Luis Nassif: Os dilemas do Banco Central e do jornalismo econômico

Luis Nassif, via Jornal GGN em 7/9/2017

No 22º Congresso de Economia, em Belo Horizonte, participei de uma mesa redonda sobre Jornalismo Econômico com dois velhos colegas, João Borges, da Globonews, Cláudio Conceição, da revista Conjuntura Econômica, e um colega recente, Fernando Brito, do blog Tijolaço.

No debate, João Borges propôs um desafio interessante. Me nomeou presidente do Banco Central e se colocou no papel de entrevistador, perguntando o que eu faria com os juros.

Dei uma explicação mais longa, mostrando como, na minha opinião, deveria ser a política econômica, casada com a Fazenda, o Planejamento, o Banco Central e a Casa Civil, para um choque de investimentos públicos na economia. Mas esse choque necessitaria um presidente com dimensão de estadista. Posto que o atual presidente da República é pequeno, obviamente, não haveria condições políticas para as mudanças.

Ele perguntou o que eu faria com o câmbio, se a taxa de juros baixasse. Respondi-lhe que, com US$300 bilhões em reservas, não haveria a menor preocupação. Depois, no auditório, o economista Fernando Ferrari Filho apresentou dados em que a alta da Selic coincidiu com explosão de dólares, mostrando não haver correlação.

João insistiu que eu não respondera à questão do câmbio. Eu insisti que respondi.

Na avaliação final ele mostrou como uma explicação mais ampla sobre a economia, em uma coletiva aos jornalistas econômicos, acabaria induzindo a confusões nas conclusões. Eu respondi que o exemplo mostrou como era fácil a manipulação da entrevista se um presidente do BC ousasse uma explicação minimamente mais complexa sobre a economia. Essa é o padrão de mediocrização do jornalismo econômico.

O pequeno teatro foi pedagógico para exemplificar as relações entre a cobertura econômica e as autoridades. Qualquer opinião que vá além do sim ou não, dá margem a toda sorte de mal-entendidos, porque há um tipo de jornalismo dominante – e não é de agora – buscando muito mais a declaração ou não declaração de efeito, do que entender a intenção do formulador, principalmente se tratando de análise de realidades mais complexas.

Em todo caso, o desafio do João me fez pensar depois, o que significaria uma guinada no BC. Antes de se pensar em qualquer mudança de política, o primeiro passo seria mudar a composição da diretoria, trazendo economistas de várias linhas de pensamento, com análises variadas sobre a economia.

Depois, recriar de algum modo o antigo Conselho Monetário Nacional (CMN) que era composto por grandes empresários não-financeiros.

Mais que isso, trataria de seguir o modelo norte-americano, montando CMNs em cada estado, com a participação de um grande varejista, um grande industrial, as associações representativas dos pequenos empresários e associações representativas da sociedade, como os Procons.

Nenhuma novidade em relação aos EUA, onde a diversidade de pensamento e de agente é fundamental para se pesar todas as nuances da economia. No Brasil de dezembro de 2008 as encomendas medidas pela Abimaq haviam caído 30%. Mas o BC de Henrique Meirelles insistia em aumentar os juros mencionando sinais robustos da economia.

Não é à toa que, com a objetividade que caracteriza seu assalto às instituições, o primeiro passo dos economistas do Plano Real foi dissolver o CMN e montar conselhos, como o Copom, constituído exclusivamente de integrantes do mercado financeiro.

A diversidade é fundamental. E, tratando-se de um país continental, ter a sensibilidade da economia na ponta é central para um bom cenário econômico.

A história de entender o futuro a partir das apostas feitas pelo mercado financeiro, em um quadro em que quanto maior a expectativa de inflação, maior a taxa real de juros mirada pelo Banco Central, cria um viés intransponível.

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