Após 50 anos da morte de Che Guevara, o caminho que o revolucionário trilhou na Bolívia

Tributo ao Che em La Higuera, onde foi morto.

Nirlando Beirão, via CartaCapital em 8/10/2017

No dia 8 de outubro de 1967, o general Alfredo Ovando Candía, chefe das Forças Armadas da Bolívia, desmentiu os rumores de que o Che estivesse preso. Confirmou, isso sim, que um de seus companheiros de guerrilha tinha sido surpreendido na região de Vallegrande e se encontrava em poder dos batalhões de Rangers treinados pela CIA americana. Era Simeón Sarabia, boliviano. O governo de Fidel Castro tinha conhecimento de que o ex-ministro da Indústria estava na Bolívia, mas havia perdido contato com ele.

Na verdade, naquele dia, um dos mitos de Sierra Maestra e da Revolução Cubana, alquebrado, esquelético, maltrapilho, seu rifle pendendo sem ação de seu ombro, ferido por dois tiros após serem cercados, ele e seus derradeiros parceiros de armas, na ravina de Churo, por 1,8 mil soldados, padecia, de algemas e fortemente amarrado, na dilapidada escola para onde fora levado, na vizinha cidade de La Higuera.

Na manhã do dia 9, por determinação do general-presidente René Barrientos, foi fuzilado à queima-roupa. Só no dia seguinte a imagem nazarena do Che foi divulgada ao mundo, com a notícia de sua morte.

Os tempos mudaram, a Bolívia é hoje governada por Evo Morales e o Exército que dizimou o foco guerrilheiro se apressa, pela primeira vez, em participar, “ao lado das famílias dos antigos combatentes”, de uma homenagem à sua vítima. O vice-ministro da Coordenação, Alfredo Rada, anunciou o evento.

É a confirmação de que o país onde Che queria repetir Cuba não o tem como inimigo, mas com a mesma inspiração icônica destinada a um revolucionário romântico. A passagem frustrada de Guevara pela Bolívia acabou inspirando um empreendimento capitalista de bons resultados.

“La Ruta del Che” recupera, para turistas sem discriminação ideológica, momentos da empreitada insurrecional que terminou emblematicamente na figura do Che em frangalhos, faminto e deprimido. A jornada pode ser coberta em três ou quatro dias. Naturalmente, o elenco que se dispõe a palmilhar o rito quase religioso de veneração ao Che não compartilha da mesma cartilha dos devotos do Caminho de Santiago de Compostela.

La Higuera (A Figueira), no sul da Bolívia, é o início e o fim da jornada. É uma diminuta aldeia de menos de 130 habitantes, predominantemente da etnia guarani, a 150 quilômetros de Santa Cruz de la Sierra, capital da província, e 292 quilômetros de Sucre, capital administrativa da Bolívia. Fica numa região árida e desabitada, na qual os cactos abundam e os condores fazem circunvoluções em torno de cumes ancestrais.

O Che – que chegara a La Paz sob a identidade falsa de um empresário uruguaio na segunda metade de 1966 – pretendia instalar ali nas vizinhanças, no campo de Rancahuazu, um foco guerrilheiro a partir do qual, como uma labareda de liberdade, a rebelião iria incendiar o país, no mesmo padrão de contaminação espontânea que tinha sido bem-sucedida em Cuba.

A pequena fazenda em que Che e seus primeiros comandados se abrigaram não existe mais. Foi por lá que, no dia 31 de dezembro de 1966, apareceu o secretário-geral do Partido Comunista da Bolívia, Mario Monje, para conferenciar com Guevara.

Embora o governo do general Barrientos estivesse longe de ser democrático, o PC boliviano havia saído da clandestinidade e gozava de certa liberdade. Monje considerou o plano de Guevara delirante, fora da realidade.

Do outro lado, o Che passara a desconfiar dos comunistas atrelados ao regime soviético e foi em razão da dependência do governo Fidel à União Soviética, como resposta ao bloqueio americano, que Che saiu pelo mundo para “criar dois, três… muitos Vietnãs”, como anunciou em sua mensagem à Tricontinental. A burocracia o sufocava. O dever de todo revolucionário – dizia – é fazer a revolução.

A conversa com Monje foi catastrófica. Os reforços humanos que a guerrilha esperava ter do PC não viriam oficialmente; os militantes que aderissem ao grupo de Che o fariam por sua própria conta e risco, avisou Monje.

