Raquel Dodge é distração articulada na suspensão do acordo de Eduardo Cunha

Há sentido na responsabilização da futura procuradora-geral pelo fracasso do acordo de Eduardo Cunha, sendo este gesto proposital ou não, articulado com os donos do poder ou não?

Patricia Faermann, via Jornal GGN em 16/8/2017

Mesmo sem ter assumido ou tomado qualquer decisão no posto maior do Ministério Público Federal (MPF), membros da Operação Lava-Jato responsabilizam a futura procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pelo fracasso da delação premiada do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) e pela atual suspensão do acordo. E grandes jornais que os têm como fontes endossam o coro.

Eduardo Cunha estava negociando há quase dois meses o acordo de delação premiada com os procuradores da República da Lava-Jato em Brasília. A força-tarefa acabou perdendo a paciência com o peemedebista, pelas informações “inconsistentes e omissas” que o político entregou.

O ex-parlamentar teria feito, até agora, acusações genéricas e entregado poucos documentos que sustentassem suas declarações. Diante disso, os investigadores decidiram suspender o acordo. A informação foi divulgada na terça-feira, dia 15/8, pelo Valor.

A informação de que Cunha teria propositalmente apresentado um acordo fraco aos procuradores teria partido de “um interlocutor do ex-deputado”. Mas foram “fontes” de O Globo que confirmaram que a suposta intenção do político era ter sua negociação rejeitada intencionalmente pela atual equipe de investigadores e que seu caso fosse reassumido sob o comando da nova procuradora, a partir de setembro, Raquel Dodge.

A tese desenhada pela imprensa com base nestas fontes foi além: “A ideia dele seria esperar a posse da futura procuradora-geral Raquel Dodge e, a partir daí, buscar um acordo mais favorável, com menos revelações comprometedoras e mais benefícios”, divulgou o Valor, segundo o tal interlocutor de Cunha.

“Com isso ele poderia poupar os aliados com quem mantinha contato com mais frequência, entre eles Temer e o ex-ministro Henrique Eduardo Alves”, acrescentou O Globo.

E os verbos condicionais seguem: “Cunha também estaria apostando numa inversão de expectativas no Supremo Tribunal Federal (STF) a partir da troca de papéis entre Janot e Raquel Dodge. Com Janot fora de cena, ele acredita que seria mais fácil obter um habeas corpus no STF para deixar a prisão em Curitiba”.

Desde as revelações dos executivos da JBS, de que Eduardo Cunha, mesmo preso, mantinha influência e poder de decisão sobre os passos do Executivo e do Legislativo e que, por isso, teve seu silêncio comprado por Joesley Batista, com o consentimento de Michel Temer. A estratégia de Eduardo Cunha nunca foi a de se entregar por completo.

A falta de informações e ter mantido o silêncio até agora não foram decisões alheias do ex-presidente da Câmara dos Deputados, o encabeçador da queda de Dilma Rousseff. Tais gestos foram calculados precisamente, como se revelou posteriormente com as acusações dos irmãos Batista.

Neste contexto, não seria estranho um recuo de Eduardo Cunha nas fortes acusações que detêm contra Michel Temer e boa parte dos políticos do Congresso e da cúpula de governo atuante, após a Câmara ter engavetado a denúncia do atual procurador-geral Rodrigo Janot contra o presidente. Se tais medidas foram tomadas sob a compra de silêncio ou qualquer sinalização de estratégia política, os próximos meses ou anos irão revelar.

Entretanto, outra estratégia é a de responsabilizar a subprocuradora Raquel Dodge, que ainda não assumiu o posto da Procuradoria Geral da República e já vem sendo alvo de fortes críticas e apontamentos antecipados de que mudaria os rumos da Operação Lava-Jato, sem qualquer comprovação.

Preso desde 20 de outubro de 2016, um dos principais articuladores da atual configuração de poder, com Michel Temer no Planalto, Cunha teria muito a dizer e a entregar, o que, simultaneamente, envolve influências, caciques e jogos na mesa. A futura procuradora-geral Raquel Dodge é a distração precisa para estratégias de poder serem finalizadas nos bastidores.

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