José Carlos de Assis: A teoria do caos aplicada às condições brasileiras

José Carlos de Assis em 7/9/2017

Nos tempos da Guerra Fria, quando visitava Nova Iorque para a Assembleia Geral da ONU, Nikita Kruschev, então secretário geral do PCUS, afirmou aos jornalistas que “não havia especialistas norte-americanos em União Soviética, mas vários graus de ignorância”. A história deu-lhe razão. A derrocada da União Soviética em fins dos anos 80 foi um dos fatos mais surpreendentes do século 20, de forma alguma previsto pelos analistas ocidentais. A propósito, creio não ter sido prevista pelo próprio Gorbachev.

Essa situação histórica me veio à mente quando um amigo me perguntou o que eu achava que aconteceria no próximo ano, um ano de eleições. Tudo. Ou nada, respondi. Não sou um especialista em ciência política, me movo melhor na área de economia política. Em uma ou outra, contudo, confesso minha mais absoluta ignorância do que pode vir a acontecer no país em 2018, assim como os anos seguintes. Duvido que Temer saiba. Duvido que Moro saiba. Duvido que os procuradores da Lava-Jato saibam. Duvido que parlamentares saibam.

Uma cortina de ferro se abateu sobre a União Soviética, discursou Winston Churchill anunciando a Guerra Fria em fins dos anos 40. No nosso caso, temos o oposto de uma cortina de ferro. É uma cortina aberta, rasgada, furada. Estamos num sistema tecnicamente caótico no qual a cadeia de delações de crimes junto à Polícia Federal expôs as entranhas de todas as instituições, que interagem entre si como variáveis aleatórias, com controle de ninguém, e criando fatos novos a cada dia. Não se trata de teoria de conspiração. É o oposto.

Se existe quem acreditava que pelo menos a Procuradoria Geral da República era um agente autônomo do processo, fazendo o que bem queria por antecipação, deve estar espantado com a pantomima das últimas fitas dos irmãos JBS. Sim, porque qualquer coisa que aconteça, para o bem ou para o mal, Janot e a quadrilha de procuradores da Lava-Jato estão definitivamente desmoralizados. Evidentemente, nenhum dos seus integrantes poderia prever, apenas alguns dias atrás, esse tipo de acontecimento.

No Congresso, ninguém consegue visualizar nada adiante. É pura politicagem de curto prazo, jogando todos na defesa. O Executivo, que Joesley prometeu desmoralizar, já está mais do que desmoralizado. Os mais atentos simplesmente esperam o momento da denúncia de figuras como Jucá, Moreira Franco, Imbassahy et caterva. O Supremo tornou-se uma incógnita. Joesley anunciou na fita que alguém de seu grupo se encarregaria de explodi-lo. Carmem Lúcia foi mais rápida, mas ninguém, nem ela, sabe o que pode vir da investigação que ela exigiu.

A questão não é tanto que todos os poderes da República estejam sob suspeita, mas sim como será o desdobramento desse processo, no qual um único depoimento, como o do suspeitíssimo Palocci, pode abalar as próprias raízes da República. O que se dirá das inevitáveis denúncias que acabarão ocorrendo envolvendo o sistema bancário, o canal óbvio e por enquanto esquecido da rede de lavagem de dinheiro, ainda inteiramente protegido pela mídia, seu cúmplice pela via do caixa e das agências de publicidade?

A investigação da Lava-Jato está paralisando a economia brasileira e mantendo no desemprego absoluto mais de 14 milhões de trabalhadores. Entretanto, o gênio foi retirado da garrafa. Por pior que seja suas consequências, não há como voltar atrás. Aécio e seus comparsas do PSDB, do DEM, do PMDB serão inevitavelmente apanhados na rede, por uma razão simples: há competições ideológicas e de vaidade entre promotores, e eles não se subordinaram a uma ordem hierárquica. Fazem o que querem, livremente.

A natureza escandalosa do processo não permite sigilo pois todos invejam e desconfiam de todos, e todos, inclusive os promotores da Lava-Jato, tem medo de se comprometer. Portanto, guardem suas bolas de cristal, e apenas acompanhem o processo, friamente. A despeito da fortuna de Geddel, é a modesta mala de R$500 mil de Loures que contém quantidade de glicerina com potencial de explodir o Planalto. Não há como escondê-la. Quando? Não sei. Na Teoria do Caos, o que se sabe é que pequenas variações nas condições iniciais de um sistema produzem grandes transformações nas condições finais!

José Carlos de Assis é economista, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe (UFRJ) e professor de Economia Internacional da UEPB.

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