History Channel: Série “Guia Politicamente Incorreto” engana historiadores brasileiros

Via Jornal GGN em 22/10/2017

A série “Guia Politicamente Incorreto”, inspirado no livro de mesmo nome escrito por Leandro Narloch, estreou no History Channel no sábado, dia 21/10, em meio a grandes polêmicas. Além dos conteúdos que, mais preocupados com o entretenimento do que o compromisso com a história, dos cinco nomes anunciados como fontes para confirmar as narrativas do roteiro, os únicos três historiadores afirmam ter sido enganados pelo programa.

Pego de surpresa, o escritor Lira Neto, autor dos livros O Inimigo do Rei: Uma biografia de José de Alencar (Editora Globo, 2006) e “Castello: A marcha para a ditadura” (Contexto, 2004), foi o primeiro a anunciar que tinha sido “ludibriado”. “Entrevista que dei ao History será utilizada, sem que isso me fosse dito, na série chamada Guia Politicamente Incorreto. Sinto-me ludibriado”, escreveu Lira Neto no Twitter, imediatamente após saber da notícia.

Com detalhes, manifestou-se em sua conta no Facebook, explicando a manobra que havia sido feita pela produção do programa: “O sentimento é de que fui ludibriado. Ninguém me informou antes, durante ou logo após a entrevista qual era a inspiração do programa. Cometi um erro. Assinei uma autorização de direito de imagem, sem ler, como de praxe, confiando na boa fé do entrevistador”.

O objetivo do programa, que é comandado por Leandro Narloch, mas apresentado pelo youtuber Felipe Castanhari, foi anunciado pelo próprio canal History Brasil: “Vamos ouvir todos os lados e todos os especialistas possíveis”.

Na página de explicação do programa “Guia Politicamente Incorreto”, um resumo do que viria com a estreia no dia 21 de outubro: “Existia um Brasil antes de 1500? E como existia… Guerras, conquistas, lutas por território. Especialistas mostram animais gigantes que foram extintos pela mão do homem e a forma agressiva com que os índios cuidavam da natureza. Entenda também a origem oculta de nossos símbolos nacionais, na boca que quem entende do assunto como Nelson Motta, Lira Neto, Milton Neves e Mauro Betting”.

Após a apresentação do programa, foram expostos personagens como o músico Lobão, que também foram usados pelo programa de televisão como fontes de “checagem” das informações. Na mesma linha que adotou a produção do History Brasil para a montagem com o estilo de episódios do Youtube, com o uso do humor e mensagens curtas e rápidas no roteiro, o programa disponibilizou o autor do livro e o apresentador para responder a todos os expectadores que utilizassem a hashtag #GuianoHistory.

Com o início da transmissão, mensagens como “Curtindo o #guianohistory, pensando em tudo que vi ao logo dos anos não faz sentido”, “#GuiaNoHistory são muitas informações de uma vez, meu cérebro ta uhuuulll” e “#GuiaNoHistory a esquerda vai pirar… ouvindo essa história dos Índios” evidenciaram ainda mais o tom da série.

O escritor e historiador Lira Neto explicou em postagem no Facebook que a equipe do History Channel o visitou no dia 2 de fevereiro deste ano, em sua casa, explicando “genericamente” que se tratava de “uma série sobre a história do Brasil”.

“Tomaram quase duas horas de meu tempo. Fiquei pasmo quanto o entrevistador, Matheus Ruas, da produtora Fly, pediu-me explicitamente para responder às questões como se, do outro lado da lente, sentado na poltrona, estivesse o Homer Simpson. Estranhei, mas respondi às perguntas, com alguma indignação interior e o máximo de didatismo”, contou.

“Sinto-me violentado em fazer parte de qualquer produção que recorra à superficialidade e ao polemismo fácil. Neste momento em que se confunde jornalismo com entretenimento, bravata com reflexão, inconsistência com leveza, creio que seja necessário reafirmar o compromisso com a responsabilidade e o rigor da pesquisa histórica”, completou, com uma foto do programa The Simpsons.

Hoje, outros dois historiadores também anunciaram que foram enganados pela equipe de televisão: o escritor e biógrafo Laurentino Gomes e a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz. Ambos afirmaram que pediram ao canal para retirar suas participações na série.

Entre as narrativas do roteiro estão a tentativa de desmentir a imagem dos indígenas no Brasil, afirmando que eles foram os responsáveis por desmatar cidades no país e acusando-os de não ter cuidado com a natureza, que os portugueses não foram os responsáveis por extinções de animais, e as origens do samba, da banana e da feijoada, que não são 100% brasileiros.

Até o momento, Felipe Castanhari, que confirmou não ser somente apresentador, mas também ter “acompanhado e checado” tudo o que fala no programa por um historiador escolhido por ele, o autor do livro Leandro Narloch e a History Channel não se manifestaram sobre incluir os historiadores sem o conhecimento que se tratava da série “Guia Politicamente Incorreto”.

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