Quando o “follow the money” é substituído por delações

Segundo Marcelo Odebrecht, não adianta nada que a defesa de Lula ou de outros réus tenham acesso aos sistemas Drousys ou MyWebDay, usados para controlar pagamento de propina, porque o overload de dados demanda um “empresário” (leia-se delator) para tradução.

Cíntia Alves, via Jornal GGN em 6/9/2017

O mais novo embate travado entre a defesa de Lula e os procuradores de Curitiba em torno dos sistemas Drousys e MyWebDay, usados para controle de pagamento de propina pela Odebrecht, é o pano de fundo para uma das declarações mais temerárias que um réu colaborador da Lava-Jato fez diante do juiz Sérgio Moro.

Ao depor em Curitiba, no âmbito do processo em que Lula é acusado de receber um imóvel para o instituto que leva seu nome, entre outras vantagens indevidas, Marcelo Odebrecht praticamente disse que o destino do ex-presidente e de quem quer que seja acusado de receber propina paga pelo tal do “setor de operações estruturadas” está nas mãos dos “empresários” – leia-se, portanto, dos delatores.

O follow the money foi substituído por declarações que se provam com mais declarações.

O embate ocorre porque os advogados de Lula querem acessar o Drousys (que servia à comunicação da equipe que operava os pagamentos) e o MyWebDay (de controle financeiro) para provar que o petista não está entre os beneficiários de propina da Odebrecht. Mas a Lava-Jato de Curitiba alega que não tem acesso à íntegra dos documentos e, Moro diz, por sua vez, que a palavra dos procuradores “merece fé”.

A defesa insiste porque além dessa ação penal por propina da Odebrecht, o caso do sítio de Atibaia também é abastecido com referências aos dois sistemas de controle.

Em audiência recente com Moro, Marcelo Odebrecht e uma procuradora do Ministério Público Federal explicaram mais sobre Drousys e MyWebDay.

O Drousys só era conhecido pela equipe da Odebrecht coordenada pelo executivo e hoje delator Hilberto Mascarenhas. O sistema era parte hospedado em um servidor na Suíça e, uma outra parte, na Suécia (mais especificamente em Estocolmo).

Quem tem acesso ao material compartilhado pelos países é a Procuradoria Geral da República. A turma de Curitiba diz ter recebido apenas um relatório parcial sobre o material que estava na Suécia. Da Suíça, ainda não conhece nada (nem do Drousys, nem do MyWebDay, que só existe naquele País) porque a PGR ainda está analisando o material.

Além do relatório parcial sobre o Drousys da Suécia, a procuradora de Curitiba diz que usa uma delação de Maria Lúcia Tavares, uma das secretárias do setor de operações estruturadas da Odebrecht, para fazer as acusações. Mas reafirma que MyWebDay e Drousys suíços não estão na roda.

Moro tem bloqueado pedidos das defesas dos réus, incluindo Lula, para que a turma de Curitiba seja obrigada a compartilhar a íntegra das informações que possui. O advogado Cristiano Zanin Martins, que defende o petista, já entrou com recurso na segunda instância para reverter esse quadro.

Não que vá adiantar muito, segundo Marcelo Odebrecht.

Na narrativa apresentada pelo delator a Moro, os dois sistemas de controle não passam de um amontoado de números sem um delator para traduzir os dados.

Em tese, no MyWebDay há registros dos valores pagos, do codinome e da obra ou empresa vinculadas à propina. Pistas que ajudam os investigadores com o follow the money. Mas, segundo Marcelo, a Odebrecht não está conseguindo acessar “o todo” do sistema e repassar os dados integrais ao MPF. Conseguiu extrair apenas alguns “extratos impressos” para ajudar em algumas ações.

O Drousys iria ainda mais longe: teria registro de contas bancárias. Mas, na narrativa de Odebrecht, não passam de um amontoado de dados sem um “empresário” (ou seja, delator) para traduzir.

“Esse sistema (Drousys), eu mesmo tive a oportunidade de ver quando da minha colaboração. São páginas e páginas de informação que sem que o empresário que tenha feito o pagamento possa avaliar e filtrar, é difícil. Não adianta nada ninguém receber, nenhuma defesa, nenhuma acusação receber [os dados]. É um overload de informações. O que cada um tem que fazer no âmbito de seus processos é filtrar as informações que são relevantes, que foi o que eu procurei fazer nesse processo”.

Hilberto Mascarenhas também havia dito algo na mesma linha, diante de Moro, mas sobre o MyWebDay: “Esse sistema existe, está no mesmo lugar onde sempre esteve, só que bloqueado. E lá tem essas informações de quais pagamentos foram feitos. E se quiser saber pra quem, tem que pegar pelo codinome, olhar que obra era e perguntar ao responsável, pela obra, quem era a pessoa. Eu não sei dizer”.

No documento em que rebate a acusação do sítio de Atibaia, a defesa de Lula sugere que o MPF tem uma agenda oculta para não querer abrir os dados. Considerando que a chamada lista da Odebrecht tem “Santo”, “Mineirinho” e outras dezenas de codinomes investigados, é possível imaginar razões para o segredo de Estado.

Da parte de Lula, a defesa adverte que o “MPF fecha os olhos para o caminho do dinheiro” porque “sabe – e não quer explicitar – que o ex-presidente Lula não tem qualquer relação com o assunto e a denúncia é desprovida de materialidade”.

No final, a banca apontou que se, de fato, o MPF fez acusações com base em um sistema ao qual não teve acesso na íntegra, a denúncia do sítio não poderia ser mais furada.

“Se for verdade que o órgão acusador jamais dispôs do material atinente à contabilidade do Setor de Operações Estruturadas, então esta ação penal deve ser rejeitada por manifesta ausência de justa causa”.

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