Lava-Jato cria força-tarefa em São Paulo para investigar Lula, Haddad e Genoíno

Grupo formado por quatro procuradores da República lidará com 14 inquéritos a reboque da delação da Odebrecht. Thaméa Danelon já é conhecida por sua campanha pelas 10 medidas anticorrupção e admiração à Lava-Jato de Curitiba.

Cíntia Alves, via Jornal GGN em 21/7/2017

A Procuradoria da República em São Paulo conseguiu autorização de Rodrigo Janot, chefe do Ministério Público Federal, para criar uma força-tarefa com o objetivo de investigar supostos crimes relatados na delação da Odebrecht. Quatro procuradores – entre eles, Thaméa Danelon (foto) – serão responsáveis por 14 inquéritos, sendo que dois são contra Lula, um contra Fernando Haddad, um contra José Genoíno e mais um contra Alexandre Padilha.

Contra tucano graúdo, só figura na lista da força-tarefa divulgada pela Folha, na sexta-feira, dia 21/7, um caso relacionado a José Serra, sobre pagamento de propina nas obras da linha 2 do Metrô. Foram citados também Edson Aparecido, Barros Munhoz, José Aníbal e Ricardo Franco Montoro, todos em inquérito sobre caixa 2.

Lula, ao que tudo indica, será indiciado por ter recebido benefícios para si e familiares em troca de favores a Odebrecht. Os inquéritos serão sobre o relato de que seu irmão, José Ferreira da Silva, mais conhecido como Frei Chico, recebia uma mesada da Odebrecht desde o primeiro mandato do ex-presidente petista. Além disso, a relação da Odebrecht com a empresa de Luís Cláudio Lula da Silva, que trabalha com campeonato de futebol americano, também será investigada.

Sobre Haddad, os procuradores pretendem apurar denúncia de que houve caixa 2 na eleição de 2012. Padilha, que foi candidato ao governo de São Paulo em 2014, também terá inquérito sobre doações irregulares.

José Genoíno, por sua vez, será investigado por caixa 2 na campanha de 2010. O GGN mostrou, em abril, que foi com base em uma delação que, gravada em vídeo, durou apenas 3 minutos e 35 segundos, que Janot pediu a abertura de um inquérito.

A Petição 6.698 sinaliza que o petista aceitou doação eleitoral da Odebrecht, em 2010, no valor de R$30 mil e, além disso, teria recebido mais R$15 mil das mãos de Alexandrino Alencar, como parte de uma ação “piedosa” do delator e do “próprio Emílio Odebrecht”, que ficaram sensibilizados com a situação de Genoíno após o Mensalão. Nos dois casos, porém, delatores negaram “contrapartidas”.

Enquanto essa delação virou prioridade da força-tarefa da Lava-Jato em São Paulo, casos como os R$23 milhões para José Serra com participação de Paulo Preto e outros ex-agentes do Estado sem foro não têm destino claro.

Enquanto isso…
O pedido de Janot para que Geraldo Alckmin seja investigado após as delações da Odebrecht foram para o Superior Tribunal de Justiça e não há resposta até o momento. À Lava-Jato, um executivo da Odebrecht disse que Alckmin recebeu R$10 milhões em doações ilegais em 2010 e 2014. Parte do caixa 2 estaria ligado a obras da Sabesp.

A delação da Lava-Jato rendeu um total de 29 pedidos de investigações feito pela equipe de Janot e remetidos a São Paulo, em virtude da falta de foro privilegiado dos investigados.

Destas 29 petições, uma foi declinada ao Ministério Público Estadual por envolver corrupção na Secretaria Estadual da Fazenda, 12 foram encaminhadas a procuradorias em municípios no interior do Estado, duas distribuídas a procuradores na capital, e as 14 restantes estão tramitando sob responsabilidade da força-tarefa.

Ao contrário do que acontece em Curitiba, em São Paulo, contudo, a força-tarefa não será exclusiva para a Lava-Jato.

“A força-tarefa recém-formada se diferencia da conhecida estrutura existente em Curitiba, visto que os procuradores de São Paulo não terão dedicação exclusiva à operação, acumulando seus demais procedimentos. No entanto, a constituição do grupo possibilitará que os membros atuem de maneira mais integrada e colaborativa, podendo haver mais de um procurador responsável por cada caso, agilizando, assim, o andamento dos trabalhos, visto que qualquer um deles pode participar de atos relacionados aos procedimentos”, informou o MPF/SP.

Os quatro procuradores
Participam da força-tarefa quatro procuradores: Thiago Lacerda Nobre, José Roberto Pimenta Oliveira, Anamara Osório Silva e Thaméa Danelon Valiengo. Todos integram o Núcleo de Combate à Corrupção (NCC) da Procuradoria da República em São Paulo.

A procuradora Thaméa já é conhecida por ter participado da campanha a favor das 10 medidas anticorrupção do Ministério Público Federal. Os eventos ao lado do procurador estrela da Lava-Jato, Deltan Dallagnol, ajudaram a projetá-la e a levaram a inúmeros programas de TV e rádio.

Nas redes, a procuradora não esconde a admiração à chamada República de Curitiba, e posa em fotos ao lado de Sergio Moro.

Em entrevista recente, comentou os processos que Lula move contra os procuradores do Paraná. Para ela, essa conduta é “normal” quando vem de “pessoas [que] não conseguem se defender dos crimes, porque as provas são tão robustas e maciças”.

