O caixa do BNDES nas eleições de 2018

André Araújo, via Jornal GGN em 16/9/2017

Uma surda e gigantesca batalha se trava tendo como alvo estratégico a Presidência da República e como pano de fundo o caixa do BNDES.

De um lado o ministro da Fazenda Henrique Meirelles quer sacar do BNDES R$50 bilhões este ano e R$130 bilhões em 2018 para ter esse dinheiro no Tesouro e manobrar dentro de um orçamento federal esgotado de recursos para qualquer ação governamental, fora pagar a folha e a previdência. E de outro o presidente do BNDES Paulo Rabello de Castro que resiste a entregar tal massa de recursos que será necessária para a operação do Banco em 2018 e sendo ele também um postulante à candidatura presidencial de 2018.

A desidratação do BNDES contradiz o discurso de crescimento alardeado por Meirelles para 2018. Se vamos crescer o BNDES terá que ter recursos para financiar o crescimento. As anunciadas concessões de aeroportos, rodovias e usinas elétricas SÓ serão viáveis se os arrematantes puderem ter certeza de contar com financiamento do BNDES para os novos investimentos. Sem isso as privatizações e concessões serão um fracasso. O financiamento posterior do BNDES é parte integral do atrativo dos leilões, como foram em 1996.

Rabello de Castro tem uma visão nacional, é um economista com formação de excelência, PhD em uma das escolas de economia de maior peso político do mundo, a da Universidade de Chicago. Apesar dessa formação na catedral do neoliberalismo, Rabello de Castro tem uma visão de Estado nacional que Meirelles nunca teve. Meirelles é a personificação dos “mercados” como ente político, entendendo-se como um projeto de globalização financeira que passa por cima dos Estados nacionais, visão essa que só existe em países fracos e desimportantes. Países estratégicos como Rússia, China e Índia nem por delírio abraçam essa lógica de subordinar a política de Estado ao capital financeiro internacional, que é o que Meirelles representa. Ele fez toda sua vida em bancos norte-americanos aqui e nos EUA onde tem residência permanente. O Brasil é um pouso de passagem eventual e ele, como presidente, seria uma espécie de Vice-Rei da Índia nos tempos do Império Britânico, um delegado da metrópole.

O caixa do BNDES é a própria razão de ser do banco e seu esvaziamento representa um recado de que o Banco deve encolher, se apequenar. Essa é a visão do grupo que Meirelles, muitos deles declaradamente pregam o fechamento do BNDES, que não cabe em uma economia neoliberal onde só deve existir a finança privada, que o BNDES atrapalha.

Politicamente, a anterior presidente do Banco, Maria Silvia Bastos Marques, uma das “musas” da era das privatizações, uma indicação do grupo Meirelles, permitiu a retirada de R$100 bilhões do banco para o Tesouro em 2016. A primeira “facada” de Meirelles para enfraquecer o BNDES. Atender ao pedido de Meirelles custou à Maria Silvia o cargo no qual foi desidratada. Sua subserviência ao ministro da Fazenda criou um ambiente de tal modo negativo dentro do Banco que ela se viu sem condições de continuar na Presidência, o BNDES é o tipo de instituição inadministrável sem a participação e a colaboração dos técnicos de carreira.

Meirelles é por todas as percepções da mídia um candidato à Presidência em 2018, o que desagrada o presidente Temer e especialmente o Congresso. Aliás essa candidatura é incompatível com o exercício do Ministério da Fazenda no atual momento político.

Talvez essa circunstância explique a indicação de Rabello de Castro, uma espécie de “calço” para segurar as ambições de Meirelles, que são antigas, aliás antiquíssimas. Ele já se ofereceu para ser candidato em várias eleições anteriores e para vários partidos, como se o Brasil fosse apenas um troféu no seu imenso currículo de embaixador da finança mundial.

Essa disputa pelos R$180 bilhões do BNDES, dinheiro grande em qualquer lugar, representa duas visões de mundo e de País. Um quer o dinheiro para queimar na fogueira do Tesouro, na caldeira da dívida pública, cuidados com especial carinho pelo grupo de Meirelles. O outro representa uma visão nacional de Brasil carente de investimentos e de infraestrutura, e pleno de carências sociais que podem ser consideravelmente aliviadas pela criação de empregos, rendas, novas empresas, melhorias no saneamento, educação e saúde.

Em uma visão de realpolitik, para Meirelles, quanto mais Temer tiver problemas, melhor.

Ele já teve a desfaçatez de afirmar que, se mudar o presidente, a política econômica continua, uma declaração de audácia ímpar, querendo dizer que ele é irremovível, o que é muita pretensão. Meirelles conhece e administra a economia brasileira para 30 milhões de upper and medium class das grandes cidades, o resto não lhe diz respeito. O Brasil de Meirelles é um Pais colonizado pela finança internacional, que ele tão bem representa, não se conhece outra agenda do pré-candidato a não ser inserir o País cada vez mais nesse mundo excludente.

Infelizmente para Meirelles surge um João Dória correndo na mesma faixa do upper class disputando o mesmo eleitorado do Figueira Rubayat, órfãos de Collor. A direita vai ter um carrossel de disputantes, a “turma dos Jardins” vai ter várias opções.

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