É preciso conhecer a “nação” evangélica para proteger a nação brasileira

Joaquim de Carvalho, via DCM em 4/11/2017

O Brasil tem hoje mais de 40 milhões de evangélicos. A proporção dos evangélicos em relação à população do país avançou de 15,5% (Censo de 2000) para 22,2% (Censo de 2010).

É a religião que mais cresce no País, mas, fora de seu círculo, pouco se sabe a respeito dela, da sua prática e da sua relação com a sociedade.

Pastores dizem que a igreja é uma nação dentro de outra nação, o que significa que tem regras próprias.

E que regras são estas?

As que estão na Bíblia, dirão.

Mas na Bíblia está escrito, por exemplo, que um filho desobediente e incorrigível deve ser apedrejado até a morte (Deuteronômio 21:18-21).

Esta regra, naturalmente, não vale. Pelo menos por enquanto. Na Bíblia, há uma passagem que diz que:

Se uma mulher for pega fazendo sexo com animal, devem ser mortos os dois (Levítico 20:16).

O mesmo vale para o homem (Levítico 20:15).

Sobre estupro, a Bíblia diz:

“Se uma mulher for estuprada na cidade e não gritar o suficiente, deve ser apedrejada até morrer” (Deuteronômio 22:23-24)

“Se uma mulher for estuprada no campo, então ela deve viver” (Deuteronômio 22:25)

“Se o estuprador for apanhado, ele deverá pagar uma quantia ao pai e casar com a estuprada” (Deuteronômio 22:28-29).

Em outra passagem (Deuteronômio 23:10-11), é atribuída a Deus a seguinte ordem:

“Se um rapaz ejacular durante um sonho noturno, ele deverá sair e passar o dia inteiro fora do acampamento, mas, ao pôr do sol, tomará banho e poderá voltar”.

Castigos como este estão no Velho Testamento.

O Novo Testamento não é radical nesse sentido – nos quatro Evangelhos, que narram a vida de Cristo, não há nada que se assemelhe.

Não há, por exemplo, nenhuma referência a homossexualidade, zoofilia, promiscuidade. As cacetadas são reservadas para aqueles que se dizem puros.

Entretanto, o que acaba sobressaindo naquilo que se pode definir como ideologia evangélica é o castigo e, nisso, há uma semelhança enorme com o Islã.

Não se fala castigo: “Deus é amor” –, mas a consequência do pecado, o que dá na mesma. O que se fala explicitamente é o castigo eterno – a danação no inferno.

No livro Entre os fiéis, Vidiadhar Naipaul, prêmio Nobel de Literatura, narra a vida cotidiana, em quatro países islâmicos: Irã, Paquistão, Malásia e Indonésia.

Naipaul passou meses nos quatro países, em duas temporadas, logo depois da revolução liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, que tirou o governo corrupto do xá Reza Pahlavi.

Seu objetivo era descrever o cotidiano dos muçulmanos e também registrar as diferenças entre as correntes do Islã.

Parte do mundo ocidental apoiou, num primeiro momento, Khomeini, sobretudo por conta da corrupção do governo do xá Reza Pahlavi.

Mas, quando se deu conta dos rigores da teocracia, descobriu que nada sabia a respeito do Islã.

Nesse livro, há, por exemplo, uma passagem interessante de uma jovem que veste sandália de salto e fica em dúvida se ela está pecando, ou não, ao mostrar os dedos do pé.

Para ter certeza, a jovem se consulta com um professor de religião e volta para dizer que, sim, vestir sandália de salto poderia ser considerado pecado.

Mas, no lugar em que ela estava, uma escola, essa transgressão era, de certa forma, tolerada. Não corria o risco de apanhar.

Em outra passagem, é mostrada uma cena em que furgões do governo paquistanês são dirigidos a regiões da periferia para cumprir ordens judiciais de castigos físicos (chibatadas) a infratores – com base na lei e no Corão, naquele momento ambos são a mesma coisa.

No Brasil de hoje, dois presenciáveis em posição de destaque nas pesquisas, Marina Silva e Jair Bolsonaro, se declaram evangélicos e têm, efetivamente, uma prática religiosa.

Bolsonaro foi batizado no rio Jordão e seu atual casamento foi celebrado por Silas Malafaia.

Em sua página no Facebook, ele anuncia: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Marina é pregadora eventual.

São ideologicamente diferentes.

Mas isso não impediu que, na eleição passada, Marina recuasse de uma proposta sobre direitos da diversidade quando Malafaia a pressionou.

Como ideologia de gênero é um tema interditado pela maioria das igrejas evangélicas (e católicas também), Marina jamais avançaria nessa questão.

Ainda que seja imperativo, dados os índices alarmantes de violência contra a mulher e homossexuais.

Malafaia celebra o casamento de Bolsonaro.

Um juiz da Lava-Jato, Marcelo Bretas, do Rio de Janeiro, já citou versículos bíblicos em despachos e, segundo um perfil do magistrado publicado na imprensa, apresentou aos funcionários a Bíblia como livro de normas a ser seguido no departamento sob seu comando.

Ao ser homenageado por um pastor-vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Bretas apresentou sua visão de Justiça: “Neste momento, o Judiciário está numa cruzada. Uma cruzada contra a corrupção”.

No Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella, bispo licenciado da Universal do Reino de Deus, proibiu exposição de arte.

Não alegou razão religiosa, mas sua igreja e os fiéis de sua igreja tinham se manifestado contra essa exposição, voltada à temática da diversidade.

É claro que, de outro lado, há exemplos de igrejas evangélicas que promovem valores como liberdade e respeito ao direito do próximo.

Há evangélicos e evangélicos

Não é fé que se discute.

É o movimento que usa a fé como estratégia de atingir a hegemonia no espaço público.

É uma esfera de valores como tantas outras.

Por isso, quando o Diário do Centro do Mundo publica vídeos ou reportagens sobre situações inusitadas que acontecem dentro das igrejas, o objetivo não é explorar o caricato, mas conhecer um grupo que se apresenta como nação dentro de outra nação.

Quando um pastor coloca uma piscina de plástico no templo e os fiéis nadam, rolam pelo chão, dançam, acreditando ela é ungida, o que esse pastor pretende?

Seria um ato de dominação?

A piscina ungida.

Esse movimento, evangélico, fundamentalista, já ocupa espaço nas nossas vidas, através do avanço sobre políticas públicas e de decisões do poder público, que atingem a todos.

E nada indica que vá recuar.

É preciso conhecer essa nação.

Não para zombar.

Mas para entender.

A academia sueca, ao conceder o Nobel para o autor de Entre os fiéis, anunciou que a importância de sua obrava estava em mostrar que a cultura islâmica tem um traço comum a todas as culturas de conquistadores: tende a oprimir todas as culturas precedentes.

Vale para o Islã, vale também para o fundamentalismo evangélico.

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