Luis Fernando Verissimo: Donald Trump e a tolerância

Pior do que os jovens encenando os seus rituais macabros são os políticos que os apoiam velada ou abertamente, como Donald Trump.

Luis Fernando Verissimo em 20/8/2017

Ironia. Os pais da pátria norte-americana inventaram o colégio eleitoral para evitar que algum demagogo ou incapaz chegasse à Presidência da nova República pelo voto popular. Isto é, imitaram o modelo político greco-romano de governo por uma casta, que pode ser chamado de democracia, mas não demais, confiando que isto impediria a eleição de algum Trump. E foi o colégio eleitoral que elegeu o demagogo e, sabe-se agora, incapaz Trump, com menos votos populares do que a Hillary.

Discute-se agora, nos Estados Unidos, o fim do colégio eleitoral para tornar as eleições mais democráticas. Mas uma discussão sobre democracia mais consequente, pois é uma questão mundial, é a dos limites da liberdade de expressão em sociedades ameaçadas por manifestações fascistas cada vez mais frequentes. Jovens carregando tochas e gritando slogans antissemitas, como em Charlottesville, estão exercendo a liberdade de reunião e opinião asseguradas numa democracia, por mais repelente que ela seja, ou nenhuma democracia pode tolerar a pregação aberta de ideias tóxicas sem combatê-las como se combate qualquer outro tipo de epidemia mortal?

Manifestações fascistas não nascem de patologias individuais ou do nada. O fascismo tem uma história, um prontuário de crimes, um catálogo de horrores. A juventude dos que participam de marchas neonazistas não os desculpa, eles optaram conscientemente por um movimento que não esconde sua truculência e tem um passado notório. Pior do que os jovens encenando seus rituais macabros são os políticos que os apoiam velada ou abertamente, como Trump, e os teóricos da superioridade racial que não saem à rua.

Resta a questão dos limites da liberdade de expressão em países em que a onda fascista sobe e testa a tolerância democrática. Talvez o debate deva ser entre, de um lado, a tese de que as democracias se fortalecem quanto maior a tolerância exigida delas, e, de outro, a tese de que a democracia deve ser tolerante, sim, mas até o limite do suicídio.

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