Entenda o que está jogo na troca de Temer no comando da PF, central na Lava-Jato

O delegado Fernando Segóvia, futuro chefe da Polícia Federal.

Leandro Daiello foi substituído na chefia da Polícia Federal pelo delegado Fernando Segóvia.

Daniel Haidar, via El País Brasil em 10/11/2017

Em uma decisão que preocupou policiais federais, o presidente Michel Temer (PMDB) anunciou a troca do comando da Polícia Federal na quarta-feira, dia 8/11. Sai o delegado Leandro Daiello, o mais longevo diretor-geral da corporação desde a ditadura, e entra o delegado Fernando Segóvia, ex-adido na África do Sul e ex-superintendente da PF no Maranhão. Nos bastidores, policiais e políticos citam que a nomeação teve influência do ex-presidente José Sarney (PMDB) e do ministro da Casa Civil e réu na Operação Lava-Jato, Eliseu Padilha (PMDB).

Policiais ficaram preocupados porque a mudança pode desidratar ou prejudicar investigações em andamento da Operação Lava-Jato, que investiga Temer e boa parte da base aliada do Governo federal no Congresso. O presidente já escapou de duas ações penais no Congresso, mas agentes e delegados do 7º andar do edifício da Polícia Federal em Brasília ainda miram Temer pela suspeita de envolvimento em crimes durante a preparação da nova Lei dos Portos. Por isso, na prática, a mudança na chefia da PF é uma chance do presidente escolher quem vai investigá-lo.

E foi justamente na Polícia Federal que nasceu a Operação Lava-Jato em Curitiba. Vieram da Polícia Federal alguns dos achados mais importantes da investigação, como o envolvimento do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberta Costa, que se tornaria o primeiro delator importante, a localização de contas no exterior do marqueteiro João Santana e a busca do bunker de propina do ex-deputado Geddel Vieira Lima.

Também foi a Polícia Federal que recuperou, com perícias especializadas, mensagens apagadas de telefones celulares de empreiteiros e políticos. Qualquer recuo na quantidade de agentes dedicados a investigações ou na autorização de gastos pode, no mínimo, atrasar novas descobertas do gênero.

Já houve queixas nesse sentido. Policiais da Operação Lava-Jato reclamaram de diminuição de equipes de investigação na gestão de Daiello, mas comemoravam que, ao menos, ele nunca tentou interferir em inquéritos ou levantar informações sigilosas.

A força-tarefa da Polícia Federal da Lava-Jato em Curitiba foi encerrada em julho e policiais perderam a dedicação exclusiva ao caso desde então. Antes disso, o Governo Temer já havia cortado orçamento específico da investigação, No Paraná, isso deixou o avanço das investigações ainda mais dependente de descobertas da força-tarefa do Ministério Público Federal. Há receio de que uma nova gestão na Polícia Federal também mude o funcionamento da força-tarefa de Brasília.

Apesar das preocupações, policiais dizem reservadamente que haverá resistência a qualquer tentativa de atrapalhar investigações. “É um ingênuo quem imagina que consegue parar a polícia com um diretor-geral. Claro que atrapalha, mas não para. Estão vendendo castelos no céu”, diz um delegado.

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ESCOLHA DO NOVO DIRETOR DA PF FOI ACERTADA ENTRE TEMER E SARNEY
Via Congresso em Foco em 10/11/2017

A indicação do novo diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segóvia, foi acertada com o presidente Michel Temer (PMDB) em encontro fora de sua agenda oficial, no último sábado (4), com o ex-presidente José Sarney. De acordo com informações do jornal Folha de S.Paulo, “Sarney chegou ao Palácio do Jaburu na tarde de sábado, após reuniões entre Temer, o ministro Moreira Franco (Secretaria Geral), o líder do governo no Senado, Romero Jucá (RR), e o marqueteiro Elsinho Mouco”. Sarney e Temer conversaram a sós.

O jornal informa que o encontro entre Temer e Sarney ocorreu quatro dias antes de Temer anunciar a nomeação de Segóvia para o lugar de Leandro Daiello, que comandava a PF há quase sete anos, desde o governo Dilma Rousseff (PT). No comando da PF desde 2011, Leandro Daiello, trocado por Temer, foi o diretor-geral mais longevo desde a redemocratização (1985) e estava à frente das operações da Lava-Jato desde o início das investigações, cujas primeiras ações foram deflagradas em março de 2014.

Alvos da Operação Lava-Jato, Temer é apontado pela Polícia Federal e pela Procuradoria Geral da República (PGR) como o chefe do “Quadrilhão do PMDB”, em denúncia realizada em setembro deste ano ao Supremo Tribunal Federal (STF). Ao lado dele, também são acusados o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB/RJ) e os ex-ministros Henrique Alves (PMDB/RN) e Geddel Vieira Lima (PMDB) – ambos presos na Operação Lava-Jato. Além deles, seus atuais ministros Eliseu Padilha, Casa Civil, e Moreira Franco, Secretaria Geral da Presidência, foram denunciados por organização criminosa e obstrução de Justiça.

Sarney também era um dos alvos da Operação Lava-Jato, denunciado por obstrução de Justiça, ao lado dos senadores peemedebistas Renan Calheiros (AL) e Romero Jucá (RR). No entanto, em outubro o ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato na Corte, arquivou o inquérito

Esse fato suscitou a hipótese de que, com a troca de Daiello, Temer e demais políticos investigados passariam a procurar alguém de perfil moderado para a função. De fato, a substituição foi bem recebida pela cúpula do Palácio do Planalto, repleta de investigados.

O ministro da Justiça, Torquato Jardim, apesar de ter assumido o posto com declarações que apontavam para uma mudança na PF, não participou do processo de escolha e apenas foi comunicado da decisão na terça-feira, dia 7/11, um dia antes de a indicação ser oficializada pelo presidente.

Segóvia foi superintendente regional da PF no Maranhão, base política do ex-presidente da República José Sarney.

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