Fernando Horta: Somos de fato tão bestiais?

Fernando Horta, via Jornal GGN em 21/8/2017

Somos a primeira geração desde o Gênesis a ter o poder de acabar com toda a vida na Terra. Terminada a Guerra Fria, a promessa de um mundo que se desenvolveria economicamente saciando as necessidades materiais da humanidade, simplesmente não aconteceu. Da mesma forma, a promessa que, com o fim da URSS, teríamos a “diminuição das tensões” no mundo e que caminharíamos para a paz, tampouco se concretizou. As guerras e conflitos armados mataram mais gente desde o fim da União Soviética do que nos últimos 20 anos da Guerra Fria. Na prática, temos um mundo mais desigual, mais violento, onde continuam a existir a fome, as guerras, doenças cada vez mais mortais e o ódio vem crescendo a tal ponto que o fascismo já é realidade. Se os acontecimentos na Ucrânia, desde 2014, não foram suficientes para fazer o mundo acordar, se a ultradireita europeia e latino-americana também não tinha feito as sociedades se darem conta do perigo, Charlottesville foi eloquente.

A URSS se consolidou essencialmente com dois argumentos: prometendo acabar com o nazifascismo e criando uma sociedade mais igualitária em termos econômicos, políticos e sociais. A verdade é que o primeiro argumento foi cumprido e, comparando-se o mundo dos anos 70 e 80 com o século 21 somos forçados a reconhecer que a existência da URSS criava sim um mundo menos desigual. Mesmo que se discuta os méritos do projeto soviético, a existência de uma força de contraponto e controle ao capitalismo foi eficaz. Deixado à própria sorte, o capitalismo ameaça destruir o planeta e a humanidade de diversas formas, desde inviabilizando o ecossistema, até matando a população de fome ou fazendo-a se matar em guerras fratricida. E não falei do uso de produtos químicos nocivos, dos controles anti-ecossistêmicos de sementes para produção agrícola, dos antibióticos e da radiação, como bem avisou Fukushima. Todo este pesadelo, frise-se, surgiu em menos de trinta anos desde a promessa de que extirpado o mal encarnado (a URSS) o mundo seria um local maravilhoso.

Promessa semelhante foi feita recentemente aos brasileiros. Afastando-se a “ameaça comunista”, ou qualquer coisa minimamente próxima a um Estado de Bem-Estar Social, o Brasil seria uma locomotiva em direção ao desenvolvimento, bem-estar e justiça. Empresários diziam que era só tirar Dilma que o país decolava. Promotores prometiam que o afastamento do PT do governo era necessário para diminuir a corrupção. “Analistas” de grandes jornais e televisões apareciam todos os dias afirmando que a retirada daquele governo daria lugar a um novo em que a polarização política seria debelada. A luta de classes, diziam alguns lunáticos, era uma criação do PT de Lula.

Passados mais de ano e meio do novo governo, a crise se aprofunda, o desemprego aumenta, a renda diminui e até o déficit – vejam só – motivo alegado para a retirada da presidente eleita, aumenta a níveis históricos. De quebra, somos o país que mais mata e agride mulheres no mundo (e este dado aumentou em mais de 20% desde 2014), crimes e violência contra homossexuais e transgêneros dispararam e os conflitos no campo e nas cidades também aumentaram muito.

O “culpado” pela polarização do Brasil – segundo alguns mal-intencionados – viaja no meio do povo, de peito aberto e de ônibus. Aquele que dizia-se fomentava o ódio é ovacionado, enquanto aqueles “homens bons” que lutavam “por um Brasil melhor” passam a usar cada vez mais palavras agressivas, fazendo juras de punições, tormentos e agressões. Neste e no outro mundo. A corrupção se internalizou e se oficializou de uma forma tão rápida quem nem ministros mais sentem pudor de defender os seus apadrinhados. A presidente do STF declara, sem medo do ridículo, que vai se reunir com Aécio, Temer e Maia para “discutir como combater a corrupção”. A única forma da ministra fazer isto é dar voz de prisão a os seus convidados no instante em que entrarem na sala.

Comecei este texto com uma comparação com o mundo. A promessa de que tudo melhoraria com o fim do socialismo real nunca se confirmou. O capitalismo entrega um mundo em que os ricos ficam mais ricos e mais pobres morrem de fome. Entrega um planeta com conflitos abertos em 4 continentes e quase em processo definitivo de destruição dos seus sistemas ecológicos. No modelo “do capitalismo que deu certo”, os EUA, especialistas já demonstram que o país regrediu a níveis de desenvolvimento de países semi-industrializados. A concentração de renda atingiu níveis anteriores à segunda guerra mundial, o déficit interno cresce sem comparação histórica e três em cada dez crianças passam fome ou dependem de auxílio do Estado para sobreviver.

Os mesmos efeitos aconteceram no Brasil, depois também da mesma promessa. A culpa é dos vermelhos, do coletivismo, do Estado e da política, gritavam histéricas ignorâncias em uníssono com trêfegos bilionários. No nosso microcosmo, os resultados são idênticos aos mundiais: concentração de renda, desemprego, destruição, recessão e ódio. O governo Temer dá todas as condições materiais e institucionais para que os ovos da serpente sejam chocados. Não é novidade alguma que num sistema de crise econômica, corrupção institucionalizada, desrespeito às leis e às instituições o discurso de ódio seja a resposta. A incapacitação dos nossos controles sociais, das nossas políticas educacionais e de inclusão vai levar ao colapso não só da democracia como também da ideia de república.

Não é possível que repetiremos os mesmos erros do período entre-guerras (1918-1939). Mas não será surpresa que, se o fizermos, encontraremos as mesmas bestas renascidas. Se o capitalismo é o que de melhor a raça humana tem a oferecer a si e ao planeta, então há que se voltar a acreditar em fantasmas e espectros. E pedir que eles voltem a rondar não só a Europa, mas o mundo todo.

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