Quem é Rodrigo Tacla Duran, o homem que questiona as delações premiadas?

O ex-advogado da Odebrecht exibe uma rede de conflitos de interesses entre procuradores do Ministério Público, o juiz Sérgio Moro e sua mulher.

Pedro Zambarda de Araújo em 3/11/2017

As delações premiadas da Odebrecht, dentro do campo de investigação da Operação Lava-Jato, atingiram políticos de todos os partidos, incluindo o ex-presidente Lula. Há suspeitas, ainda, de envolvimento da campanha de Dilma Rousseff à reeleição. No entanto, ao mesmo tempo em que as colaborações exibiram os interiores corruptos do poder, o próprio instrumento das autoridades se mostrou falho.

O advogado Rodrigo Tacla Duran, que trabalhou para a Odebrecht de 2011 a 2016, ganhou as manchetes da imprensa brasileira numa coluna de Mônica Bergamo publicada na Folha em 27 de agosto de 2017. Na reportagem, Duran acusa o advogado trabalhista Carlos Zucolotto Jr., amigo e padrinho de casamento do juiz Sérgio Moro, de intermediar negociações paralelas envolvendo o magistrado e a força-tarefa do Ministério Público.

Tacla Duran foi preso 18 de novembro de 2016 num hotel em Madri, na Espanha, a pedido do próprio Moro. Com nacionalidade espanhola desde 1994, o advogado saiu do Brasil com as investigações envolvendo a empreiteira na Lava-Jato. Até o ano passado, Duran era o advogado do Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht e teria pago subornos milionários a 12 países, segundo o El País. O departamento da empreiteira recebeu o apelido de “divisão de propinas”.

Depois de passar 72 dias na prisão de Soto del Real, acusado de suborno e lavagem de dinheiro, ele foi posto em liberdade provisória. O Brasil pediu sua extradição em janeiro de 2017, mas ela foi negada pelo governo espanhol porque o advogado tem dupla cidadania. Ele está decidido a publicar um livro sobre o caso que envolve Zucolotto e outras informações sobre a Lava-Jato.

No aplicativo de mensagens Wickr, que criptografa mensagens (assim como WhatsApp e Telegram), Carlos Zucolotto teria proposto que ele pagasse uma multa menor para os procuradores da Lava-Jato. Tacla Duran estava em negociações para uma delação premiada na Flórida, nos Estados Unidos. O procurador Roberson Pozzobon teria proposto que ele pagasse uma multa de US$15 milhões à Justiça, o que ele não aceitou.

Zucolotto propôs que a multa fosse diminuída para US$5 milhões. Segundo Duran, os procuradores Júlio Noronha e Roberson Pozzobon enviaram por e-mail uma minuta de acordo de colaboração com as condições alteradas conforme o advogado amigo de Moro havia indicado em suas mensagens.

A proposta teria chegado no dia 27 de maio de 2016, uma sexta-feira, com a condição que Tacla Duran voltasse ao Brasil em três dias. O advogado então decidiu não voltar ao Brasil e não assinar acordo de delação. Sérgio Moro o chama de “foragido da Justiça”.

Ficha de Tacla Duran na Interpol.

A ligação de Zucolotto com a esposa de Sérgio Moro
Os repórteres Joaquim de Carvalho e Luís Nassif entraram em contato direto com Duran na Espanha. Em entrevista e com as informações que ele pretende incluir em seu livro, ele ligou Carlos Zucolotto com Rosângela Maria Wolff de Quadros Moro, mulher do juiz, e uma massa falida de empresas do Paraná.

O nome de Rosângela aparece conectado com a Associação de País e Amigos de Excepcionais (Apae), entidade acusada de corrupção de R$450 milhões de verba desviada pela Secretaria de Educação do Paraná, comandada na época pelo ex-senador Flávio Arns. Ele era vice-governador do Estado e preside a federação das associações. Rosângela Moro fez a defesa da entidade. Mas este não foi o trabalho mais notável dela e há outras ligações mais comprometedoras.

A mulher de Sérgio Moro apareceu na lista de advogados a quem o doleiro Rodrigo Tacla Duran fez pagamentos por serviços prestados que não são especificados. Rosângela teve seu nome divulgado no site do escritório de Carlos Zucolotto como profissional da sociedade. Mas, no cadastro nacional da OAB, aparece como integrante de outro escritório de Curitiba, o Andrade Maia.

