a sociedade brasileira também tem que aprender que na hora de votar, tem que votar de forma que faça essa pessoa assumir um compromisso. Não pode votar num cidadão que é fazendeiro e coloca na propaganda que é contador. Ninguém coloca que é fazendeiro. É sempre advogado, aquilo, não identifica o que é. Nós temos uma bancada ruralista do lado empresarial de mais de 200 e uma bancada de sem-terra de 3. É complicado. Uma coisa que eu tenho falado para os movimentos sociais é ter um plano de meta para eleger. O que explica as mulheres serem maioria na sociedade e ter tão pouca mulher no Congresso? É uma questão de consciência política e de oportunidade. As mulheres, aos poucos, estão conquistando. Durante séculos, foram tratadas como objeto de cama e mesa.

Fernando Morais: Uma das primeiras campanhas do PT, um dos slogans era trabalhador vota em trabalhador. Não deu certo, né?
Lula: Não, não é assim que o povo se comporta eleitoralmente. Não é assim de negro votar em negro, bancário votar em bancário, metalúrgico votar em metalúrgico. As pessoas têm que ser convencidas por uma narrativa, por uma ideia. Por que é importante as mulheres participarem da vida política do país? Se a gente não encontrar a palavra mágica ou a narrativa que convença a mulher que está em casa, no escritório ou cuidando de um filho, ou está fazendo qualquer coisa e fala”. Você que ele tem razão. Eu vou entrar nesse negócio. Meu marido vai ter que aprender a cuidar da casa também, a fazer janta quando chegar do trabalho, trocar fralda da criança. A mulher já ocupa uma enormidade no mercado de trabalho, mas homem não ocupa nessa proporção dentro de casa. Como que a gente convence a mulher disso? O povo negro desse país, metade da população, a ter uma bancada de 150, 200? Tudo é uma construção. Eu tive uma decepção em 82, quando fui candidato a governador. Eu achava que era só chegar na porta de fábrica, fazer um discurso, que os metalúrgicos tudo iam votar em mim. Achei que ia ganhar a eleição e fiquei em quarto.
Perdi do Montoro, perdi do Reinaldo de Barros e perdi do Jânio. Foi uma frustração, você não imagina como eu fiquei. Somente três anos depois, eu fui a Cuba e Fidel me fez a seguinte pergunta: Lula, você conhece algum lugar do mundo que um operário teve 1 milhão e 250 mil votos? Então para com isso de achar que você não teve voto. Aí que eu comecei a me conscientizar de que era preciso mais do que uma identificação de classe. É muito mais uma identificação de ideias, de compromisso, de projeto, que nação que você quer construir. A campanha precisa, inclusive quem disputar as eleições de 2018, vai ter que ter a responsabilidade de fazer uma campanha num alto nível infinitamente superior à demonstração de pequenez que teve Aécio Neves. Foi a campanha mais violenta, agressiva que eu já vi. Eu nunca tive coragem de xingar o Sarney, quando fui candidato. Sabe por que eu não xingo? Porque eu quero ser tratado da forma que eu os trato. Se eu quiser ser tratado com respeito, eu tenho que respeitar.
Quando a gente for fazer campanha tem que saber que dentro de casa tem criança vendo, tem homem, mulher, aposentado, e que ele precisa ser convencido por uma ideia, por um gesto, e não por uma bobagem. Eu já participei de muita campanha, com Serra, Alckmin. Em 2006 o Alckmin foi muito agressivo comigo, eu dizia para ele: Alckmin, não combina com você essa agressividade. De um lado, seu apelido é chuchu de alguma coisa. E de outro lado você é agressivo assim comigo? Você acha que alguém vai acreditar? Pessoal percebe que você está fazendo tipo. E na pesquisa que a gente fazia, a gente acompanhava que, quanto mais agressivo ele era, mais ele perdia. E quanto mais quieto eu ficava, mais eu ganhava. O povo está ficando esperto. A Dilma ganhar as eleições nas condições que estava em 2014, temos que ajoelhar e beijar os pés desse povo. Porque esse povo, não sei se votou na Dilma ou no PT, mas votou contra o regresso da direita nesse país, contra o regresso do ódio, do preconceito. Lamentavelmente não soubemos tirar proveito disso. Foi a primeira vez na história que alguém que ganha a eleição parece que perde no dia que tomou posse. É incrível, mas foi assim. Que sirva de lição para todos nós. Dizem que a história se repete. Nesse aspecto, não vai se repetir. Porque aprendemos uma lição muito grande e o povo brasileiro pagou um preço muito caro. Nós não merecíamos passar pelo que estamos passando. Uma mentira criada por uma classe política espúria, com os meios de comunicação perversos, que não tiveram dó nem piedade de mentir. Nós precisamos assumirmos juntos a responsabilidade de que o Brasil pode ser muito melhor que isso aqui.

