Quanto a tentativa de salvar Temer de denúncia custa ao Brasil

Jean-Philip Struck, via Deutsche Welle em 1º/8/2017

A poucas horas de enfrentar a sessão na Câmara dos Deputados que pode definir o futuro do seu governo, marcada para a quarta-feira, dia 2/8, o presidente Michel Temer tem usado sem cerimônia a máquina federal para conquistar votos de deputados.

Sua “campanha” inclui a promessa de bilhões de reais para emendas parlamentares e projetos em municípios e Estados, criação de cargos comissionados e atendimento de demandas específicas de bancadas.

As medidas contrastam com o discurso de “sacrifício” que Temer evocou ao assumir o governo em 2016. Para se salvar de uma eventual admissão pela Câmara da denúncia criminal por suspeita de corrupção, o presidente pode gastar mais de R$17 bilhões apenas em emendas parlamentares e verbas destinadas para governos e prefeituras.

Ao ceder em projetos dispendiosos de deputados e criar mais cargos, Temer parece também estar jogando uma pá de cal na política de ajuste fiscal prometida no início do governo.

Emendas
Entre as medidas para convencer os deputados a ficarem ao lado do governo, a mais explícita tem sido o direcionamento de verbas para emendas – recursos pedidos pelos deputados que normalmente são gastos em suas bases eleitorais.

Entre o início de junho e o final de julho, período em que o escândalo da JBS veio à tona, o governo destinou R$4,1 bilhões para esse fim. No acumulado do ano até maio – antes do caso JBS –, o governo havia empenhado apenas R$102,5 milhões.

Pelas regras, parlamentares governistas ou da oposição são contemplados com a mesma cota, só que o governo é que estabelece o ritmo da distribuição.

De acordo com a ONG Contas Abertas, parlamentares que declaram abertamente apoio ao governo Temer receberam em média a promessa de R$1 milhão a mais do que os deputados que vão votar pela aprovação da denúncia.

A estratégia das emendas foi usada pela antecessora de Temer, Dilma Rousseff. Nas semanas anteriores à votação de seu impeachment pela Câmara, a presidente anunciou a distribuição de R$3,2 bilhões.

No caso de Temer, o laboratório para a tática foi a votação da denúncia pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara, que fez a análise preliminar da denúncia na primeira quinzena de julho.

Trinta e seis dos quarenta deputados que votaram a favor do presidente foram contemplados com R$134 milhões, segundo a Contas Abertas. O campeão foi justamente o deputado Paulo Abi-Ackel (PSDB/MG), que apresentou o novo relatório favorável ao presidente. No total, ele deve receber R$5,1 milhões.

Deputados da oposição vêm criticando a distribuição de recursos. Segundo Chico Alencar (PSOL-RJ), a destinação de tantas verbas para emendas “caracterizam evidente compra de votos, com consequências de obstrução à Justiça”.

Mais verbas e cargos
A distribuição de recursos não passa só pelo Legislativo. Após atravessar 2016 falando duro com Estados da federação que estão atolados em dívidas, o governo parece ter mudado de ideia após o escândalo da JBS.

No dia 12 de julho, o Planalto anunciou a liberação de R$11,7 bilhões para apoiar o financiamento de obras e concessões de infraestrutura em estados e municípios. No dia seguinte, foi a vez de o Ministério da Saúde anunciar um investimento de R$1,7 bilhão para a rede de atenção básica no país, incluindo a compra de ambulâncias para 1.787 municípios. As duas medidas foram anunciadas horas antes da votação da denúncia pela CCJ.

Além de direcionar recursos, o governo também abandonou sua propagandeada política inicial de reduzir o número de cargos comissionados. Segundo a Contas Abertas, entre maio e junho, o governo criou mais de 500 funções do tipo na administração federal, elevando o total para 20.321.

A liberação das verbas e criação de cargos também ocorre em um momento em que o governo prevê um rombo de R$139 bilhões nas contas públicas.

Segundo o Ministério do Planejamento, tanto o envio de recursos para estados e municípios é um “procedimento absolutamente normal”. Já o empenho das emendas, segundo a pasta, é “um procedimento obrigatório previsto na Constituição e na legislação orçamentária”.

Ajuste fiscal em risco
A União tem a receber cerca R$300 bilhões em dívidas. Para tentar convencer os devedores – empresas e pessoas físicas – a quitarem os débitos, o Planalto pretende passar um projeto de lei para criar mais um programa de refinanciamento, ou Refis.

