A iconografia do poder em tempos de obstrução urinária

Jânio Quadros. Foto: Erno Schneider.

Vitor Necchi, via Medium em 29/10/2017

A iconografia do poder ganhou, nos últimos dias, novos contornos e formas de expressão no Brasil.

De cada presidente, resta para a posteridade alguma imagem que o distinga. Pode ser por algo positivo, negativo ou até mesmo pitoresco, afinal, a memória e a eternidade não se valem de protocolos hierárquicos ou normas de conduta para arbitrar como a pessoa mais importante de um país será lembrada visualmente.

Escolhi alguns exemplos para pensar neste tema. A começar por Jânio Quadros (1917–1992), cuja cena mais icônica é aquela feita por Erno Schneider em 21 de abril de 1961, na ponte que liga Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, a Libres, na Argentina. O presidente brasileiro caminhava para encontrar seu colega argentino, Arturo Frondizi. Assustado por um princípio de tumulto, foi fotografado enquanto olhava para o lado, os pés tortos, o tronco torcido. Todo atrapalhado. Sua postura ilustrava o personagem quase picaresco, pouco tempo antes de renunciar à presidência da república. Um clássico do fotojornalismo brasileiro.

Ditador Figueiredo. Foto: Guinaldo Nicolaevsky.

A birra de uma garota ajudou a consagrar o ocaso do governo do general João Baptista de Oliveira Figueiredo (1918–1999), último dos ditadores do ciclo militar instaurado com o golpe de 1964. O usurpador participava da cerimônia de lançamento do carro a álcool no Palácio da Liberdade, sede do governo mineiro, em setembro de 1979. Rachel Clemens Coelho, então com cinco anos, estava no local porque o seu pai, que era funcionário do Departamento de Estradas e Rodagens (DER) de Minas Gerais, fora convidado para participar do almoço no palácio e levou a garota junto. Figueiredo estendeu a mão para cumprimentar Rachel, mas ela ficou de braços cruzados e se recusou a corresponder o gesto. O fotógrafo Guinaldo Nicolaevsky estava lá.

Itamar Franco. Foto: Marcelo Carnaval.

Do Itamar Franco (1930–2011), por mais irresistíveis e queridos que sejam os flagrantes do seu topete tremulando ao vento, a posteridade consagrou sua pose todo pimpão, meio sem jeito, no Carnaval carioca de 1994. A Imperatriz Leopoldinense se tornou campeã com o samba-enredo “Catarina de Médicis na corte dos tupinambôs e tabajeres”, mas foi o desfile da Unidos de Viradouro que o eletrizou. Durante a passagem da escola, Lilian Ramos vinha sentada em um cavalo. Ao passar pelo camarote da Marquês do Sapucaí, abanou e mandou beijos para o presidente, alvoroçado com tanto espetáculo. Encerrado o desfile, a destaque rumou até o chefe da nação. A fotografia de Marcelo Carnaval revela, em explícito contra-plongée, Itamar ladeando a modelo, que vestia apenas uma camiseta com estampa tropical. Pobre Itamar. Chegaram a discutir no impoluto Congresso o impeachment dele só por causa da explicitude da moça que o acompanhava.

Lula. Foto de Ricardo Stuckert.

Considero que ainda é cedo para arriscar qual será a imagem mais marcante de Luiz Inácio Lula da Silva (1945). Muita gente torce para que seja dele no xilindró. Eu, particularmente, considero bem significativa a foto que registra o abraço entre ele e FHC (1931), por ocasião do velório da ex-primeira-dama Ruth Cardoso (1953–2008), em 25 de junho de 2008. Mas, seguindo a linha memorialística deste texto, esta foto fica de fora, pois não é de Lula nem de FHC, mas de ambos. Quando avalio qual será a imagem de Lula a ser lembrada no futuro, penso nele abraçando povo, rostos colados, risos ou lágrimas, dependendo da circunstância, provavelmente com registro feito pelo onipresente Ricardo Stuckert. Mas isso ainda não tem o peso da história e se trata apenas do meu filtro.

Lula. Foto: Ricardo Stuckert.

E a Dilma Rousseff (1947)? Talvez também seja cedo para se discutir a imagem que vai eternizá-la. Acho bem forte e marcante o flagrante de Wilton Júnior, feita no dia 20 de agosto de 2011, quando a então presidenta participou da cerimônia de entrega de espadins a 441 cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ). Dilma se curva um pouco, em reverência à bandeira do Brasil. Atrás dela, ao lado, um cadete projeta sua espada. A foto dá a impressão que o corpo da presidenta foi atravessado pela lâmina.

Dilma. Foto: Wilton Júnior.

De minha parte, a imagem mais impressionante de Dilma é a que registrou seu depoimento durante a ditadura, em 1970. Ela, altiva aos 22 anos. Os militares, escondendo o rosto.

Dilma depondo durante a ditadura.

Quanto ao Michel Temer (1940), a imagem que o eternizará já está consagrada. Não é bem uma fotografia, na verdade, mas infográficos que jornais e televisões apresentaram para descrever, em detalhes, a obstrução urológica que acometeu o presidente nos últimos dias.

Nunca antes na história desta república claudicante se falou tanto em trato urinário, rim, bexiga, próstata e pênis de um presidente. E, convenhamos, em meio a tanta deterioração do país, que a cada dia sofre um novo golpe, não há iconografia do poder mais adequada para Temer. Que tempos. Que tristes tempos.

Jornal Nacional simula o aparelho urinário do presidente Michel Temer.

2 Respostas to “A iconografia do poder em tempos de obstrução urinária”

  1. John Jahnes Says:

    AINDA TENHO MINHAS DÚVIDAS, FOI SÓ A PRÓSTATA AUMENTADA OU FOI O EFEITO COLATERAL DO FAMOSO COMPRIMINHO AZUL: ‘PRIAPISMO’?

  2. heloizahelenapiasblog Says:

    a foto mais bonita está aqui informada, foi o abraço de Lula com FHC no velório d D Ruth, foi verdadeira a homenagem, a uretra do temer q vá p as cucuias com ele junto, infeliz.
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