Fernando Morais: Para quase encerrar, que o Stuckert já está puxando…
Lula: Eu sou o único cara que devia estar com pressa aqui. Eu estou vendo um monte de gente dar sinal para você, acaba, acaba, acaba. Não estou com pressa. A Globo não me entrevista mesmo, quero dar entrevista para o Nocaute.

Fernando Morais: Presidente, o senhor falou de intolerância, da sua disposição de se empenhar na guerra contra intolerância. Queria que o senhor falasse sobre essa onda de censura nas artes plásticas, teatro, blog. Ontem o Marcelo Auler tomou uma entortada de um juiz, cada dia é um. Um museu como o Masp estabelecer censura, o outro lá do Santander, no Rio Grande do Sul, fechar uma exposição, parece que voltamos ao século 18.
Lula: Essa gente já pensava assim. É que antes da campanha de 2014, como foi semeado ódio, preconceito, e com a campanha feita pelos meios de comunicação, na famosa marcha de 2013, aquilo não surgiu dentro do Brasil. Aquilo não surgiu como querem que a gente acredite, com o MBL, com a violência da polícia, e a Globo ficou tão indignada que resolveu passar ao vivo a passeata. Onde já se viu? Você é jornalista e sabe que aquilo era um projeto armado. O Erdogan, da Turquia, ligou para mim e para Dilma. Falou que era exatamente o que estava acontecendo na Turquia. “Você acha que a meninada está brigando aqui por causa de uma praça. Se fosse só a praça, eu dava 10 praças. Eles estão subordinados à política norte-americana. No Egito, o que aconteceu? Eu era favorável a tirar o Mubarak porque ele era um ditador mesmo. Eu o conheci pessoalmente. Mas depois se elegeu o Morsi. Não sei se ele é bom ou ruim, mas foi eleito. Depois tiraram ele, quem que está lá até agora? Nunca vi alguém fazer primavera árabe para colocar três generais para mandar. Se um já é demais, o que dirá três?
Eu nunca tinha visto uma parcela dos meios de comunicação instigar tanto ódio como nesse período de 2013 até 2017. Diminuiu muito. É bem verdade que depois do Temer, o povo descobriu que foi enganado literalmente. Eu penso que a sociedade está voltando a uma certa normalidade. Eu acho que as pessoas, às vezes, já eram azedas, mas não se mostravam porque elas não foram instigadas e incentivadas para aquilo. Mas eu penso que o PT já fez um programa e nem panela bateram mais. Porque agora tem muita gente que bateu panela que deve estar batendo a cabeça com o Temer. A cabeça dói. As pessoas não podem ser raivosas. Até porque não combina com o pouco tempo de passagem que o ser humano tem pela terra. A nossa média de vida é 76 anos. Se a gente tem raiva, rancor ódio, a gente fica com azia, a gente não dorme direito. E quem te fez com raiva fica feliz. Você tem que estar bem para a pessoa que te ferrar ficar puto com você porque você não está com raiva. Quero ver se a gente contribui para que o Brasil fique menos raivoso, o Brasil recuperar a estima do povo brasileiro, sonhar com um país melhor, honesto, em que a corrupção seja efetivamente combatida. Acredito nisso e trabalhei para isso. Nem meu pior inimigo poderá dizer que houve algum momento na história que foi criado mais mecanismos para combater a corrupção do que nos 12 anos do PT. E quando fizemos isso, fizemos porque combater a corrupção é uma necessidade da sociedade. E vamos continuar fazendo isso com justiça. Todo ser humano é inocente até que provem o contrário. Provou, pegou em flagrante, prenda.
Vou falar porque eu fico chateado. Vai a Polícia Federal na casa do Sérgio Cabral, pega não sei o quê. Vai na casa do Nuzman e pega não sei o quê. Vai no apartamento clandestino do Geddel e acha R$ 50 milhões. Foram na minha casa, um exército da Polícia Federal, MP, cada um com uma máquina dessa aqui pendurada no pescoço, entraram na minha casa, visitaram, abriram a tampa do fogão, o exaustor, abriram televisão, levantaram meu colchão. Não acharam nada, por que não pediram desculpa? Por que não veio o chefe dizer: viemos aqui, a mando do juiz Sérgio Moro, fomos na casa do presidente Lula, nós achamos que ele tinha ouro, dólar, e não encontramos nada então queríamos pedir desculpas à sociedade brasileira? Por que não fizeram isso? É um gesto simples. Parece que ficou difícil pedir desculpas. Então é manter a prepotência e arrogância para manter a prepotência e arrogância?
É isso que me faz, inclusive, ser mais forte para continuar. Eu poderia estar quieto, estou com 72 anos, estou com esse corpinho jovem aqui de 30, já fui presidente da República, tenho consciência de que fiz um bom governo, sou um homem que construiu muitas amizades. Tenho orgulho das amizades que eu construí. Poderia estar em casa tranquilo. Na minha casa, a gente não tem que ter mais agenda, compromisso, faz o que quer, come o que quer, levanta a hora que quer. Eu entrei nessa porque tenho muita energia, muita força, e quero dirigir isso para ajudar a consertar esse país. Fazer esse país gostar de si mesmo. Acabar com o complexo de republiqueta, de que tudo que é bom vem dos EUA, da Europa. As pessoas têm que olhar para nós brasileiros do jeito que nós somos. E respeitar a gente do jeito que nós somos. Para mim, a auto estima é uma coisa muito importante. Voltar a gostar da África. Ter uma relação privilegiada com a África, ter uma relação estratégica com a América Latina, com os países árabes, com a Rússia, fortalecer os Brics mais ainda. E ter uma relação boa com os EUA. Tem gente que fala que eu sou contra os EUA. Não sou contra, mas quero que o Trump cuide do povo dele e a gente cuide do nosso. Meta o nariz dele lá dentro e a gente mete o nosso aqui. Não quero dizer o que nenhum país tem que fazer, mas também não quero que ninguém nos diga o que temos que fazer. E esse país é grande para isso.
É isso que você vai ver em 2018. Muita ousadia, muita vontade de reconstruir esse país e muita verdade na televisão. O povo precisa aprender uma coisa. A minha mãe morreu com 60 e pouco anos. Eu já vivi mais do que minha mãe e meu pai. Então eu já sou grato pela minha passagem pela Terra.

