Escuta pegou conversa de Moro com o amigo advogado, mas diálogo nunca foi divulgado

Joaquim de Carvalho, via DCM em 31/8/2017

A denúncia do advogado Rodrigo Tacla Duran, antigo prestador de serviços da Odebrecht, de que um amigo de Moro tentou lhe vender facilidades na Lava-Jato desenterrou um passado incômodo para o juiz federal de Curitiba.

A relação de Moro com o advogado Carlos Zucolotto Jr. vai além da amizade. Além de ter dividido um escritório de advocacia com a mulher de Moro, Zucolotto figurou como advogado em um processo no qual Moro era parte – nesse caso, parte mesmo, já que ele foi alvo de escutas telefônicas clandestinas realizada pelo advogado e lobista Roberto Bertholdo.

O passado incômodo foi revelado em dois CDs entregues à jornalista Denise Mello, então na rádio BandNews de Curitiba. Ali estavam as transcrições das conversas de Moro. Bertholdo divulgou os registros da interceptação clandestina para se defender de um processo em que se encontrava preso, acusado de lavagem de dinheiro e tráfico de influência.

Na entrevista que concedeu à rádio, de dentro da cadeia, ele contou que o doleiro Alberto Youssef, solto por Moro num acordo de delação premiada em 2004, estava operando intensamente no mercado paralelo e, com a delação dele, outros doleiros haviam sido presos ou saíram do mercado. Youssef ficou praticamente sozinho no comando do submundo da lavagem de dinheiro.

Segundo Bertholdo, “a delação premiada concedida pela 2ª Vara Criminal Federal de Curitiba ao doleiro Alberto Youssef tem feito com que ele estabeleça um monopólio do câmbio no Brasil”, conforme registro da entrevista, feito pelo jornal O Estado do Paraná.

A Bandnews, propriedade do grupo J.Malucelli, cujo dono é hoje muito amigo de Moro, publicou a entrevista, mas não levou ao ar o conteúdo da interceptação telefônica.

Segundo Denise contou em depoimento à Justiça, a razão foi a origem clandestina das gravações. O depoimento dela foi relatado num processo que tramitou no Tribunal Regional Federal da 4ª Região:

“Denise arrematou, ainda, que, uma vez terminada a entrevista, relatou o ocorrido ao seu coordenador, Gladimir Nascimento. Após deliberarem em conjunto sobre o assunto, levando em conta que os áudios tinham sido obtidos de forma clandestina, resolveram não divulgá-los (sic), motivo pelo qual a entrevista em questão foi ao ar no dia seguinte, 15/3/2006, sem que fosse divulgado ao público o conteúdo das gravações ilícitas”.

Denise Mello já não trabalha mais na BandNews. Eu a localizei na Banda B, outra emissora de Curitiba.

Pouco antes de entrar no ar, ela falou comigo por telefone. “Lembro vagamente desta história”, contou. Você prestou depoimento à Justiça? “Não lembro, posso ter prestado”. Quando eu li o que a Justiça relatou sobre seu depoimento, ela disse que ocorreu, sim, o depoimento, mas que não havia registrado na memória em razão da falta de notoriedade do Moro à época.

“O Moro não era ainda o MORO, entende?”, afirmou. Houve alguma pressão do Malucelli para que as gravações da escuta não fossem divulgadas? “Não, de jeito nenhum. Foi uma decisão minha e do meu chefe na época, Gladimir”, respondeu, e em seguida disse que entraria no ar e que não poderia mais falar.

Em outra ação, apresentada como recurso perante o Superior Tribunal de Justiça, existe o registro de um depoimento de Moro prestado à força-tarefa do Ministério Público Federal na época, da qual fazia parte o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima. É relatado que, no grampo clandestino, há a gravação de uma conversa entre Moro e o advogado e amigo Zucolotto.

“[…] foram ouvidas as conversas referentes às fitas apreendidas e que constam nos autos, podendo o depoente reconhecer sua própria voz e diálogos mantidos com o Delegado de Polícia Federal Paulo Roberto Falcão, com o procurador da República Vladimir Aras, com a Desembargadora Maria de Fátima Labarrère, com o Promotor de Justiça do Estado do Paraná Cruz (de Maringá), com um amigo de nome Carlos Zucolotto, com familiares (filha e esposa) e, segundo lhe parece, também uma conversa com o DPF Luiz Pontel “(fls. 11/12 do Apenso I, volume I).
Apenas a partir desse instante (da obtenção dessa prova) é que o Magistrado pôde ser considerado vítima do delito estando, assim, impedido para o julgamento do feito. O MP, na mesma data da oitiva do Julgador, ingressou com a respectiva Exceção (fls. 281/284, do apenso V, volume II). Em 29.08.05, Sérgio Moro acolheu o pleito, dando-se como impedido (fl. 285 do apenso V, volume II)”.

