Juiz da Lava-Jato no Rio, Marcelo Bretas caminha para o posto de novo super-herói da Justiça

Juiz Marcelo Bretas (à esquerda) assiste a filme sobre a Lava-Jato com Sérgio Moro.

Ruben Berta, via The Intercept Brasil em 4/9/2017

“Nunca quis ser igual ao Moro, não sou”. A frase do juiz da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, Marcelo Bretas, responsável pelos processos da Operação Lava-Jato no estado, deu título à reportagem publicada de entrevistas realizadas ao longo de dez dias, revela detalhes de sua rotina: das idas regulares à igreja evangélica às séries de exercícios três vezes por semana, com corrida e musculação. Mais do que isso, o texto deixa uma pergunta no ar: estaria surgindo um novo candidato a super-herói no Judiciário?

Se, até agora, adotava uma linha bem mais discreta do que Sérgio Moro, que se transformou numa espécie de popstar para boa parte de uma nação desacreditada na classe política, Bretas vem aos poucos incorporando o ar de ídolo do colega de Curitiba de quem quer se diferenciar. A bagagem para se tornar um herói é considerável: é do juiz federal do Rio a caneta que colocou na cadeia o ex-governador Sérgio Cabral, que, com diversos aliados, castigou as finanças fluminenses com seus incontáveis esquemas de corrupção.

Embate com Gilmar Mendes
O passo definitivo para a glória foi dado no fim do mês passado. Para tentar manter presos Jacob Barata Filho, conhecido como “Rei dos Ônibus”, e outros empresários do setor acusados de corrupção, Bretas peitou ninguém menos do que Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que vem se esforçando para ser mais impopular do que o presidente Michel Temer.

Ao menos até agora, o magistrado do Rio perdeu a queda de braço contra Mendes. Os empresários saíram da cadeia e o ministro do STF, ao que tudo indica, não será impedido de atuar no processo mesmo tendo sido padrinho de casamento de Barata Filho. Bretas ainda teve que ouvir desaforo do colega de Brasília: “Em geral, o rabo não abana o cachorro”.

Peitar uma figura tão impopular, porém, aumentou a comoção em torno de Bretas. No dia 24 de agosto, colegas juízes e celebridades como Thiago Lacerda, Marcelo Serrado e Christiane Torloni fizeram uma manifestação de apoio ao magistrado. “Bretas, o Rio, está com você”, dizia o principal cartaz do ato, com uma vírgula separando o sujeito do predicado, de autoria desconhecida.

Medalha na Câmara de Vereadores
Além do apoio da classe artística, o juiz já havia recebido uma homenagem pública em junho deste ano, na Câmara de Vereadores do Rio. Graças a uma proposta do vereador evangélico Otoni de Paula (PSC), Bretas foi condecorado com a Medalha Pedro Ernesto, maior honraria da Casa. Figura polêmica, Otoni foi notícia em diversos sites na semana passada ao chamar a cantora Anitta de garota de programa.

No fim do mês passado, Bretas também brilhou nas páginas de jornais e sites de notícias ao aparecer ao lado de Sérgio Moro na pré-estreia do filme “Polícia Federal: a Lei é para Todos”, em Curitiba. Na entrevista ao Estadão, disse que “não fica incomodado” com as especulações de que o galã Thiago Lacerda possa interpretá-lo numa eventual sequência do longa.

Veto a entrevistas com Cabral
Enquanto caminha para ser cada vez mais presente na mídia, Bretas limita o acesso da imprensa ao réu dos processos que o notabilizaram. No dia 16 de agosto, ele proibiu entrevistas de dois dos melhores repórteres investigativos do Rio – Chico Otávio, de O Globo, e Ítalo Nogueira, da Folha – com o ex-governador Sérgio Cabral. Alega que não haveria “interesse público” nas reportagens e que “as informações pertinentes são acessíveis à imprensa”. A decisão foi ratificada em segunda instância.

Daqui para frente, resta saber se vai valer a máxima do futebol de que juiz bom é aquele que passa despercebido nas partidas.

Ou se o país terá mais um super-herói de toga para chamar de seu.

***

PERFIL DO JUIZ BRETAS REVELA TRAÇOS PREOCUPANTES DO FUNDAMENTALISMO EVANGÉLICO
Joaquim de Carvalho, via DCM em 4/9/2017

O Estadão publica um interessante perfil do juiz Marcelo Bretas, que conduz os processos do ramo fluminense da Lava-Jato.