Ela ainda comentou a sentença do tríplex, defendendo que o MPF conseguiu provar que o imóvel era de Lula.

Sobre os inquéritos de Lula em São Paulo, disse que tudo ainda precisa ser apurado e não antecipou juízo de culpa – contrariando o modus operandi da turma de Curitiba.

***

VÍDEO DA LAVA-JATO CONTRA GENOÍNO DURA 3 MINUTOS E NÃO CITA CAIXA 2 NEM PROPINA
Cíntia Alves em 18/7/2017

Com base em uma delação que, gravada em vídeo, durou 3 minutos e 35 segundos, a Procuradoria Geral da República, comandada por Rodrigo Janot, pediu a abertura de um inquérito contra José Genoíno.

A Petição 6.698 sinaliza que o petista aceitou doação eleitoral da Odebrecht, em 2010, no valor de R$30 mil e, além disso, teria recebido mais R$15 mil das mãos de Alexandrino Alencar, como parte de uma ação “piedosa” do delator e do “próprio Emílio Odebrecht”, que ficaram sensibilizados com a situação de Genoíno após o Mensalão. Nos dois casos, porém, delatores negaram “contrapartidas”.

Ao delator Carlos Armando Paschoal – que aparece no vídeo acima contando a história da doação eleitoral feita em duas parcelas de R$15 mil – os procuradores da Lava-Jato simplesmente esqueceram de pedir para especificar se os pagamentos foram feitos via caixa 2, e se Genoíno estaria ciente disso.

Paschoal contou que conheceu Genoíno na sala de Alexandrino Alencar, em uma reunião em que teria acertado o valor da doação eleitoral.

“Aqui teve uma particularidade que, se não me engano, ele não se elegeu. Mas me marcou muito porque foi o único candidato que, depois das eleições, nos procurou para agradecer o apoio. Me marcou tanto que me lembro desse detalhe”, comentou. A frase foi objeto de manchete dos jornais da grande mídia, na segunda-feira, dia 17/7.

Por outro lado, uma procuradora da Lava-Jato sentiu curiosidade em saber e trazer para a delação algum temor da Odebrecht em manter contato com Genoíno, já que ele, àquela época, já havia sido atingido pelo Mensalão. “Não, não me ocorreu”, disse Paschoal, sem desenvolver o tema.

“Quanto à doação de 2010, o senhor tem mais alguma informação, nome do representante? O que marcou foi que ele voltou para agradecer, foi isso?”, questionou um procurador. O delator respondeu que não tinha mais detalhes.

Paschoal também disse que não sabia quem recolheu a doação em nome de Genoíno e destacou que a doação foi apenas para o então candidato.

Petição 6.698.

Ajuda financeira
O depoimento de Paschoal vai de encontro com a delação de Alexandrino Alencar no que tange o encontro com Genoíno para acertar doação eleitoral.

Em 12 de dezembro de 2016, Alexandrino Alencar também gravou um vídeo com trechos de sua delação premiada, citando Genoíno. Ele começou contanto que conheceu o petista no início dos anos 1990, através de Lula. Depois, que a Odebrecht deve ter feito doações ao petista nas eleições de 2002 e 2006, mas que ele não saberia precisar essas informações

“Quando ele saiu do mensalão, eu o procurei em sua casa por duas vezes, a pedido do próprio Emílio [Odebrecht], que queria saber como ele estava”, comentou. “Criei uma relação muito mais institucional do que uma relação mais específica, com objetos claros”.

Alencar, contrariando Paschoal, disse que não se recorda de ter recebido pessoalmente pedidos de doação de Genoíno, embora tenha ciência de que o Grupo Odebrecht deve ter contribuído para algumas campanhas dele.

Na metade do depoimento, Alencar é confrontado com uma planilha onde estão registrados pagamentos a “Natal”. Ele contou, nesse momento, da ajuda financeira a Genoíno e também sinalizou que os dados em posse da Lava-Jato estariam errados.

“Em uma das vezes que eu o procurei, na casa dele, eu vi que ele estava com bastante dificuldades financeiras. Ele não me pediu nada, mas você sente quando a pessoa está com dificuldades. Isso realmente me impactou, até pela relação que tinha e pelo conceito que ele tinha junto ao grupo e junto ao próprio Emílio Odebrecht”.

Alencar disse que recebeu aval de Emílio para ajudar Genoíno. “Eu fiz isso pessoalmente, fiz em espécie, pessoalmente, são os recursos que estão na planilha, em anexo”. Segundo o Estadão, a planilha apresenta “quatro operações no valor de R$15 mil”. Alencar contestou, dizendo que, em sua memória, foram três operações.

Um procurador, em seguida, perguntou a Alencar se na Odebrecht o repasse teria sido tratado como “propina” ou “caixa 2”, ao que o delator negou, dizendo que “o volume era tão pequeno que se sabia que era uma pequena contribuição”. “Teve contrapartida?”, indagou o procurador. “Nenhuma”, disse Alencar. “Foi mais uma ação piedosa”, acrescentou.

O delator disse também que não sabia que “Natal”, na planilha, era Genoíno, e tampouco qual funcionário da empresa era destacado para levar ao executivo os recursos que seriam entregues ao petista.

Outro lado
Ao Estadão, Genoíno disse que não ia comentar as delações porque são “mentirosas”.

O ministro Luiz Edson Fachin enviou o pedido de abertura de inquérito assinado por Janot para a Justiça de São Paulo.

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