Fernando Horta: O futebol gaúcho e o STF

Fernando Horta em 29/8/2017

No Rio Grande do Sul, futebol é coisa séria. Não é como no Rio de Janeiro que o pessoal fica jogando “altinha” na praia ou em São Paulo onde tem umas quadras em que se joga “soçaiti”. No Sul, qualquer pelada é para sair sangue.

Quanto mais no interior então, mais deixa cicatriz. Contam que lá pras bandas de Bagé tinha uma dupla de zaga imbatível chamada “Garfo e Faca”. Não vi jogar, mas imagino o que seja a dupla pra que tenha sido chamada de “Garfo e Faca”. O afinamento. A técnica.

Temos expressões muito nossas como, por exemplo, a afirmação que “do pescoço pra baixo é canela”. Evidenciando o fino trato com que nos aproximamos do esporte bretão. Esta história de que o goleiro é “intocável dentro da pequena área” é uma lorota que contamos para os filhos mais pequenos. Ele é intocável em casa, embaixo da cama e com a mãe protegendo a porta. Mãe é intocável.

A coisa é tão séria aqui no Rio Grande do Sul, que volante chama “cabeça de área”… e é a posição mais importante do time. O 5 é o nosso 10. Um bom cabeça de área é aquele que, se fizerem uma “altinha” na frente dele, é obrigação da função devolver uma fratura de tíbia. E depois ir visitar o colega no hospital para demonstrar o “fairplay”.

Pois contam que nos idos de 1950, houve uma partida pelo campeonato gaúcho entre dois times da cidade de Bagé. O Guarany e o Bagé. Campeonato gaúcho é aquele que a torcida reconhece que foi um bom jogo quando nenhum dos times termina o jogo com 11 em campo. Voltando à partida, marcada para o final da tarde, estádio lotado e nada do policiamento aparecer.

No horário marcado o juiz concedeu mais 15 minutos para o início, esperando o policiamento. E nada. Aí ou começava o jogo ou era morto pela torcida que tinha comprado ingresso. O juiz começou o entrevero e com 3 minutos de jogo o atacante do Bagé entra na área, dribla um zagueiro e sem se dar conta leva uma pernada do goleiro na altura do supercílio. Quase desmaiou, saiu sangue… tudo o que encanta a torcida do Sul. A bem da verdade, ninguém se deu conta que a bola tinha seguido e quase entrara no gol, sendo segura por um gandula que parou a pelota em cima da linha. Gandula joga no Sul. Somos muito inclusivos.

Todos no aguardo da marcação do juiz. Depois de estancarem o sangue do atacante antes de ele precisar de uma transfusão, os jogadores já tinham se estapeado e cuspido uns nos outros, mas tudo dentro da civilidade gaudéria. Não houve excessos.

A torcida se comportava como lordes ingleses. No momento da pernada ouviu-se um “óóóó” em todo o estádio, e algumas facas foram puxadas dos dois lados, mas não foram usadas.

Os olhos focados no juizão. Competente, firme. Tinha uma reputação digna para apitar um jogo como aquele. Com o jogador de novo em pé, embora muito tonto, o jogo prestes a recomeçar e o juiz dá a bola para a defesa sem marcar nada. E corre para o centro mandando o jogo continuar. Jogadores e torcidas ficaram atônitos, mas o momento do início do jogo requeria atenção. Ninguém resolveu parar o espetáculo que tinha começado tão bem – com promessa de mais sangue e talvez até fraturas – para reclamar de uma desimportante tecnicalidade.

Por volta dos 15 de jogo, descontado o tempo de parada pelo incidente inicial, a valorosa Brigada Militar chega ao estádio. O juiz acompanhou com canto de olho a entrada da Brigada. Contou o número de policiais enquanto mantinha a bola andando.

Aos 20, o zagueiro do Bagé resolve sair jogando de sua área e quando cruza o círculo central sofre leve carga por trás (com pisão no tendão-de-aquiles e achatamento da tróclea do calcâneo, não seja tímido e vá ao Google), coisa que nem se marca falta. Para surpresa geral, o juiz apita, dá cartão amarelo para o jogador do Guarany e aponta a marca do pênalti! Quando ocorre o ensaio de reclamação do Guarany (com o técnico e o massagista entrando em campo e dando voadora na arbitragem) o juiz aponta para a marca do pênalti e diz “por aquela lá no início, marquei por aquela lá no início”.

As facas foram de novo desembainhadas nas torcidas. A coisa ficou muito séria, teve até olho vazado, mas a Brigada tava lá para evitar mortes. Quem descia da arquibancada estava salvo, vamos dizer assim. Ficando lá em cima, você assumia o risco e as glórias da pancadaria.

A verdade é que o juiz, após certificar-se que sairia vivo da partida, resolveu fazer justiça e marcou o pênalti que havia ocorrido nos primeiros minutos. Creio que esta história representa bem o atual STF. Vão votar o mérito do impeachment em 2026, depois que o policiamento chegar.

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