Quando as escaramuças começaram, no início de 1967, o efetivo do foco era de quase 50 homens, aproximadamente: 17 cubanos, entre eles quatro membros do Comitê Central do PC, 27 bolivianos, alguns deles procedentes, à revelia, do PC, e três peruanos.

La Higuera, para onde Che foi levado para morrer, registra, em murais, em monumentos, em bandeiras, em nichos domésticos, em todo tipo de souvenir, sua devoção ao mártir. Prepara-se, como pode, para acolher estes dias os peregrinos da revolução.

Tem apenas dois hostels: a Casa del Telegrafista (quartos a R$50,00, tel. + 591 6773 3362), que aproveita para hospedar uma exposição de fotos de Che; e Los Amigos (diárias a R$45,00), que incentiva discussões políticas diante de um ousado boeuf bourguignon marinado em vinho tinto. O Museu La Higuera (ingresso a R$5,00) guarda modesta memorabilia da guerrilha.

Guias locais sugerem duas escalas na Ruta. Uma, na Quebrada del Churo, a 3 quilômetros de La Higuera. Ali, Che e seus homens foram surpreendidos e capturados. A figueira atrás da qual Guevara tentou se esconder adquiriu status de patrimônio histórico.

O ritual simbólico de tributo consiste em espargir folhas de coca sobre ela. A vizinha aldeia colonial de Samaipata foi incluída no roteiro, porque foi lá que ele buscou, com um farmacêutico, alívio para suas crises de asma.

Na atual Ruta del Che, com início em La Higuera, a outra extremidade da fatalidade histórica de Guevara situa-se em Vallegrande. Esta, sim, uma cidade de 10 mil habitantes, com traços coloniais e alguma vitalidade econômica concedida pelo vale fértil para a agricultura, aos pés dos Andes. Para Vallegrande foi levado o corpo do mais procurado dos guerrilheiros.

A vala onde ele foi enterrado com os companheiros também ganhou apelo turístico (Aizar Raldes/AFP).

Uma testemunha recorda: era pouco antes do pôr do sol e o cadáver de Che veio amarrado nos trens de pouso de um helicóptero, sacudindo-se até a aterrissagem no aeroporto. Uma pequena multidão aglomerava-se e invadiu a pista para ver o desumano troféu. Os policiais tiveram dificuldade para controlar a situação. E Che, por fim, foi enfiado num carro até o hospital local.

Na lavanderia do Hospital Señor de la Malta, improvisada em morgue, a imprensa internacional testemunhou o momento mesmo em que Che Guevara saía da vida para entrar na mitologia. A lavanderia virou santuário, com as paredes revestidas de mensagens de adoração. Até velas costumam ser acesas no lugar.

Os locais passaram a acreditar que “Santo Ernesto” operava curas miraculosas. A crença nasceu da suspeita de que Che, na verdade, estava vivo, já que seus olhos semiabertos pareciam acompanhar os observadores ao longo da sala.

Em Vallegrande, o turismo da guerrilha é altamente organizado. Há seis visitas guiadas por dia (a R$24,00). O Centro de Informação Turística (Plaza Principal 26 de Enero, tel. +591 7009 1023) recomenda o Centro Cultural Ernesto Che Guevara, o memorial erigido no sítio onde o corpo de Che foi enterrado numa cova rasa, sem identificação, de forma a que a campa não virasse local de culto.

Por precaução, as mãos do Che já tinham sido cortadas – também para dificultar uma futura identificação. Em 1997, os restos mortais foram exumados e levados para o jazigo perpétuo, em Cuba.

Programações variadas estão agendadas para estes dias em Vallegrande (no Facebook, veja a página do Turismo Vallegrande Bolivia) e em La Higuera, com a presença dos quatro filhos de Guevara, que moram em Cuba, e a apresentação do documentário As Mãos de Che Guevara.

A cruel ironia é que sobra, em morte, o entusiasmo solidário que faltou a Che Guevara em vida, naqueles grotões em que ele sonhou mobilizar os camponeses locais para a causa da revolução. Em vão. No diário encontrado em sua mochila, ele anotou sua desilusão: “Os habitantes desta região têm cabeças impenetráveis como rochas”.

Uma resposta to “Após 50 anos da morte de Che Guevara, o caminho que o revolucionário trilhou na Bolívia”

  1. Aristóteles Barros d (@AristtelesBarr1) Says:

    Hasta la vitória, siempre, Comandante Che Guevara!

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