Fernando Morais: Eu não sabia que ela tinha morrido tão jovem. Eu lembro, o senhor estava na cadeia.
Lula: Foi, em 80. Mas a minha mãe dizia: se você quer saber se uma pessoa está falando a verdade, não se preocupe com as palavras que ela está dizendo, com a boca. Se preocupe com os olhos porque a verdade aparece no olho. Var ser assim a minha campanha. Olhando no olho da sociedade brasileira e dizendo: nós podemos, nós vamos fazer. E para mim só tem um jeito: incluir os pobres na economia, os trabalhadores na economia, não deixar a classe média perder. É possível fazer essas coisas. Pensar num investimento no microempreendedorismo, nas pequenas e médias empresas e ter um projeto nacional de desenvolvimento. Quando que esse país vai virar uma nação? Vamos ser sempre a nação do futuro? E o futuro nunca chega. Pois o futuro vai chegar. É isso que você vai ver.

Fernando Morais: Ano que vem?
Lula: Ano que vem.

Fernando Morais: Obrigado, presidente. Longa vida ao senhor, boa campanha ano que vem e tomara que o senhor fature.
Lula: Boa campanha com você junto. A gente vai ter que criar uma espécie de tribunal para julgar o comportamento da imprensa.

Fernando Morais: Vamos fazer isso. Fazer junto com o Manchetômetro lá do Rio.
Lula: Tem que acompanhar a imprensa, porque é uma vergonha. O que acontece hoje é uma vergonha. Alguns meios de comunicação deveriam ter vergonha de não se comportar adequadamente em relação ao povo. Sinceramente. As pessoas deveriam ter vergonha de mentir tanto, inventar tanto. E agora estão até procurando candidato. Querem achar. Se for necessário, vão perguntar se o Trump não tem um filho para naturalizá-lo para ser candidato. O povo acordou. O povo sabe o que está acontecendo. Esse estado aqui, não tinha mais pobre pedindo esmola no semáforo. Você não via mais criança pedindo esmola. Não via no Sul, Sudeste, Nordeste. Hoje você começa a ver criança porque foram 13 milhões de pessoas que perderam emprego. Diferentemente do nosso governo, que criou mais de 20 milhões de empregos formais, com carteira assinada.

Fernando Morais: O nosso índice de desemprego chegou a ser mais baixo do que dos EUA.
Lula: Muito mais baixo. Quase padrão Finlândia, Noruega, Dinamarca. 4.3% em dezembro de 2014. Mas é possível fazer o país voltar porque o país tem um mercado interno muito grande, ocioso, pode ter muitas coisas. Se você pegar o percentual de brasileiros que tem carro, a gente pensa que é muito carro. Tem muito carro para quem mora no centro da cidade. Mas você vai para o país afora, tem muita gente que não tem carro, que gostaria de ter um telefone de melhor qualidade, uma geladeira. A geladeira que o povo gosta é aquela última da novela, aquela de duas portas, que faz gelinho. Tem muita coisa para fazer no Brasil e tenho fé em Deus que vamos fazer.

Fernando Morais: Que bom. Muito obrigado, presidente.
Lula: Agora eu posso dar um nocaute.

Fernando Morais: Agora pode dar um nocaute na cabeça do entrevistador.

Uma resposta to “Lula: O mesmo MP que invadiu minha casa não se manifestou sobre a acusação de corrupção contra a Globo”

  1. heloizahelenapiasblog Says:

    está ai uma pessoa q sempre admirei e admiro, dizem e falam horrores de Lula, desda sapo barbudo a té ladrão cachaceiro e outras cocitas mas, mas n tiraminha admiração e respeito p ele, é minha opnião q mesmo sendo preso, n me abalará meu conceito sobre ele, ele foi mostreou a cara vencei e vencerá sempre. ________________________________________

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