O masoquismo renitente de (só uma) parte dos militares

Fernando Brito, via Tijolaço em 21/9/2017

As Forças Armadas – e suas escolas – produziram algumas das melhores inteligências deste país.

O Exército, desde cedo, solidificou a ideia da unidade nacional, mesmo num tempo em que o país, politicamente, era pouco mais que um amontoado de oligarquias provincianas e um banco de inutilidades cortesãs. Agora, vê-se reduzido a um secretário de Segurança dizer onde deve colocar seus soldados como guarda da esquina.

A Marinha, nos últimos 40 ou 50 anos, foi o núcleo de nossa ciência nuclear, com um contingente de militares-cientistas dos quais o Almirante Othon da Silva, 77 anos, agora encarcerado por 43 anos (!), era um símbolo. Agora, vai ter os laboratórios de Aramar “invadido” por inspetores tradicionais, colocando plásticos pretos sobre os equipamentos que desenvolveu, enquanto junta moedas num esforço desesperado de manter o Pro-Sub, ainda na esperança de ter um submarino de propulsão nuclear, que pode ficar sem vir à tona por longos períodos, sem o que de nada serve num planeta coberto de satélites.

A Aeronáutica, a quem se deve o sucesso mundial da empresa de mais avançada tecnologia Aeronáutica, vai assistir a entrega da “golden share“ que ainda lhe dá poder de veto em aventuras desnacionalizantes e é humilhada por acusações sem pé nem cabeça nos contratos dos caças Grippen.

Não obstante, em todas as nossas Armas subsiste uma atroz incapacidade de ver que as elites políticas e econômica as querem apenas como fator mobilizável para reprimir a população, seja ela “os esquerdistas” ou os “marginais” das imensidões da pobreza, que é o lugar de onde sai o ser humano que compõe suas tropas.

Num dos episódios descritos no seu livro JK, o artista do impossível, Claudio Bojunga narra o momento em que José Maria Alckmin e o almirante Heleno Nunes, tentando resolver a crise gerada pela insubordinação do coronel Bizarria Mamede contra o Marechal Henrique Lott, um legalista, olha o carro passar pelas fachadas dos bancos na Av. Presidente Vargas diz que estão ali, esfalfados, que “estamos acordados até essa hora para assegurar a estes senhores o direito de continuarem a ganhar dinheiro”.

Vejo debates na esquerda muito próprios dos liberais, discutindo se militares são “de direita” ou se deveriam “ser de esquerda”.

Bobagem.

Militares têm compromisso com duas coisas, basicamente.

Primeiro, com suas corporações, que estão humilhadas, enforcadas financeiramente , desviadas de suas funções – fazendo papel de polícia urbana, enquanto o controle de fronteiras é esvaziado dramaticamente – e seus planos de modernização tecnológica mortalmente atingidos, pela aniquilação das empresas com que tinha parcerias – além dos submarinos, a produção de mísseis de combate foi entregue a estrangeiros.

Segundo, com a defesa (militar e econômica) de nossas riquezas, arruinada com a entrega do pré-sal, da liberação de compra de terras a estrangeiros, a abertura da Amazônia à mineração estrangeira e muito mais.

Infelizmente, os militares não são imunes à sua “porção Brucutu”, incensada pela extrema-direita, que quer vê-los prender “esquerdistas”, sindicalistas, políticos…não, juízes e banqueiros, não…

Brizola, mesmo depois de todas as perseguições que sofreu, nunca embarcou nessa história de ser contra militares por serem militares. E dizia que muitos deles tinham percebido que, ao tomarem o poder, “amarraram a vaquinha Brasil para os outros mamarem”.

Espera-se que sejam muitos os que considerem que a “aproximação sucessiva” que pode nos tirar – a nós, civis, e a ele – deste desastre sejam eleições livres em 2018, sem discriminação de qualquer força política e sem a exclusão de brasileiro algum, o que a torna ilegítima.

Nada diferente do que disse o comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, apenas dois meses atrás: “Saída da crise deve vir da eleição de 2018”. Acredita-se que, em tão pouco tempo, não tenha mudado de opinião.

Nem general nem juiz tem poder de veto sobre a escolha dos brasileiros.

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