Rosângela Moro também prestou serviços à família Simão, apontada em uma CPI de 2011 como integrante da Máfia das Falências do Estado, uma organização que se desenvolveu no seio do Poder Judiciário do Paraná. Quem estava na linha de frente da defesa da família Simão é Marlus Arns, sobrinho do ex-vice-governador Flávio, e especialista em acordos de delação premiada assim como Beatriz Catta Preta, que deixou o Brasil afirmando ter sido ameaçada por Lúcio Funaro e Eduardo Cunha.

Rosângela foi advogada de uma das massas falidas administradas pela família Simão, só que com menor destaque do que Marlus, que prosseguiu na defesa. A GVA, fabricante de placas madeirit, quebrou e deixou de pagar R$400 milhões a trabalhadores.

Marlus Arns, representando os Simão, fez uma acusação ao ser cobrado pelos trabalhadores da fabricante. Disse que o sindicato tinha recebido honorários no valor de R$1,1 milhão, como adiantamento por honorários devidos, o que corresponde a 10% sobre o valor da dívida total. O sindicato contesta as alegações. A CPI das falências apontou envolvimento de juízes com a suposta máfia das empresas.

Rosângela, Marlus e as empresas do Paraná formam um triângulo misterioso que compromete a atuação do juiz Moro. O caso foi relatado no livro Poder, Dinheiro e Corrupção – Os Bastidores da CPI das Falências, de Fábio de Souza Camargo, que é filho de um ex-presidente do Tribunal, desembargador Clayton Camargo, e irmão de uma juíza que atuava na vara de falências. Fábio foi o presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou o caso.

O livro chegou a ser recolhido das livrarias por decisão judicial, mas foi recolocado. Rosângela Moro saiu do caso, enquanto Marlus Arns seguiu em frente e depois foi advogado de delatores na Lava-Jato.

O mercado da delação premiada
Tacla Duran abriu o que seria o seu primeiro capítulo do livro para Nassif e Joaquim de Carvalho. Nele, ele explica que, além das operações feitas por intermédio de doleiros, a Odebrecht se valia de paraísos fiscais para redução de custos e que foi a delação de Paulo Roberto Costa que abriu espaço para a prisão de Marcelo Odebrecht. O ex-advogado da empreiteira também fala que os publicitários Mônica Moura e João Santana eram destinatários finais de contas de offshore e atuavam pelos interesses da empresa nos governos do PT. Afirma que só não conseguiu provas da atuação de ambos porque teria que retirar o sigilo bancário.

O procurador Roberson Pozzobon tentou sugerir um acordo de delação premiada para Tacla Duran e, à medida que ele entregou informações sobre o departamento que advogava na Odebrecht, ele foi acusado de ser “mentiroso”. O desentendimento entre ambos fez Duran fugir para os Estados Unidos, temendo ser preso e se recusando a confessar um crime que ele acredita que não cometeu.

A força-tarefa fixou uma multa de US$15 milhões baseada em US$12 milhões desviados no “departamento de propinas da Odebrecht” e acusando Duran de ser um dos responsáveis pelos desvios. O ex-advogado afirma que não desviou o dinheiro e que o valor é equivalente ao dinheiro que circulou no departamento mais aplicações financeiras da empreiteira.

Zucolotto entrou no circuito para prometer a Tacla Duran que ele pagaria uma multa menor do que US$15 milhões: US$5 milhões. O advogado amigo de Moro e de Rosângela disse que tinha o contato de Deltan Dallagnol para entrar em um “acordo melhor”. Duran, ainda temendo a atuação da Força-Tarefa do MP, recusou a nova proposta e fugiu para a Espanha.

O ex-advogado da Odebrecht resumidamente acusa o Ministério Público, com aval do juiz Sérgio Moro, de negociar acordos de delação premiada. O caso ajuda a entender como Joesley Batista, inicialmente, obteve um acordo com o ex-procurador Rodrigo Janot que praticamente abrandou seus crimes no governo Temer.

Segundo a repórter Marcela Mattos, da revista Veja, Marcelo Miller, ex-braço-direito de Janot na Procuradoria Geral da República, propôs grampo juridicamente ilegal na Odebrecht para obter informações. A informação foi repassada para a publicação da Editora Abril por Tacla Duran.

Os deputados Wadih Damous e Paulo Pimenta, do PT, recolheram depoimentos do ex-advogado da Odebrecht na Espanha. Os parlamentares cobram explicações sobre o caso de Duran com Moro. E ele existe em muitos níveis dentro da Lava-Jato.

Ouça a íntegra da entrevista abaixo.

Wadih Damous e Paulo Pimenta explicam o processo

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