Luis Nassif: Cármen Lúcia e os princípios como escada

Luis Nassif em 5/11/2017

Há diversas formas de coragem, das quais a bazófia é a caricatura. Há a bazófia por ambição, vaidade, oportunismo, medo. Presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia é cultivadora da bazófia.

Por ambição, investiu no relacionamento com alguns dos mais célebres juristas brasileiros, cobrindo-os de consideração e de pães-de-queijo. Subiu de carona em valores como o do respeito às diferenças, à diversidade, o cultivo da tolerância, em um tempo em que era bom negócio ser politicamente correto, pois fechava os olhos da opinião pública a outros atributos, como competência e conhecimento.

Assim que foi anunciada sua posse na presidência do STF, Cármen Lúcia inundou o país de frases vazias, que a retratavam como a dirigente corajosa e solidária.

Por vaidade, bradou: “Onde um juiz for destratado, eu também serei”. Depois, por ambição, prima irmã da covardia, endossou investigação contra os quatro únicos juízes federais que ousaram questionar o impeachment.

Por oportunismo, tentou se mostrar superior à presidente caída: “Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa. Eu acho que o cargo é de presidente, não é não?” E apenas demonstrou covardia, por avançar contra pessoa caída, e ignorância, porque o português prevê as duas formas.

Dentre as inúmeras frases de manual, uma definição de ética: “Ética não é uma escolha. É a única forma de se viver sem o caos”. O que a nobre frasista quis dizer? Se não é escolha, então seguir princípios éticos é obrigação. Ou por vias legais – tratando parte das manifestações de intolerância como crime –, ou pela condenação social contra atos corriqueiros, como conversar no cinema, berrar em restaurantes, manter conversas sexistas com autoridades diversas, defender a violência como solução.

Era nesse sentido – de que a ética não é uma escolha – que os exames do Enem, destinados a selecionar a futura elite social do país, definiram a nota zero par redações que afrontassem esses princípios.

Não são princípios vagos, mas aqueles reconhecidos pelas cortes internacionais, pela ONU, que integram os códigos civilizatórios das nações.

A PGR (Procuradoria Geral da República) e a AGU (Advocacia Geral da União) definiram objetivamente os critérios a serem considerados: menção ou apologia à defesa da tortura, mutilação, execução sumária ou qualquer forma de justiça com as próprias mãos. Incitação a qualquer tipo de violência motivada por questões de raça, etnia, gênero, credo, condição física, origem geográfica ou socioeconômica; explicitação de qualquer forma de discurso de ódio.

O que disse a Escola Sem Partido? O Enem acaba impondo respeito ao “politicamente correto, que nada mais é do que um simulacro ideológico dos direitos humanos propriamente ditos”.

E teve o endosso total de Cármen Lúcia, a jurista que subiu nas asas do politicamente correto, que fez carreira escudando-se em juristas consagrados na arte de defender os direitos fundamentais, como Sepúlveda Pertence, Celso Antônio Bandeira de Mello e Fábio Konder Comparato.

A frasista que sustentou que ética é obrigação, liberou geral:

“Não se desrespeitam direitos humanos pela decisão que permite ao examinador a correção das provas e a objetivação dos critérios para qualquer nota conferida à prova. O que os desrespeitaria seria a mordaça prévia do opinar e do expressar do estudante candidato […]. Não se combate a intolerância social com maior intolerância estatal. Sensibiliza-se para os direitos humanos com maior solidariedade até com os erros pouco humanos, não com mordaça”.

Entenderam?

Data venia, a frase entrará para a história do Supremo como uma das grandes imbecilidades já cometidas pelos Ministros. Cármen Lúcia quis dizer que a maneira de combater a intolerância é tendo solidariedade com a falta de tolerância, os chamados “erros pouco humanos”. E ter solidariedade, na opinião desse gênio do direito, é dar uma boa nota no Enem aos “erros poucos humanos” – ou não é sobre isso que se está discutindo?

Vive-se um momento em que a selvageria está derrubando todos os muros das convenções sociais, das normas básicas de civilidade e da própria legislação. A atitude de Cármen Lúcia convalida esse jogo bárbaro.

Duas de suas frases prediletas foram: “O cinismo venceu a esperança” e “O escárnio venceu o cinismo”.

Que frase Cármen Lúcia escolheria para o desempenho de Cármen Lúcia?

“Princípios são degraus de uma escada utilizada para atingir o poder. Chegando ao alto, a escada só serve para descer. Razão por que, se torna inútil e deve ser descartada”.

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