Como o capitalismo destrói a democracia esperada nas eleições de 2018

Luciano Huck, João Dória e Jair Bolsonaro são alguns dos nomes mais cotados da direita para as eleições 2018.

Não há como desconsiderar uma esquizofrenia entre o que o poder público deve realizar e o que o sistema vigente prega.

Liliana Rocha, via HuffPost Brasil em 2/11/2017

As eleições para a Presidência estão chegando. E com elas, a esperança do povo de que, alicerçado pelo princípio máximo da democracia, poderá tomar as rédeas da política nas mãos e decidir o que é melhor para o País. Afinal, “vivemos em uma democracia”. Em tempos de complexidade política, pressões da sociedade civil e um governo que tem sido fortemente questionado, frases como essa estão na agenda do dia a dia do brasileiro. Essas frases são o pilar da esperança.

Mas será que realmente nas eleições do ano que vem a democracia, tal como está estruturada hoje, representará a tão almejada luz no fim do túnel?

Para responder a essa pergunta, cabe revisitar a História da democracia. Pode ser difícil de acreditar, mas grandes referências que têm norteado a reflexão e o imaginário coletivo tais como Platão, Aristóteles, Locke, Montesquieu e mesmo Rousseau não eram a favor da democracia. Simplesmente porque não consideravam que esse sistema seria capaz de manter a ordem e a segurança tão necessárias à nossa convivência coletiva.

Se hoje todos bradam a democracia como valor e base social, por vezes usando o termo à exaustão e mesmo esvaziando-o de sentido, nem sempre foi assim. Vejamos três grandes momentos históricos da democracia.

O primeiro é seu surgimento. O termo foi criado no século 5 a.C. na Grécia antiga e significa, em sua análise semântica, “governo do povo” ou “poder que emana do povo”. Demos significa povo e cratos, poder. Contudo, lembremos que, na Grécia antiga, o conceito de povo excluía mulheres, estrangeiros e escravos (pobres).

O segundo marco foi a partir do século 19 com a Revolução Francesa, que torna a difundir a democracia, desta vez fortemente atrelada aos Direitos Humanos. Porém, com um discurso longe da prática. Há, inclusive, referências que mencionam a democracia como “uma ditadura da maioria”. A expressão evidencia o pânico que havia (e há até hoje) entre as classes sociais mais abastadas de que o empoderamento da coletividade representasse a implantação de um governo autoritário conduzido pelo povo.

No entanto, para refletir a democracia atual, que está posta hoje na sociedade mundial e no Brasil, é essencial analisar também a influência americana sobre esse conceito ao longo do século 20. Vamos então para o terceiro grande momento, refletindo a democracia pelo viés do capitalismo, consolidada pelos Estados Unidos e vigente no mundo.

Nesse sentido, o documentário da BBC O século do Ego, de 2002, traz uma contribuição brilhante para esse diálogo, pois traça uma linha do tempo associando a democracia à construção da sociedade americana.

Nele, vemos que, em meados do século 20, a democracia associada ao consumo foi deturpada como uma forma de controlar a força irracional das massas, processo denominado como engenharia do consentimento. “Ao centro, temos o sujeito do consumo que não só faz a economia funcionar, mas que também é feliz e dócil, criando assim uma sociedade estável”.

A noção fundamental de democracia é sobre mudar as relações de poder que dominaram o mundo por tanto tempo. E o conceito de democracia lançado pelos Estados Unidos nos anos 1920 é sobre manter as relações de poder.

Trazendo essa reflexão para o Brasil de 2018, após refletir a gênese, como anda a democracia na atualidade? Quando vemos um cenário eleitoral no qual podemos dizer que todos os pré-candidatos estão sendo investigados pelos mais escandalosos casos de corrupção, assegurando parcerias com grandes empresas privadas detentoras do capital ou resguardando milhões em verbas eleitorais, fica fácil pensar que a democracia atual é uma forma de fazer que o povo acredite que está no comando, sem que de fato haja uma opção.

A História evidencia que o desenvolvimento capitalista foi o propulsor da democracia em escala e para as massas. Assim, o processo democrático tem se fortalecido e efetivado ao longo dos anos no País. Todavia, sendo a base da sociedade o sistema capitalista, não há como desconsiderar uma esquizofrenia entre o que o poder público deve realizar e o que o sistema vigente prega.

Assim, as cartas para as eleições 2018 já estão sendo colocadas na mesa. E, embora pouco se fale sobre isso, o voto do cidadão comum é só mais uma – e talvez a mais fraca – das variáveis sobre a mesa do poder.

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