Haddad: O sonho de golpistas é disputa entre direita e extrema-direita em 2018

Ex-prefeito paulistano e Marcelo Freixo defendem que esquerda tem de se repensar para disputar eleições. Para petista, precisa de programa “crível e exequível”. “É tempo de trabalho de base”, diz deputado do PSOL.

Via RBA em 16/9/2017

O Seminário Internacional Universidade em Crise: As razões do Agir, realizado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH), se encerrou na noite de sexta-feira, dia 15/9, com o debate “Qual o futuro das esquerdas?”. Na discussão, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e o deputado estadual no Rio de Janeiro Marcelo Freixo (PSOL) concordaram em que a esquerda terá de se repensar diante do atual cenário pós-golpe no país. Juliana Borges, pesquisadora em Antropologia na Fundação Escola de Sociologia e Política, participou do debate, mediado pela professora da faculdade Maria Arminda do Nascimento Arruda.

Segundo Haddad, tanto do ponto de vista da direita como da centro-esquerda, “há hoje uma corrida contra o relógio”. Para ele, o campo progressista precisa entender a complexidade do processo que levará o país às eleições de 2018. “Não será possível a esse campo, simplesmente, anunciar um resgate de um projeto que expirou, porque as condições estruturais da economia global se alteraram enormemente”, disse. Uma solução de “resgate” de propostas que não condizem com o tempo histórico não convencerá o eleitor, em sua opinião. “Não vai passar confiança dizer que vamos reviver os tempos de 2005, 2010, não importa o recorte histórico. Está na memória do povo que ele vivia bem. Mas se a gente disser que aquilo é possível resgatar, não só é pouco como acho que não é real e verdadeiro”.

Para o petista, a esquerda tem um ano para trabalhar um programa de governo à altura dos desafios colocados pela conjuntura nacional e a realidade mundial. Esse trabalho tem de ser feito com maturidade, “para que seja crível e exequível, porque não basta ser crível”. A esquerda tem de se “repensar”, defende Haddad.

Ele também questionou a necessidade absoluta de haver unidade entre as forças progressistas na disputa das eleições do ano que vem. “Talvez não exista possibilidade de unidade na esquerda em torno de um programa único. Mas isso não é problema, porque talvez nós tenhamos que testar mais do que uma hipótese e deixar o povo exposto a mais de uma possibilidade para que as discussões possam conduzir o processo com mais liberdade do que se forjarmos uma unidade que não seja verdadeira, que não tenha coerência interna”.

Haddad prevê que os grupos que tomaram o poder com a derrubada de Dilma Rousseff podem estar correndo contra o relógio, mas têm “um sonho” para o ano que vem. “Na minha opinião, o sonho deles é uma disputa da extrema-direita com a direita. Se a direita disputar com a extrema direita, vai dar direita e então vão legitimar a agenda neoliberal, que vai voltar com força, porque com a legitimidade do voto. Esse é o sonho dos golpistas, e que não haja espaço para o campo da centro-esquerda de oferecer alternativa eleitoral viável”, disse.

“Nos Estados Unidos, eles perderam a mão e deu Trump, mas na França deu mais certo para o establishment e deu Macron. Isso vai dar trabalho, não é simples de fazer, tem de combinar com os ‘russos’, que são os eleitores”, acrescentou Haddad.

Negação da política
Freixo questionou o modelo político praticado pelo campo progressista nos últimos anos e afirmou que a esquerda está perdendo terreno para a direita no processo e na luta política. “Hoje, o sentimento (em relação à) política mais perceptível é a repugnância. A negação da política é um projeto político, e esse projeto político entende a repugnância. E a esquerda faz o quê?”

Para o deputado, a chamada política de coalizão se esgotou. “Muito mais do que buscar coalizão, e não é mais tempo, é tempo de trabalho de base”, disse.

Segundo sua avaliação, a esquerda precisa entender a complexidade da questão da violência, por exemplo, para construir um projeto de governo. Apesar da política do Estado seja a de resolver a questão da violência “com polícia e presídio”, não são poucas as pessoas nas favelas que pedem penas maiores. “E quem vai preso? É a população pobre das favelas. Vamos enfrentar essa hegemonia ou não?”, questionou. Para ele, é preciso dialogar com as comunidades, mas ao mesmo tempo “romper o caráter colonizador da esquerda”, que pretende levar soluções prontas para a população, sem debate.

O ex-candidato à prefeito do Rio de Janeiro defendeu que o diálogo com a sociedade, por parte da esquerda, tem de ir das favelas aos grupos evangélicos, para não continuar perdendo terreno para os conservadores. “Não acho que todo evangélico tem de ser fascista. Em pouco tempo, todas as periferias serão evangélicas. Ou a gente entende isso, ou a gente está ferrado. Não quero pensar que todos os evangélicos são a imagem e semelhança do (Silas) Malafaia. O mundo evangélico trabalha com utopia, hoje mais do que a esquerda”. Freixo também defendeu dialogar sobre direitos humanos com setores progressistas da própria polícia.

Maria Arminda do Nascimento Arruda afirmou que a intenção do debate promovido pela faculdade é “discutir os temas fundamentais do mundo contemporâneo”. O principal, disse, se resume em uma constatação dramática: “parece que o Brasil se despediu da dignidade. Quais alternativas civilizatórias temos pela frente?”

Pesquisadora em Antropologia na Fundação Escola de Sociologia e Política, a militante “feminista e negra antiproibicionista” Juliana Borges afirmou que a esquerda é “superficial” nos debates sobre a questão racial. “A esquerda não enfrenta a questão racial”, disse. Ela defendeu que o debate precisa definir “como a questão racial pode entrar no futuro das esquerdas” e num projeto de governo progressista. “A gente desconhece nossa história. Temos um sistema racializado de controle”.

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