As 6 vezes em que Temer voltou atrás em um ano de governo

Juliana Gonçalves, via The Intercept Brasil em 1º/9/2017

Primeiro, o governo anunciou que iria acabar com a Reserva Nacional de Cobre e Associado (Renca) e liberar a exploração mineral na Amazônia. Depois da repercussão negativa, revogou o decreto e apresentou outro. O fim da reserva acabou mantido, mas algumas regras para a exploração ficaram mais detalhadas e preservando reservas ambientais e indígenas – por fim a justiça revogou qualquer decreto que busque extinguir a reserva. O episódio foi só mais um exemplo do que já virou um clássico do governo Temer.

O movimento de tentar apagar o fogo voltando atrás depois de alguma decisão mal recebida pela opinião pública tem permeado todo o governo que hoje, no último dia de desgosto de agosto, completa um ano oficialmente no poder.

Nesses 365 dias, os recuos do presidente para tentar driblar sua impopularidade geraram até mesmo um perfil no twitter e um trumbl logo no início do mandato. Só não entendemos ainda por que a mesma lógica do “podemos tirar se achar melhor” ainda não foi aplicada para reverter o índice de 4% de aprovação de seu governo.

Relembramos aqui algumas vezes em que essa tática de “podemos recuar foi utilizada pelos homens de Michel Temer ao longo do último ano.

1) Reforma do ensino médio
Em setembro de 2016, o MEC apresentou inicialmente um texto em que as disciplinas de artes, educação física, filosofia e sociologia passariam a ser eletivas, ficando a cargo da escola e do aluno a decisão de cursá-las. Após polêmica porque o texto dava a entender que a reformulação do Ensino Médio contrariaria a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), governo divulgou nota admitindo o erro e negando a extinção da obrigatoriedade das disciplinas.

2) Reforma da previdência
Após reuniões e reuniões, em março de 2017, o presidente resolveu que manter os servidores estaduais na reforma da previdência seria invadir a competência dos estados. Além disso, também houve um recuo quanto ao cálculo da aposentadoria. A priori, a medida seria extinta, mas depois o governo manteve a fórmula de cálculo da aposentadoria pela média dos 80% maiores salários que o contribuinte recebeu ao longo da vida.

3) Exército nas ruas
Em maio deste ano, protestos contra o governo Temer e seu pacote de reformas aconteceram em Brasília. O presidente mandou o exército para as ruas para conter os manifestantes. No dia seguinte, após críticas da oposição, da base aliada e do judiciário recuou e revogou o decreto.

4) Afastamento de nomes do governo
Temer havia estabelecido uma linha de corte no governo após delações da empreiteira Odebrecht, prometendo o afastamento de integrantes do governo que fossem denunciados. No entanto, após as delações da JBS, Temer decidiu mudar essa política.

5) Imposto sobre combustíveis
Governo anunciou em julho, o aumento das alíquotas do PIS/Cofins dos combustíveis. Dias depois, reverteu o aumento, mas somente para o etanol. A alíquotas sobre gasolina e diesel foram mantidas.

6) Imposto de renda
Um dia depois de anunciar estudos sobre o aumento da alíquota sobre o imposto de renda, Temer anunciou que não haveria aumento e pediu aplausos da plateia. O governo recuou após a repercussão negativa entre os aliados em agosto deste ano.

Lembra de mais alguma outra ocasião em que o governo Michel Temer usou essa tática? Manda para gente.

***

GOVERNO TEMER COMPLETA UM ANO SEM NADA PARA COMEMORAR
João Filho, via The Intercept Brasil em 3/9/2017

Um ano após ter tomado definitivamente o poder com a ajuda do Congresso, Michel Temer e sua turma têm pouco a comemorar. São fracassos, recuos e vexames sucessivos em todas as áreas do governo. O balanço é desastroso. Trata-se de uma retumbante tragédia sob qualquer ponto de vista.

Até aqui, a grande marca do governo comandado por Michel Miguel Elias Temer Lulia é a forma camaleônica com que se relaciona com a sociedade. É austero com o povo, generoso com parlamentares e servil ao alto empresariado e ao mercado financeiro. Enquanto corta direitos das camadas da população que mais dependem do Estado, despeja rios de dinheiro sobre a Câmara e busca atender aos interesses do mercado através de reformas e vendas de estatais a preço de banana. Dessa forma, Temer tem garantido a blindagem contra às denúncias de corrupção que caem sobre sua cabeça.