Na versão originalmente promovida pelo Planalto, o Refis de 2017 pretendia arrecadar pelo menos R$13,3 bilhões ainda neste ano. Só que, precisando de apoio, o governo pouco fez para impedir em 17 de julho a aprovação por uma comissão mista de um novo relatório que prevê descontos no Refis que podem chegar a 99%.

A iniciativa partiu de um deputado do próprio partido do presidente: Newton Cardoso (PMDB/MG). O texto ainda precisa ser votado no plenário da Câmara. Caso a medida passe, nem R$500 milhões devem chegar aos cofres do governo.

Na segunda-feira, dia 31/7, o jornal Folha de S.Paulo informou que os ministérios da Fazenda e do Planejamento já cogitam ter que rever a meta fiscal e aumentar a previsão de déficit em 2017. Não se sabe se Temer pretende usar o veto para confrontar os deputados, que têm em suas mãos o futuro da Presidência.

Pelo menos 76 deles parecem diretamente interessados na aprovação de um Refis mais generoso. Empresas ligadas a eles devem R$217,8 milhões, segundo o jornal O Estado de S.Paulo.

Outros 29 deputados têm R$18,9 milhões de débitos inscritos em seus próprios CPFs. Até mesmo o relator Cardoso é um devedor. Empresas ligadas a ele devem R$51 milhões.

Reivindicações das bancadas
Sentindo o enfraquecimento do governo, bancadas da Câmara têm pressionado o Planalto para que suas demandas sejam atendidas. Em julho, a bancada ruralista conseguiu do governo a sanção da “medida provisória da grilagem” – como foi chamada por ambientalistas –, que prevê a legalização em massa de terras públicas invadidas. Dias depois, o presidente aprovou um parecer da AGU (Advocacia Geral da União) que prevê que um entendimento do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre a criação da reserva indígena Raposa Serra do Sol passe a valer para todas as demarcações.

Pelo entendimento do STF, só são terras indígenas as ocupadas por índios na data da promulgação da Constituição de 1988. A decisão do STF não tinha efeito vinculante, mas a bancada convenceu o presidente do contrário. O Ministério Público Federal classificou a medida como um retrocesso para a causa indígena no Brasil.

O deputado Nilson Leitão (PSDB/MT), coordenador da Frente Parlamentar Mista da Agricultura, já disse que vai votar a favor do presidente. “É inegável que com Temer muitas pautas históricas defendidas pela bancada foram atendidas”, disse Leitão a O Estado de S.Paulo.

Já a Frente Parlamentar Evangélica conseguiu do governo em junho que o Ministério da Educação ordenasse o recolhimento de 93 mil exemplares de um livro de contos. A temática de incesto de um dos contos – que narrava a história de um rei que deseja se casar com uma de suas filhas – revoltou os evangélicos que compõem a Comissão de Educação da Câmara.

A resposta do ministério mostrou que o governo vem cedendo para o grupo. Segundo um levantamento de O Estado de S.Paulo, 80% dos 213 parlamentares que não divulgaram até agora como vão votar na sessão que vai analisar a denúncia contra Temer fazem parte de uma das bancadas “BBB” (boi, bala e bíblia).

2 Respostas to “Quanto a tentativa de salvar Temer de denúncia custa ao Brasil”

  1. heloizahelenapiasblog Says:

    nnem Eu e oPaís queren saber, só queremos ver este traste longe do Governo e do Brasil

    ________________________________

  2. gustavo_horta Says:

    “GOVERNO COMEMORA FALTA DE MOBILIZAÇÃO POPULAR CONTRA AUMENTO DE IMPOSTOS”
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2017/07/30/governo-comemora-falta-de-mobilizacao-popular-contra-aumento-de-impostos/

    “…O imposto sobre a Gasolina e o Diesel pesam mesmo é para a população mais pobre e para a classe média. O Governo entronizado pelo golpe, primeiro cortou e congelou recursos para a área social (Educação,Saúde e Previdência) por 20 anos. Depois foi encerrando programas como o PRONATEC, reduzindo programas como o Bolsa Família, o FIES, o PROUNI e o Ciência Sem Fronteiras entre outros. Agora, além de tirar estes programas dos pobres e da Classe média, o Governo pisoteia sobre ambas as classes, aumentando impostos e nada acontece, sinalizando uma aceitação tácita da Classe Média e uma submissão estarrecedora de pobres que já haviam deixado se ser pobres durante os 12 anos do Governo do PT e agora voltam a extrema pobreza. Por que é assim? Talvez por que não ninguém apresenta um projeto claro e compreensível para que esta massa se mobilize e lute para recuperar direitos que…”

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