O juiz Sérgio Moro se mobilizou para que Roberto Bertholdo fosse condenado por crimes contra a honra. Sua mulher e o amigo Zucolotto atuaram no processo em que o advogado e lobista pretendia que fosse aceita exceção da verdade – isto é, quando a alegada injúria ou difamação são decorrentes de fatos ocorridos efetivamente.

O expediente da exceção da verdade não foi aceito, e as fitas foram colocadas sob segredo de justiça e jamais divulgadas, o que é correto.

Grampos ilegais atentam contra o direito à intimidade e à privacidade, princípio que o juiz Moro, onze anos depois, não respeitaria, ao divulgar conversas privadas e de autoridades com foro por prerrogativa de função ao Jornal Nacional, da TV Globo.

O que faria Moro de 2006 se julgasse Moro de 2016, quando as conversas da presidente Dilma, de ministros e dona Marisa Letícia foram expostas como gasolina atirada a uma fogueira que ardia em praça pública?

***

DENÚNCIA GRAVE ENVOLVE SÉRGIO MORO EM NEGOCIATAS
Via PT na Câmara em 30/8/2017

Em discurso na tribuna da Câmara, na quarta-feira, dia 30/8, o vice-líder da Bancada do PT na Câmara, deputado Wadih Damous (PT/RJ) alertou para a gravidade de denúncia veiculada na coluna da jornalista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo. A matéria revela “negociações” paralelas entre integrantes da força-tarefa da Lava-Jato com o doleiro e advogado Rodrigo Tacla Duran, que é investigado na operação comandada por Sérgio Moro.

Segundo o deputado, a colunista descreve que Tacla Duran procurou o advogado trabalhista Carlos Zucolotto, em Curitiba. Em diálogo gravado pelo doleiro com Carlos Zucolotto, este diz que “não pode aparecer e que seus honorários têm que ser pagos por fora, porque ele tem acertos a fazer com as pessoas que cuidam da Operação Lava-Jato”, destacou o deputado. Zucolloto é amigo e padrinho de casamento do juiz Sérgio Moro.

“Isso é de suma gravidade. E mais, extrai-se da matéria que o senhor Carlos Zucolotto, à época dos fatos narrados, era sócio da dra. Rosângela Moro, o sobrenome já diz que essa senhora vem a ser esposa do juiz Sérgio Moro, condutor da Lava-Jato”, revelou o deputado.

Tão grave quanto esse fato, destacou Damous, é o fato de a matéria revelar também que Carlos Zucolotto era advogado em uma ação que está em curso no Superior Tribunal de Justiça, em grau de recurso especial, do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima. Segundo o petista, esse procurador é um dos coordenadores da Operação Lava-Jato. “Isso é gravíssimo! “, alegou.

De acordo com Wadih Damous, o próprio procurador Carlos Fernando dos Santos Lima já declarou, em ocasião passada, que a delação, de fato, é um mercado em que se investe. “Então, fico me perguntando se se investe em busca da verdade, se se investe de fato em busca do combate à corrupção. Eu começo a acreditar que não, mas esses fatos não podem ficar sem esclarecimento”, argumentou.

Destacou ainda o deputado trecho expresso dito por Carlos Zucolloto: “Não quero aparecer e quero receber por fora, porque eu tenho de acertar essa negociação lá no interior da Operação Lava-Jato”.

Ainda estupefato com o conteúdo das denúncias estampadas no jornal, o deputado Wadih Damous extrai da matéria da Folha a frase do delator Tacla Duran, que sustenta a afirmação de Zucolloto. “Carlos Zucolotto então iniciou uma negociação paralela, entrando por um caminho que jamais imaginei que seguiria e que não apenas colocou o Juiz Sérgio Moro na incômoda situação de ficar impedido de julgar e deliberar sobre o meu caso, como também expôs os procuradores da força-tarefa de Curitiba”, diz Tacla Duran, que ainda afirma ter documentos que comprovariam as “negociações”.

Para Wadih Damous, o Congresso Nacional, particularmente a Câmara dos Deputados, não pode ficar alheio a essa denúncia. “Isso tem que ser investigado. Por muito menos Sérgio Moro botou atrás das grades, prendeu preventivamente centenas de pessoas. Se fosse usado o mesmo critério para Moro, hoje quem estaria atrás das grades seria ele e os procuradores”, concluiu Damous.

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