Filho de Gilmar comprou cotas de faculdade por R$12 milhões no mesmo dia de empréstimo do Bradesco

Bradesco transferiu R$26 milhões à faculdade de Gilmar Mendes e, no mesmo dia, seu filho comprou as cotas do outro sócio. Dados do Banco Central mostram que taxa do Bradesco foi melhor que 99,92% dos empréstimos do banco.

Filipe Coutinho, via BuzzFeed em 24/10/2017

Advogado de 32 anos, o filho do ministro Gilmar Mendes comprou parte da faculdade do pai por R$12 milhões, no mesmo dia em que o Bradesco emprestou dinheiro à instituição de ensino.

A compra mostra que a vida acadêmica do ministro, fundador do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), tornou-se um negócio multimilionário, agora inteiramente controlado pela família de Gilmar Mendes.

Como o BuzzFeed News revelou, o IDP tem hoje empréstimos de R$36,4 milhões com o Bradesco.

Novos dados do Banco Central mostram que, na média, os juros oferecidos pelo banco foram metade da taxa praticada pelo Bradesco no mesmo mês. A taxa do IDP foi melhor que 99,92% dos empréstimos oferecidos pelo banco.

O filho de Gilmar Mendes, Francisco Schertel Mendes, tornou-se sócio em 18 de agosto de 2017. Ele é consultor legislativo do Senado, com salário de cerca de R$30 mil, mas está licenciado. Francisco tem também OAB para advogar.

Os documentos foram produzidos pelo IDP, registrados na Junta Comercial e obtidos pelo BuzzFeed News.

Até a véspera, o IDP tinha dois sócios. O mais ilustre era Gilmar Mendes. O outro era Paulo Gonet, atualmente secretário da cúpula da Procuradoria Geral da República, na gestão de Raquel Dodge.

Os documentos mostram uma coincidência das datas. Aqui está o registro da Junta Comercial, com a assinatura dos três.

E aqui está o empréstimo revelado pelo BuzzFeed News.

Pelo acerto, Gonet vendeu suas cotas a Francisco Schertel Mendes por R$12 milhões. Gilmar Mendes tinha preferência de compra, mas renunciou a esse direito. O filho do ministro comprou então 43% do IDP.

Assim, é possível calcular que a faculdade fundada pelo ministro vale cerca de R$27,6 milhões, sendo R$12 milhões (43,44%) do filho Francisco e outros R$15,6 milhões (56,56%) em cotas de Gilmar Mendes.

No registro na Junta Comercial não há menção ao empréstimo do Bradesco ao IDP, que ocorreu no mesmo dia.

O empréstimo
A faculdade do ministro Gilmar Mendes, mesmo tendo que rolar prestações e hipotecar três vezes o mesmo imóvel, conseguiu do Bradesco uma taxa melhor do que 99,92% dos empréstimos que o banco negociou em agosto de 2017, na mesma modalidade.

Pelo acerto com o Bradesco, o IDP terá até 2032 para pagar o empréstimo, a uma taxa de juros anual de 11,35%. Essa operação aconteceu depois de, nos empréstimos anteriores, o IDP já ter dito que não conseguiria honrar parte das parcelas e conseguir reduções de juros. O mesmo imóvel do IDP foi oferecido e aceito pelo Bradesco para hipoteca três vezes.

Por meio da Lei de Acesso a Informação, o BuzzFeed News obteve no Banco Central (BC) a lista dos empréstimos do Bradesco enviada pela instituição naquele mesmo mês. O Banco Central retirou o nome dos contratantes e os valores, de forma a preservar o sigilo e as estratégias comerciais do Bradesco. Não discriminou, também, quais operações incluíam hipotecas – disse apenas que houve em 0,1% dos casos.

O arquivo do Banco Central mostra que, em agosto de 2017, o Bradesco fez 9.917 empréstimos na modalidade capital de giro, superior a 365 dias, de acordo com os dados enviados naquele mês.

Apenas sete tiveram juros menor ou igual ao do IDP.

Os dados compilados pelo Banco Central mostram que a menor taxa foi de 8,2%. A maior foi uma incrível taxa de juros de 119% ao ano. Os dados podem variar ao longo do tempo porque os bancos podem informar posteriormente contratos que tenham ocorrido num determinado mês.

O BC publica ainda em seu site uma média dos juros, também informada pelos bancos. Em agosto, a média dos juros cobrada pelo Bradesco variou entre 24% e 29%, mais que o dobro do oferecido ao IDP de Gilmar Mendes.

Procurado, o IDP disse que é uma instituição privada e que já se manifestou sobre os empréstimos do Bradesco.

“O IDP – Instituto Brasiliense de Direito Público é uma instituição privada. As informações públicas sobre a sociedade são as disponíveis em Junta Comercial. A questão sobre o citado empréstimo já foi tema da nota enviada em 27/9. Não há nada a acrescentar”.

Na nota anterior, afirmou que “os ‘benefícios’ que o jornalista sugere são meras renegociações decorrentes da redução dos juros praticados pelo mercado financeiro”.

O Bradesco disse que “não tece comentários sobre sua política de crédito”. Paulo Gonet respondeu por meio de nota: “Trata-se de um negócio particular, sobre o qual o subprocurador-geral não irá se manifestar”.

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