No texto, sobressai a formação evangélica do magistrado. Nada contra a formação evangélica, mas, em Estado laico, a cultura evangélica pode fazer do juiz um agente público que se considere dotado de uma missão superior.

Por exemplo, há um trecho que fala de sua reação ao que disse o ministro Gilmar Mendes sobre a “revisão” de Bretas a um habeas corpus concedido pelo ministro da suprema corte.

Gilmar disse que, se prevalecesse a decisão de Bretas, seria o mesmo que o rabo abanar o cachorro, e não o contrário, que é o que acontece.

Pode-se discordar de Gilmar, mas, para a saúde das instituições, Gilmar ocupa uma posição hierarquicamente superior – tem a autoridade de guardião da Constituição – e por isso deve ser respeitado.

Com a expressão do rabo que abana o cachorro, Gilmar apenas repetiu um antigo ditado, para ilustrar situações em que a ordem natural das coisas é alterada.

Mas Bretas viu algo sobrenatural.

Ele, que é juiz de primeira instância, reagiu mostrando ao repórter Luiz Maklouf de Carvalho um versículo da Bíblia (antigo testamento) que define o homem de Deus (no caso, escolhido, por se tratar do povo hebreu) como cabeça e não cauda.

É o versículo 13 do capítulo 28 do livro de Deuteronômio, que ele leu para o repórter:

“E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás em cima, e não debaixo, se obedeceres aos mandamentos do Senhor teu Deus que hoje te ordeno, para os guardar e cumprir”.

Há pastores que interpretam o versículo como uma mensagem de que o cristão deva ser sempre o chefe, o empresário, nunca o subordinado ou o empregado.

Há lideranças evangélicas que pensam diferente. Para estes, essa interpretação literal é equivocada.

Ser cabeça significa ter controle sobre suas ações, não ser facilmente manipulado ou influenciado.

Bretas parece ter o entendimento literal, próprio de uma visão fundamentalista, como mostra a reação descrita por Maklouf:

[…]
O juiz deu entrevistas ao Estado na semana em que entrou na mira do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Gilmar o atacou, em 18 de agosto, por ter mandado prender novamente dois empresários amigos que mandara soltar, na véspera. “Isso é atípico. E em geral o rabo não abana o cachorro, é o cachorro que abana o rabo”, disse o ministro, sugerindo subserviência. “Não vou comentar, para evitar confronto e polêmica, mas confesso que me atingiu um pouco, por causa da minha formação religiosa evangélica”, disse Bretas no meio da tarde da sexta-feira, dia 25, na última de quatro entrevistas que concedeu ao Estado em intervalos das audiências ao longo de dez dias úteis.
Pegou então o celular e trouxe à tela, em segundos, o “Deuteronômio”, um dos livros da Bíblia, no capítulo 28, versículo 13, que leu com emoção: “E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás em cima, e não debaixo, se obedeceres aos mandamentos do Senhor teu Deus que hoje te ordeno, para os guardar e cumprir”.
“Foi a lembrança que me veio à cabeça naqueles momentos”, disse o juiz, evangélico desde sempre. Frisou, na citação, a palavra “cauda”, sinônimo digamos mais elevado do termo usado por Gilmar: “E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda”, repetiu, repelindo a metáfora canina. A Bíblia, que diz já ter lido inteira, é um hábito diário, ao acordar e ao recolher-se, ultimamente facilitado pelo aplicativo no celular. Tem Bíblia em sentença, na dissertação de mestrado, em conversa fiada, e em conversa séria.
[…]

2 Respostas to “Juiz da Lava-Jato no Rio, Marcelo Bretas caminha para o posto de novo super-herói da Justiça”

  1. Aristóteles Barros d (@AristtelesBarr1) Says:

    Dou um pelo outro e não quero troco! Dois esbirros de estadunidenses e da mídia mercenária!

  2. Venceslau Ignaczuk Says:

    Precisamos de Juizes que conheçam melhor o codigo penal do que a Biblia, pois, o vende patria, paria Temer, estah a sinalizar que vai escancalhar com a Republica Federativa do Brasil, onde estao os maçons/ no comando das forças armadas e acadelados? nem se movam. Fiquem quietos, depois saberemos.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: