Temer reclamar de conspiração é surreal demais até mesmo para o Brasil

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters.

Leonardo Sakamoto em 22/9/2017

Michel Temer provou, mais uma vez, que o poço não tem fundo. Em pronunciamento divulgado pelas redes sociais, na sexta-feira, dia 22/9, ele mostrou que, lá embaixo, há sempre um alçapão.

“Sabe-se que, contra mim, armou-se conspiração de múltiplos propósitos. Conspiraram para deixar impunes os maiores criminosos confessos do Brasil, finalmente presos, porque sempre apontamos seus inúmeros delitos”, disse ele.

Os controladores da JBS grampearam Temer e parte da elite política para entregá-los de bandeja a Rodrigo Janot e se safarem de punição por corrupção. Ao que tudo indica, Joesley Batista tentou manipular esse processo para evitar que fosse punido e, agora, está preso. Isso não apaga o que foi constatado. E nem dá a Temer o direito de reclamar de conspiração, uma vez que ele fez isso a céu aberto pela queda de sua antecessora.

Não importa se você considera que houve impeachment legal, golpe parlamentar ou sucrilhos com banana contra Dilma Rousseff. Há de convir que Temer não teve um comportamento como o de Itamar Franco diante da queda de Fernando Collor. Pelo contrário, vendeu-se como o único capaz de tirar o país da crise e aplicar as reformar liberalizantes desejadas pelo poder econômico, enquanto prometia salvar políticos que eram alvos da Lava-Jato e ajudar a aprofundar o Congresso Nacional como um balcão de negócios.

O pronunciamento desta sexta teve o objetivo de convencer a população de que a segunda denúncia contra ele (promovida pela Procuradoria Geral da República e enviada à Câmara para ser admitida ou rejeitada para análise no Supremo Tribunal Federal) quer incrimina-lo injustamente. Na verdade, ficou parecendo um grande escárnio.

Quando Temer diz que “só regimes de exceção aceitaram acusações sem provas, movidos por preconceito, ódio, rancor ou interesses escusos” e depois completa com “lamento dizer que, hoje, o Brasil pode estar trilhando este caminho” parece querer ignorar como foi o processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Claro que ela tem parte parcela considerável de responsabilidade em nossa atual crise econômica devido às suas decisões equivocadas. Mas sempre defendi que uma cassação de mandato deveria vir de onde havia fartos elementos, como a utilização de caixa 2 nas eleições presidenciais de 2014. Apeá-la de um mandato alcançado democraticamente por conta da emissão de créditos suplementares/pedaladas fiscais foi uma forçação de barra. Instituições foram esgarçadas para que o impeachment coubesse nas necessidades do poder econômico e da velha política. Agora, pagamos todos o preço do esgarçamento de leis e regras e o consequente “foda-se” a tudo aquilo que nos une como um país.

Lembrando também que uma característica de “regimes de exceção” é militares de alta patente ameaçarem a democracia e os governantes civis abaixarem a cabeça com medo porque sabem que, em uma disputa direta, seriam decapitados. Como ocorreu recentemente no Brasil.

Temer também afirmou que “a única vacina contra essa marcha da insensatez é a verdade”. E prosseguiu: “A verdade é a única arma que tenho para me defender desde o início deste processo de denúncias e que busca desestabilizar meu governo e paralisar o avanço do Brasil”.

Se Temer contasse toda a verdade que sabe sobre os podres de seu partido e aliados atuais e passados, a República cairia duas vezes e prenderiam todos os que trabalharam com ele. Eu já sugeri, neste blog, isso mais de uma vez – “Delata, Temer, delata!” – como forma de garantir que sua biografia ainda saia por cima dessa zorra toda. Mas ele não me ouve.

Não satisfeito, Michel Temer não apenas nos tortura ao lembrar que seu mandato termina apenas em janeiro de 2019, mas também “ameaçou” os trabalhadores e as populações mais vulneráveis (que são os que mais vão sofrer com as mudanças e reformas que vêm sendo promovidas por ele): “Farei muito mais até janeiro de 2019”. Mais? Já não bastou a PEC do Teto dos Gastos (que limita por 20 anos investimentos públicos em áreas como educação, saúde, ciência, entre outras) e a Lei da Terceirização Ampla e a Reforma Trabalhista, precarizando condições de saúde e segurança do trabalhador? Sim, mais. A capivara é longa e pode ficar ainda mais.

Ele estava insaciável hoje. Também disse: “A verdade prevaleceu ante o primeiro ataque a meu governo e a mim”. Tradução: “Comprei os votos necessários para livrar meu pescoço. Não entreguei tudo ainda aos deputados, mas cumprirei com minha palavra”.

E mais: “Tenho convicção de que os parlamentares submeterão essa última denúncia aos critérios técnicos e legais, e à verdade dos fatos. Uma análise crítica e desapaixonada provará os abusos dos que conspiraram contra a Presidência da República e o Brasil”. Ou seja: “Não tem mais tanto dinheiro para liberação de emendas e cargos, mas posso prometer apoio do governo a perdões bilionários de dívidas de parlamentares e de seus patrocinadores. Ou ajuda na aprovação de leis que facilitam a vida dos ricos e empresários, atrapalhando ainda mais a xepa pobre”.

Gostaria de voltar, porém, a um trecho, já citado. Nele, há duplo sentido e, quem sabe, uma sinceridade envergonhada ou uma vontade de reconhecer seus erros ao mundo: “Conspiraram para deixar impunes os maiores criminosos confessos do Brasil, finalmente presos”.

Pode-se interpretar esse trecho como a prisão dos controladores da JBS. Mas gostaria de acreditar que ele estava falando de Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha, entre outros do que batizado de o “Quadrilhão do PMDB”, finalmente presos.

O mais interessante é que, quando a discussão sobre a viabilidade ou constitucionalidade de nova eleições presidenciais foi feita por setores da sociedade, incluindo grupos pró e anti impeachment, como uma forma de termos um governo tampão a legitimidade de uma agenda aprovada pelo voto popular, Michel Temer chamou isso de golpe. Independentemente se você concorda ou não com novas eleições, vai perceber o quanto soa como surreal diante de tudo.

Eu gosto de cinismo. Mas ele é feito sal. Usado com comedimento, ajuda a temperar a vida. Em demasia, estraga tudo. E uma overdose dele pode nos matar.

Já que Temer não quer sair, poderia se controlar e evitar tripudiar a nação, assim dessa forma. Ou, em outras palavras: não esculacha.

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