Nos 40 anos de sua invasão, PUC diplomará cinco alunos mortos pela ditadura

José Arbex Jr. em 17/9/2017

Os estudantes Carlos Eduardo Fleury, Cilon Cunha Brum, José Wilson Lessa Sabbag, Luiz Almeida Araújo e Maria Augusta Thomaz jamais completaram seus cursos na PUC/SP, onde estudavam, no final dos anos de 1960. Foram assassinados pela ditadura militar. Os corpos de Luiz Almeida (Lula) e de Cilon Brum ainda não foram encontrados. Na segunda-feira, dia 18/9, eles serão homenageados pela Comissão da Verdade criada pela universidade, que, com a cerimônia, encerrará formalmente seus trabalhos. A PUC lhes concederá um diploma simbólico, como parte de uma semana dedicada a lembrar os 40 anos desde que a universidade foi invadida, com grande selvageria, por tropas da Polícia Militar comandadas pelo coronel Erasmo Dias.

“Para relembrar os 40 anos da invasão, precisávamos de algo que revivesse a memória desses estudantes. Então, pensamos em atribuir um diploma para cada um deles. Não podemos atribuir um diploma no sentido formal, porque nenhum deles pode completar a graduação, mas nós vamos homenagear e reconhecer, postumamente, a presença desses estudantes na universidade. Os diplomas serão encaminhados para as famílias desses estudantes no dia 22. A data faz a ponte entre os movimentos sociais e estudantis durante a ditadura militar e a presença da Universidade na luta pela redemocratização. Esses meninos e meninas são heróis”, afirma a reitora Maria Amália Andery.

No dia 22 de setembro de 1977, estudantes oriundos de todo o Brasil celebravam a realização do 3º Encontro Nacional dos Estudantes (proibido pela ditadura), em frente ao teatro da PUC, o Tuca, situado na rua Monte Alegre, bairro de Perdizes, quando foram surpreendidos pela polícia. A tropa de choque chegou disparando bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, cercando e empurrando para dentro do campus todos os que ocupavam a rua em frente ao teatro. Os soldados invadiram salas de aula, laboratórios e todas as dependências universitárias.

Erasmo Dias berrava feito um alucinado, multiplicando ameaças e bravatas do tipo: “Todos serão presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional”.

Sempre com brande brutalidade e violência, a polícia levou todos para um estacionamento próximo à PUC e lá mesmo fez uma primeira triagem, baseada em listas fornecidas por serviços de inteligência e pela deduragem de agentes à paisana (“arapongas”). Cerca de 900 estudantes foram detidos e levados ao prédio do Batalhão Tobias de Aguiar. A violência resultou em 25 estudantes feridos, três com graves queimaduras e lesões, além de grandes prejuízos materiais.

Exatos sete anos depois, o Tuca voltou a ser alvo de ataques: tentaram atear fogo ao local. Não se comprovou, à época, a origem criminosa do incêndio, embora a data, 22 de setembro, deixasse pouca margem a dúvidas – definitivamente dissipadas em 13 de dezembro do mesmo ano, quando o teatro foi consumido em chamas. Dessa vez, os investigadores encontraram trapos encharcados com thinner. E a data, não por acaso, comemorava a decretação do AI-5, em 1968. O Tuca, inaugurado 11 de setembro de 1965, com a peça “Morte e Vida Severina”, baseada em texto de João Cabral de Melo Neto e musicada por Chico Buarque de Hollanda, tornou-se um marco cultural e simbólico da resistência à ditadura.

Em 22 de setembro de 1977, quando o coronel Erasmo Dias quis cumprimentar a reitora Nadir Kfouri, dela ouviu uma frase que passaria à história: “Não dou a mão a assassinos”. O então grão-chanceler da universidade, D. Paulo Evaristo Arns, declarou que “na PUC só se entra para ajudar o povo, não para destruir as coisas”.

A homenagem agora prestada aos estudantes assassinados e a dedicação de toda uma semana para lembrar essa história são marcos de uma universidade que reafirma as suas raízes, a sua vocação e o seu destino.

A semana vai ser encerrada na sexta-feira, dia 22/9, às 14h30, com um ato em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, em apoio à absolvição de estudantes indiciados durante manifestação contra o governo Temer em setembro de 2016. Para a noite do dia 22 está programada uma concentração diante do Tuca e uma passeata em volta da PUC, batizada de ‘‘Invasão Cultural’’.

José Arbex Jr. é professor de jornalismo da PUC/SP e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo.

Uma resposta to “Nos 40 anos de sua invasão, PUC diplomará cinco alunos mortos pela ditadura”

  1. Chico de Pombal Says:

    E o imbecil e desinformado Zezé de Camargo ainda tem coragem de dizer que a Ditadura Militar brasileira não foi violenta. Ele era garotinho, não não viveu efetivamente essa época, e, além do mais, não se informou, não leu, não estudou o período de 1964 a 1985.

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