Bernardo Mello Franco: O PSDB rumo ao precipício

Bernardo Mello Franco em 10/11/2017

O PSDB deu mais um passo na direção do precipício. O dedaço de Aécio Neves radicalizou o processo de autofagia do partido. Agora os tucanos correm o risco de enfrentar um cisma a menos de um ano das eleições presidenciais.

Com o filme queimado pela Lava-Jato, o senador mineiro foi para o tudo ou nada ao destituir Tasso Jereissati do comando provisório da sigla. A intervenção implodiu as pontes que restavam entre a ala governista e o grupo que defende o rompimento com o Planalto.

Há poucos dias, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso avisou que o PSDB precisava se decidir: ou deixava o governo ou assumia de vez o papel de coadjuvante em 2018. Os aecistas parecem ter escolhido a segunda opção. Preferiram continuar agarrados a seus quatro ministérios.

O clima agora é de guerra fratricida. Os aliados de Tasso definem sua degola como um “golpe” articulado com Michel Temer. “Foi um ato covarde, violento e indigno. Aécio mostrou que não tem limites para alcançar seus objetivos espúrios”, ataca o senador Ricardo Ferraço. “Já estávamos passando por um desgaste brutal. Agora estamos vendo o PSDB cometer um harakiri”, acrescenta.

O senador Cássio Cunha Lima, que também defendia a permanência de Tasso, reforça a metáfora do suicídio partidário. “Se deixarmos que o governo interfira na nossa eleição interna, será o fim do PSDB”, afirma.

Depois de perder quatro eleições presidenciais, os tucanos pareciam ter caminho aberto para voltar ao poder em 2018. Em vez de aproveitar o vento a favor, o partido se enroscou na impopularidade de Temer e nos rolos de Aécio com a polícia. Perdeu espaço para Jair Bolsonaro e outros aspirantes ao papel de Anti-Lula.

Hoje os dois presidenciáveis do PSDB não conseguem ultrapassar os 8% das intenções de voto. O encontro com as urnas pode ficar ainda mais ingrato. Basta que a convenção da sigla, no mês que vem, termine com a debandada dos derrotados.

***

PSDB TEVE O QUE MERECEU: NÃO HÁ INOCENTES EM UM PARTIDO GOLPISTA
Joaquim de Carvalho, via DCM em 10/11/2017

A série Breaking Bad termina com a música Baby Blue, do Badfinger. A polícia se aproxima e o traficante Walter White caminha pelo laboratório onde se sentia absolutamente à vontade e se ouve a música com o verso: “Acho que eu tive o que mereci”.

Walter White trocou a vida medíocre de professor de Química pela de traficante, onde ganhou muito dinheiro, matou algumas pessoas e se impôs como homem mau.

No início, mentia para si mesmo: dizia que era tudo pela família – tinha câncer e precisava deixar a mulher e os dois filhos com dinheiro –, mas, no final, admite, diante da esposa derrotada:

“Eu fiz isso por mim. Eu gostei e era bom nisso”.

A polícia se aproxima e aponta para o fim trágico de quem escolheu o caminho errado.

A história lembra a agonia do PSDB. Como na ficção, o partido parece viver o drama terminal como o de Walter White, mas não se ouve a trilha “Acho que eu tive o que mereci”.

Pelo contrário.

Pelas declarações de Fernando Henrique Cardoso e Tasso Jereissati, o problema não são eles, mas outros, dentro do próprio partido.

“Esse PSDB desses caras não é o meu PSDB”, disse Tasso, afastado por Aécio Neves.

“Foi um ato covarde, violento e indigno. Aécio mostrou que não tem limites para alcançar seus objetivos espúrios”, acusou o senador Ricardo Ferraço.

“Já estávamos passando por um desgaste brutal. Agora estamos vendo o PSDB cometer um harakiri”, afirmou.

Aécio Neves é, seguramente, uma das figuras mais detestáveis do Brasil, ao lado de Michel Temer, mas é errado dizer que ele eu um golpe no PSDB.

Ele é o presidente do partido e tem poderes para fazer o que fez: reassumir, afastar Tasso e entregar o comando interino para Alberto Goldman.

Aécio tem também legitimidade para agir dessa forma, porque, nas vezes em que se ensaiou um confronto para tirá-lo da presidência, as vozes dissonantes afinaram, e a vontade dele prevaleceu.

Quem colocou Aécio na presidência do Partido e o acompanhou no movimento – este sim, de caráter golpista – para derrubar Dilma Rousseff?

São os mesmos tucanos que agora se dizem indignados com a decisão dele.

Hipocrisia e mimimi.

Choro de quem está sem espaço num partido que escolheu o mau caminho, depois de perder quatro eleições presidenciais.

Mas nem sempre foi assim.

Em 1992, o PSDB, convidado, queria entrar no governo de Fernando Collor. Fernando Henrique Cardoso já tinha aceitado convite para ser ministro das Relações Exteriores, mas Mário Covas liderou uma rebelião e inviabilizou o acordo.

Aliado de FHC e de Collor, então governador do Ceará, Ciro Gomes tentou intimidar Covas, numa reunião em um hangar do aeroporto de Brasília.

Covas se manteve firme e o PSDB não aderiu ao governo que, alguns meses depois, acabaria por denúncias de corrupção.

Na época, a jornalista Miriam Dutra, então repórter da TV Globo, namorava Fernando Henrique Cardoso e ela conta que recebeu o então senador em casa, logo depois da reunião com Covas. “Ele (Fernando Henrique) estava furioso, dizia que o Covas tinha destruído a carreira dele”, disse Miriam.

Desde 2014, o PSDB tem se curvado à aventura golpista de Aécio Neves. Nas discussões internas, não houve uma voz que se levantasse contra esse movimento.

Todos caminharam unidos nesta marcha.

São cúmplices.

São todos golpistas.

Ali não há vítima.

Nem golpe.

Fizeram por merecer.

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