Paulo Moreira Leite: Quer sair da crise? Defenda Diretas Já!

Paulo Moreira Leite em 8/7/2017

Tenho vontade de rir quando leio analistas políticos dizendo – com ar grave de quem descobriu uma verdade profunda – que a troca de Michel Temer por Rodrigo Maia não será suficiente para tirar o país de uma crise sem paralelo em nossa história recente.

Eu (e a torcida do Flamengo, do Corinthians, do Palmeiras, do Atlético, do Sport, do Vasco, do Inter, do Santos…) posso assegurar que nem Maia, nem Nelson Jobim, nem Cármen Lúcia, nem qualquer outro nome tirado da cartola de um sistema político arruinado será capaz de estabilizar a crise e apontar um rumo para uma nação conflagrada, onde a crise política já ameaça se transformar em conflito institucional.

E é assim por uma razão muito simples: o golpe de maio-agosto de 2017 deu errado. Um ano e dois meses depois de instalar-se no Planalto, o governo Michel Temer-Henrique Meirelles não conta com o mínimo de adesão necessária dos brasileiros para ficar de pé. É visto com indiferença ou rejeição por 93%. É humilhado e ridicularizado. Principal fiadora de Temer-Meirelles, a TV Globo conspira noite e dia contra o governo que só pode ser instalado com sua participação decisiva.

Temer encontra-se naquela hora em que a única alternativa digna para o país é bater em retirada e reconhecer que chegamos a uma emergência histórica, na qual o povo tem o direito de exercer seus poderes soberanos, definidos no artigo 1 da Constituição, e, através de eleições diretas, escolher o novo presidente da República.

A gravidade da situação justifica que se dê início imediato a este processo, que pode ser ampliado a partir do lançamento, em Curitiba, de uma Frente Ampla por Diretas-já.

Sabemos que, em graus maiores ou menores, a maioria das democracias do mundo enfrenta, hoje, problemas conhecidos de legitimidade e falta de representatividade. Pense em Donald Trump nos EUA, na abstenção de 57% na eleição parlamentar que deu maioria a Emmanoel Macron, na França. Para falar em países que nossos sábios costumam apontar como exemplo a ser seguido.

Mas aquilo que é uma dificuldade relativa – e até certo ponto tolerável – na maioria dos casos, atingiu um grau absoluto e insustentável no Brasil de hoje. A democracia, duramente conquistada após 25 anos de ditadura militar, que deixou lições que nenhum brasileiro vivo tem o direito de ignorar, encontra-se em risco.

Com a contribuição particular de Michel Temer e seus patrocinadores, cujo desprezo pelos valores e convicções da maioria 200 milhões de brasileiros atingiu um plano paranoico e grotesco, o país encontra-se num vale-tudo no qual ninguém sente-se no dever de respeitar ninguém.

Todos têm motivo para se sentirem enganados.

Todos são – objetivamente – impelidos ao ódio, ao inconformismo e à revolta.

Descontando o aquário de 1% de quem pretende encher os bolsos com reformas descaradamente contrárias ao bem-estar de 99% da população – e que em caso de tragédia poderá mudar-se para a Nova York dos irmãos Batista – o conjunto do país é chamado a assistir a um espetáculo no qual pode ser chamado a assumir o regime de “servidão voluntária” de que falou o juiz Maurício Godinho Delgado, do TST, referindo-se as mudanças no regime trabalhista que o senado debate esta semana.

A intolerância e a raiva que se vê nas ruas, nas conversas, nas redes sociais, tem origem numa situação, mutuamente insuportável, de adversários decepcionados e excludentes.

Não há nem haverá acordo, pois nenhuma candidatura de laboratório nos representa.

Sabemos, por essa razão, que, cedo ou tarde, haverá disputa e confronto, com vencedores e vencidos.

A questão é saber quando e como isso será feito. Para onde vai nos levar. Para recuperar a democracia ou para consolidar o Estado de Exceção, esse nome técnico para definir ditadura?

Essa é a pergunta de uma realidade de riscos e de oportunidades que é preciso confrontar, atravessar e deixar para trás.

Aqui se encontra o grande escombro, a ruína e sua paisagem de cadáveres insepultos. Maior que todos os Maias, Jobins, Cármens Lúcias que possam vir a ser produzidos em conspirações de gabinete, ainda que, enganosamente, possam ser apresentadas como articulações até inocentes diante da gravidade da hora.

Chega a ser covardia e desonestidade apontar defeitos ou virtudes no plano pessoal. Não é um problema de indivíduos. Nem de disputas biográficas. Estamos falando de tarefas que só podem ser resolvidas pelo país inteiro, jamais por um indivíduo, por mais iluminado que seja.

É missão para 108 milhões de eleitores.

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