A relação carnal entre governo Temer e emissoras de TV

João Filho, via The Intercept Brasil em 20/8/2017

O mercado delirou quando Michel Temer anunciou sua equipe econômica logo após a tomada da presidência da República. Um economista da Goldman Sachs chegou a dizer que estava sendo montando “um verdadeiro dream team de gente muito qualificada e com experiência muito relevante e rica”.

Miriam Leitão, colunista global e fã número 1 do dream team, dizia que este era o ponto forte do governo e não se cansou de elogiar as estrelas que comandariam a economia brasileira. Fernando Henrique Cardoso comemorava o fato de que finalmente tínhamos “um governo que tenta pôr a casa em ordem”.

Michel Temer também passou boa parte do governo jogando com a carta da economia em declarações públicas. Para tirar o foco da lama na qual patina, dizia à exaustão ter responsabilidade com a economia do país, chegando ao cúmulo de anunciar o fim da recessão.

Pois bem. Henrique Meirelles, o capitão do dream team, anunciou essa semana um rombo de R$159 bilhões nas contas públicas para 2017 e 2018. O sonho virou pesadelo. Miriam Leitão parece que ficou bastante decepcionada e admitiu que Temer pode “entregar ao país um número muito pior do que o pior momento do governo Dilma”. Um espanto!

Para compensar o rombo, o governo intensificará ainda mais seus esforços na aprovação da reforma da Previdência. A coluna Painel da Folha informou na última quarta-feira que Temer tem se reunido com emissoras de TV para pedir apoio, como se preciso fosse:

Este dream team midiático está alinhadíssimo ao governo, principalmente no que diz respeito às reformas, estamos carecas de saber. Já não nos escandalizamos com o fato de concessões públicas estarem sendo utilizadas para defender interesses privados e sufocar qualquer debate sobre a reforma da Previdência, um tema de grande importância para o futuro do país.

Por essa pauta em comum, até a Globo voltou a se reunir com Temer. A empresa parece ter se conformado com a derrota no braço de ferro depois do arquivamento da denúncia contra o presidente na Câmara.

Essa agenda não é novidade. Encontros do governo com representantes de grandes grupos de mídia só não são mais frequentes que as reuniões entre Temer e Gilmar Mendes fora da agenda.

Em 2015, durante o governo Dilma, as emissoras tiveram cortes drásticos no recebimento de verbas publicitárias. No total, foram cortados R$591,5 milhões, uma queda de 34% em relação a 2014. A TV Globo foi a que mais sofreu, perdendo R$206,3 milhões em propagandas. O SBT foi a segunda emissora mais prejudicada, passando de R$172,7 milhões em 2014 para R$115,4 milhões em 2015, uma queda de 33%.

Desde o início do seu governo, Temer vem mantendo uma relação frutífera com grandes grupos de mídia, especialmente os detentores de emissoras de TV, que ainda são a principal fonte de informação dos brasileiros. A seguir, tentarei traçar um resumo histórico, levantando os principais episódios dessa relação que parece mais uma parceria público-privada.

Junho 2016 – logo no primeiro mês de governo, Temer aumentou em 50% os gastos em publicidade em relação ao mesmo mês do ano anterior. Esse aumento se refere a todos os tipos de mídia, não apenas às emissoras de TV.

Dezembro 2016 – quando se iniciava especulação sobre sua queda, Temer convidou João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo, para um jantar no Palácio do Jaburu e se queixou do tom negativo do noticiário na cobertura da Lava-Jato. “Eles noticiam caixa 2 como se fosse homícidio”, teria dito um integrante do Planalto.

Março 2017 – Temer sanciona sem quase nenhum veto a MP 747, que, apesar de ser apresentada como medida desburocratizadora, na prática confere ainda mais liberdade aos grandes empresários de rádio e TV. Ela confere anistia nos prazos de renovação de outorgas, libera a troca dos proprietários sem a necessidade de autorização do governo, e exclui do texto da lei a necessidade de cumprimento de “obrigações legais e contratuais” e o atendimento “ao interesse público”. A medida foi comemorada pela Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV) – presidida por Paulo Tonet, executivo da Globo – como a “maior vitória dos últimos 50 anos”.

Temer e Kassab são aplaudidos por Paulo Tonet, presidente da Abert e executivo da Globo, durante cerimônia da lei que beneficiou os grandes empresários de mídia. Foto: Beto Barata/PR.

Abril 2017 – enquanto anuncia cortes que prejudicam os mais pobres, Temer vira Sílvio Santos e passa a jogar dinheiro para o alto perguntando para os empresários de mídia “quem quer dinheiro?”. Todos os veículos de comunicação que aderiram à campanha a favor da reforma da Previdência ganharam verbas de publicidade. Locutores e apresentadores populares foram recrutados para explicar a reforma sob um olhar governista. Os agraciados pelas verbas foram indicados por deputados e senadores.

– Temer se encontra com Sílvio Santos. No dia seguinte, o SBT passa a veicular mensagens aterrorizando a população sobre a urgência da reforma. Outro apresentador popular da emissora, Ratinho, inicia intensa campanha pelas mudanças propostas por Temer para a Previdência.

Maio 2017 – logo após a Globo pedir expressamente a renúncia de Temer em editorial, Moreira Franco se reuniu com João Roberto Marinho na tentativa de acertar uma trégua, mas não obteve sucesso.

– a TV Band, que teve 1.129% de aumento no recebimento de verbas publicitárias, publicou um editorial vergonhosamente chapa-branca logo após a divulgação dos áudios das conversas entre Temer e Joesley: “o Brasil continua precisando seguir o seu rumo – finalmente claro e eficiente – adotado pelo atual governo, depois de anos de insensatez. O país quer seguir adiante e não abre mão de persistir na recuperação já iniciada da economia e dos empregos. Esclarecidas todas as dúvidas, a Band espera e acredita que possa o presidente Temer dar sequência às medidas que, de fato, atendam os interesses dos brasileiros”.

Junho 2017 – Grampos mostraram Aécio Neves e Moreira Franco negociando com alto executivo da Record uma entrevista com Temer em troca de um patrocínio da Caixa. Tudo feito com a anuência do presidente.

Julho 2017 – Diferente do que ocorreu no dia da votação pelo impeachment de Dilma na Câmara, nenhuma emissora além da Globo transmitiu a votação em que foi arquivada a denúncia contra Temer.

Regada por jantares, telefonemas, MPs, editoriais, verbas publicitárias e algumas rusgas, a relação de Temer com a grande mídia é carnal e compromete a liberdade de imprensa. Aproveitando a atual promiscuidade das instituições brasileiras, talvez seja o caso de oficializar as grandes empresas de mídia como o quarto poder, que não terá nada de moderador.

Me parece que essa nova rodada de reuniões com diretores das emissoras noticiada pela Folha é apenas para fidelizar o relacionamento e traçar novas estratégias para a aprovação de uma reforma que não será fácil. É uma reunião apenas para “manter isso aí, viu?”

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