E-mails de Miller indicam que em março a JBS já negociava com o MPF

Contrariando informações iniciais do próprio procurador-geral, novos indícios devem comprometer definitivamente a delação da JBS.

Via Jornal GGN em 11/9/2017

Ao pedir a prisão do ex-procurador e então advogado do acordo de delação da JBS, Marcello Miller, o procurador-geral da República anexou trocas de e-mails em que Miller informa a representantes do escritório Trench, Rossi e Watanabe Advogados que tinha conhecimento sobre o acordo de delação com o Ministério Público Federal (MPF) em março: dois meses antes de ser homologado.

As novas revelações desmentem comunicado do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de que ele teria sido procurado pela JBS somente em abril. A declaração do PGR foi emitida quando o noticiário passou a caracterizar a negociação dos irmãos Batista como “ultrapremiada”, pelos benefícios obtidos. No texto ironizando a reação da opinião pública, intitulado “Crimes graves: sem acordo de delação dos irmãos Batista, país seria ainda mais lesado”, Janot disse: “Em abril deste ano, fui procurado pelos irmãos Batista”.

Entretanto, as trocas de e-mails anexas para pedir a prisão de Miller, juntamente com a dos executivos Joesley Batista e Ricardo Saud, revelam que, ainda em março deste ano, o então procurador atuava no escritório e que a JBS já encaminhava a negociação do acordo junto ao MPF. As provas trazidas poderão comprometer definitivamente a delação da JBS.

Em um dos e-mails, divulgados inicialmente pelo portal JOTA, Marcello encaminha uma resposta a Camila, pessoa não identificada, informando que os empresários da J&F já negociavam com os procuradores o fechamento do acordo: “Já sobre a empresa, tenho [comentários]: 1) eles já estão conversando com o MPF”.

O ex-procurador também citava “risco elevado” para a empresa JBS, como investigada, em cenário internacional. “As investigações em curso podem resultar até em prisão dos controladores, com a contingência de a empresa poder vir a fazer acordo”. A comunicação foi enviada no dia 16 de março. O acordo foi homologado pelo Supremo Tribunal Federal em maio deste ano.

Marcelo_Miller05_Procurador_Email.jpg

Reportagem da Folha de S.Paulo também cita outros e-mails, um deles datado de 5 de março, em que a advogada Esther Flesch encaminha uma mensagem do diretor jurídico da JBS a Miller. Naquele dia, a advogada havia pedido a opinião do então procurador sobre uma proposta do escritório de “assessorar a JBS na avaliação de riscos referente a assuntos de compliance de diversos temas, inclusive anticorrupção”.

“Eu serei a sócia responsável pela condução dos trabalhos, e incluirei na equipe outro(s) sócio(s) ou advogados conforme for apropriado”, afirmava Esther ao diretor da JBS, anexando um documento intitulado “Termos Gerais de Contratação”.

Em resposta publicada no domingo, dia 10/9, Miller afirmou que “jamais fez jogo duplo ou agiu contra a lei” e que “não tinha contato algum com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot”. O ex-procurador informou que havia pedido a exoneração do cargo no MPF ainda no dia 23 de fevereiro deste ano e que essa informação foi “circulada imediatamente” dentro do órgão.

Marcello Miller solicitou a exoneração do MPF em fevereiro deste ano, mês em que teria sido convidado pela JBS a ocupar o cargo de diretor global de compliance da companhia, no departamento anticorrupção. Decidiu permanecer no escritório Trench, Rossi e Watanabe Advogados, e teria atuado na negociação do acordo da JBS com o MPF antes de deixar o posto, conforme revelam agora as mensagens.

Acréscimo de informações
Em entrevista concedida a Roberto DÁvila, da GloboNews, em julho deste ano, Janot entrou em contradições com os indícios agora levantados e mostrou que a delação da JBS deve ser anulada:

“Essa gravação [da conversa de Michel Temer com Joesley Batista, no dia 7 de março] foi combinada com o Ministério Público?”, questionou o jornalista. “De jeito algum. Toda colaboração tem que ser espontânea, tem que ser voluntária. Se o Ministério Público provoca colaboração, ele está anulando toda a colaboração. Essas gravações foram feitas uns 30 dias antes de que a gente começou a entabular as negociações com essas pessoas”, respondeu o PGR.

“O delator não combinou nada com o Ministério?”, insistiu DÁvila. “Zero, não combinou absolutamente nada”, havia dito Rodrigo Janot.

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