Cortes no Bolsa Família e no Fies
Nada parece funcionar nesse governo. Boa parte das promessas feitas no início do mandato hoje soam como piada. Logo após a votação do impeachment na Câmara, em seu discurso de posse, Temer afirmou que “nenhuma das reformas alteraria os direitos adquiridos pelos cidadãos brasileiros”. Prometeu também, em letras garrafais para que ninguém duvidasse, que aprimoraria os programas sociais:

“Reafirmo, e o faço em letras garrafais: vamos manter os programas sociais. O Bolsa Família, o Pronatec, o Fies, o Prouni, o Minha Casa Minha Vida, entre outros, são projetos que deram certo, e, portanto, terão sua gestão aprimorada”.

Bem, nenhum desses programas foi aprimorado. Pelo contrário, eles foram dilacerados. O Bolsa Família sofreu o maior corte da história, justamente em um momento de crise econômica e desemprego. O Fies foi reduzido pela metade e os estudantes mais pobres agora estão sujeitos à análise de concessão de crédito de instituições financeiras privadas. No ano passado, o Minha Casa Minha Vida recebeu menos da metade do que recebeu em 2015 e, este ano, cumpriu até agora apenas 27% da meta, sendo que o atraso maior está na contratação dos imóveis de baixa renda. Esses são alguns dos muitos exemplos que refletem as prioridades deste governo.

Sem popularidade, sem legitimidade, mas com apoio maciço do Congresso e das elites, Temer decidiu colocar dos mais pobres a conta da crise econômica. Mas nem assim foi capaz de colocar a economia nos trilhos. O crescimento medíocre de 0.2%, baixíssimo para quem já não vinha crescendo nada, está entre os mais baixos do mundo no segundo trimestre deste ano. Só não é mais baixo que o aumento do PIB de Taiwan e Cingapura. Apesar de ter revertido uma sequência de 12 quedas, o tímido crescimento não mascara o desastre da política econômica, que deixará um rombo de R$159 bilhões para o próximo governo.

Nunca antes um presidente tão impopular
Temer bateu todos os recordes de rejeição e é o presidente mais mal avaliado da história do país. 93% do povo brasileiro está insatisfeito com o presidente. Não é de se estranhar. Foi eleito para ser vice-presidente de uma chapa de coalizão de centro-esquerda, mas tomou o poder com o objetivo de estancar a sangria e implantar o programa de centro-direita de Aécio Neves, derrotado nas eleições.

Temer também prometeu proteger a Lava-Jato:

“A moral pública será permanentemente buscada por meio dos instrumentos de controle e apuração de desvios. Nesse contexto, tomo a liberdade de dizer que a Lava-Jato tornou-se referência e como tal, deve ter proteção contra qualquer tentativa de enfraquecê-la”.

Essa talvez seja a melhor anedota de todas. Temer falou isso como se a gente não conhecesse o roteiro da trama revelado no áudio do Jucá. O presidente fez o diabo para sufocar a Lava-Jato. Houve troca de ministro da Justiça para tentar retomar influência na PF, redução da equipe da força-tarefa e um grande corte de verbas para a instituição.

Apesar dos esforços, a sangria não foi completamente estancada. Uma nova denúncia de Janot contra Temer está quentinha na boca do forno. Na semana de aniversário do golpe, novos elementos surgiram na investigação contra Temer por obstrução de justiça e formação de quadrilha. O ex-doleiro e operador de Cunha, Lúcio Funaro, revelou em delação que Joesley teria comprado o seu silêncio.

Janot pretende complementar essa nova informação com a delação de Joesley, que é sustentada pelo famoso áudio em que o empresário afirma que está pagando mensalmente a Cunha e o presidente responde que “tem que manter isso aí, viu”.

Assim, Janot acredita que pode confirmar definitivamente a tese de que Temer e Joesley pagaram para que Cunha e Funaro não revelassem mais nada sobre esquemas de corrupção que envolvem a cúpula do PMDB. Mas, convenhamos, sabemos que isso não dará em nada. O Grande Acordo Nacional se mostrou firme após o arquivamento da primeira denúncia de Janot pela Câmara.

Enquanto sua antecessora já coleciona 5 absolvições, Michel Temer entrará para a história como o único presidente denunciado criminalmente. O aniversário de um ano não poderia ser comemorado de forma mais emblemática. Temos o presidente na China, Shéridan no comando da reforma política, Rodrigo Maia presidente da República e Fufuquinha presidente da Câmara.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: