Negando obstruir Lava-Jato, governo Temer corta recursos da PF

Via Jornal GGN em 28/7/2017

A nomeação de Torquato Jardim para o Ministério da Justiça, no dia 28 de maio deste ano, pleno ápice da maior crise do governo de Michel Temer, foi considerada pelos próprios investigadores uma tentativa de respostas e até freios à Operação Lava-Jato. Exatos dois meses depois, o ministro anuncia que a “falta de dinheiro” poderá afetar Operações da Polícia Federal, órgão de investigação subordinado à pasta.

Assim que assumiu, Torquato Jardim mostrava a intenção de modificar o comando da Polícia Federal, com a retirada do diretor. Ele admitiu, no final de junho, o objetivo, mas mudou de ideia com as especulações sobre a interferência do Executivo na PF. Decidiu manter o delegado Leandro Daiello na direção.

“O Ministério da Justiça e a Polícia Federal fazem questão de expressar à sociedade brasileira a sua absoluta harmonia na condução das duas instituições. O noticiário que está aí é, para usar um termo moderno, a pós-verdade. Não corresponde à realidade, não constrói afabilidade e não ajuda a boa condução dos interesses públicos”, disse o ministro, em coletiva, após as informações.

Mas a substituição de Osmar Serraglio, ex-ministro de Temer na Justiça, foi motivada por pressões de diversos aliados políticos e o próprio presidente Michel Temer da suposta falta de controle do então ministro junto à PF.

O gesto foi interpretado pelo próprio procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como tentativa de influência. Na denúncia contra o senador Aécio Neves (PSDB/MG), que foi também alvo das acusações da JBS e dos executivos delatores e, inicialmente, a investigação caminhava em conjunto com a peça contra Temer, Janot mencionou a troca de comando do Ministério da Justiça como forma de obstruir a Operação Lava-Jato.

Isso porque a saída de Serraglio e a substituição por Torquato ocorre em pleno domingo, materializando a sequência de uma estratégia já deflagrada nos grampos envolvendo Temer: a intenção de substituir o diretor-geral da Polícia Federal, gesto claro de guerra aberta do governo contra as investigações.

“Após a deflagração da Operação Patmos em 18 de maio de 2017 e a revelação do envolvimento do próprio presidente da República, Michel Temer, em supostos atos criminosos, a pressão do senador Aécio Neves e outros investigados intensificou-se, e Osmar Serraglio foi efetivamente substituído no Ministério da Justiça por Torquato Jardim”, disse Janot, em trecho da peça contra Aécio.

O procurador também mencionou na denúncia o relato das gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com caciques do PMDB, em que negociavam a chamada “solução Temer”, como forma de barrar a Operação Lava-Jato. Machado conversou com os parlamentares no último ano, articulando “estancar a sangria” da Lava-Jato, gravou os diálogos e, em seguida, após entrar para a mira dos investigadores, entregou as mídias como provas.

Dois meses após Torquato comandar o Ministério da Justiça e, após o noticiário dar conta da estratégia já desenhada e mostrada nos grampos do governo Temer, não trocar o comando da PF, o ministro anuncia mais um corte de recursos para o órgão de investigação e assume, de forma generalizada, que Operações podem não ser concluídas pela falta de dinheiro.

“Tenho que ser honesto, sincero e transparente. Poderá implicar processos seletivos de ações, não realizar todas as operações ou não realizar em suas extensões totais, mas apenas parcialmente”, afirmou nesta semana, anunciando um contingenciamento de R$400 milhões.

A própria PF já havia informado que os cortes e contingenciamentos provocados pelo presidente impactaria nas atividades e investigações deste ano. Tentando não transparecer que tal medida guarda algum tipo de relação com tentativas de influir nas apurações que recaem contra Temer e aliados, Torquato disse que há uma previsão de descontingenciamento de R$70 milhões por mês até o fim do ano, para que possa realizar algumas operações.

Questionado sobre as medidas serem tentativas de obstrução à Lava-Jato, Torquato Jardim respondeu que as críticas são “infundadas” e que apoia a Operação. Mas deu sinais de que as mudanças na Polícia Federal irão seguir: “Estamos trabalhando para uma nova Polícia Federal, novo sistema, o engajamento institucional, irrelevante quem vai continuar, se é ele lá e eu aqui”.

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