Como a Lava-Jato de Curitiba apura propina do PSDB

A República de Curitiba não demonstra interesse em descobrir quem poderia ter operado o repasse de R$10 milhões em propina ao PSDB, negociados com a Queiroz Galvão.

Cíntia Alves, via Jornal GGN em 18/8/2017

A história de que o PSDB recebeu, a pedido de Sérgio Guerra, R$10 milhões de propina para atrapalhar a CPI da Petrobras, em 2009, é questão secundária para a Lava-Jato de Curitiba. É o que indicam os vídeos da audiência feita com uma das principais testemunhas do caso, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. Ele revelou em delação que o pagamento foi efetuado ao ex-presidente tucano, ao menos parcialmente, pela Queiroz Galvão. Com os vídeos é possível constatar que nem Sérgio Moro e nem os procuradores liderados por Deltan Dallagnol arrancaram detalhes da trama.

A propina ao PSDB solicitada pelo então senador Sérgio Guerra, morto em 2014, teria sido debitada da cota do PP no esquema de corrupção na Petrobras. Paulo Roberto Costa afirmou, em delação premiada, que o pagamento foi efetuado e que o fato teria sido confirmado pelo ex-presidente da Queiroz Galvão, Ildefonso Colares. Este último, ao lado do ex-executivo da empreiteira, Othon Zanoide, são os principais réus dessa ação penal que tramita na Vara de Moro.

Ocorre que, sob Moro, também está em curso outro processo contra os mesmos réus da Queiroz Galvão, sobre as propinas que a empreiteira pagou a ex-diretores da Petrobras por conta de contratos com a estatal.

O juiz aproveitou que “existem partes em comum” nos dois processos para determinar que a audiência de Paulo Roberto Costa e outras testemunhas – incluindo Alberto Youssef, que também repercutiu em delação informações contra o PSDB – fossem feitas em “conjunto”. Dessa forma, Moro, que gosta de ver publicados os vídeos de julgamentos da Lava-Jato, conseguiu diluir as perguntas referentes à corrupção do PSDB em vários outros assuntos, misturando a produção de provas das duas ações penais.

Perguntas nada incisivas
Não que eventual interesse em esmiuçar os casos de corrupção envolvendo o PSDB fosse a força motriz da Lava-Jato. Ao contrário disso. Como já mostrou o GGN em outras oportunidades, há relatos de que membros da força-tarefa deram de ombros diante de informações que poderiam ajudar a operação a sustentar uma pretensa isonomia no tratamento dados aos partidos envolvidos com esquema ilícitos. O episódio de Eike Batista, que tentou entregar uma lista de doações oficiais e caixa 2 ao PSDB e outras legendas, é um dos mais emblemáticos. (Leia mais aqui)

Quanto ao processo que envolve a propina de R$10 milhões ao PSDB, o que se vê no vídeo abaixo (a partir dos 13 minutos) é o juiz Sérgio Moro endereçando apenas três perguntas sobre o assunto a Paulo Roberto Costa.

O magistrado quis saber se (1) desde a primeira reunião entre Sérgio Guerra, Queiroz Galvão e Costa, o objetivo era falar da propina para enterrar a CPI; (2) por que ocorreram três reuniões para isso e (3) o que tinha a ver a Galvão Engenharia, cujo um ex-executivo estava presença em um dos encontros, se a tese é de que a Queiroz Galvão foi a única empresa convocada para distribuir recursos a políticos para acabar com a CPI.

Paulo Roberto Costa reafirmou ao magistrado que em 2009 ocorreram três reuniões que tiveram como pauta, desde o início, tratar de um “suporte ao senador” do PSDB. Na primeira, falaram dos recursos necessários e qual seria o retorno das empresas; na segunda, definiram qual empresa faria o pagamento e, na terceira, ocorreram apenas “agradecimentos”.

Um dos eventos – o delator não lembra qual – foi registrado por uma Câmara de segurança e a imagem consta no inquérito que deu origem à ação penal. Nela, é possível ver que além de Paulo Roberto, Ildefonso Colares e Sérgio Guerra, participaram do encontro o então deputado do PP Eduardo da Fonte, Erton Medeiros, da Galvão Engenharia, e o operador Fernando Baiano.

Antes de Moro fazer perguntas, o Ministério Público Federal indagou se Paulo Roberto Costa sabia como o PSDB recebeu os recursos e entre quem eles seriam distribuídos. O delator negou possuir detalhes e ainda acrescentou que se a Queiroz Galvão dividiu a despesa com outras empresas alvos da CPI, era algo a ser apurado. “A CPI era de interesse de todas, não sei porque escolheram só a Queiroz Galvão”.

Como o processo tramita na primeira instância, ainda que soubesse quem foram os políticos beneficiados pelos R$10 milhões, Paulo Roberto Costa poderia declinar de dizer os nomes na gravação e, provavelmente, a denúncia teria sido ofertada ao Supremo, e não a Sérgio Moro.

Fato é que, mesmo tramitando onde tramita, caberia aos procuradores ou ao juiz alguma curiosidade sobre quem teria sido o operador que ajudou o PSDB a receber os recursos da Queiroz Galvão. Nenhuma pergunta foi feita nesse sentido.

Uma resposta to “Como a Lava-Jato de Curitiba apura propina do PSDB”

  1. Marco Sousa Says:

    Do cinismo à corrupção INSTITUCIONAL mais descarada…, a justiça brasileira em seu nível máximo de degradação…

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