Tem coisas que só acontecem com o Botafogo

Na falta de Sérgio Moro, vamos de Rodrigo Maia. Pobre Manequinho, há coisas que só acontecem com o Botafogo.

Sérgio Saraiva, via Jornal GGN em 7/7/2017

A pesquisa Datafolha que especulava sobre a intenção de votos para presidente trazia uma informação relevante que aparentemente passou sem maiores apreciações. Parece uma curiosidade, mas é sintomática no que revela. Na simulação para segundo turno, Lula só perde para Sérgio Moro – um empate técnico, na verdade, mas, mesmo assim, Moro está à frente de Lula por dois pontos percentuais. É também o cenário onde há menor porcentagem de indecisos.

Ocorre que Sérgio Moro não será candidato. Então, ao campo antilulista restou se aglutinar em torno de uma ilusão. Na prática, não tem candidato viável de consenso.

Essa ideia – a da falta de um candidato viável e de consenso – voltou-me à mente agora que parece encaminhada a substituição de Michel Temer por Rodrigo Maia. É o que restou aos golpistas. Temer tornou-se inviável. Ainda que sobrevivesse às denúncias de Joesley Batista, teria a seguir as delações de Geddel Vieira Lima, Lucio Funaro e Eduardo Cunha. E que mais surpresas?

Ocorre que Rodrigo Maia não é solução. Sua principal referência é ser filho de Cesar Maia. Alguém sabe quem é Cesar Maia? Rodrigo Maia não é líder de nada e essa foi a principal característica que o levou à presidência da Câmara. A quadrilha no poder não iria se arriscar com um novo Eduardo Cunha. Prefiro um asno que me carregue a um cavalo que me derrube.

Que presidente seria Rodrigo Maia no Executivo tendo sido um não-presidente no Legislativo?

Não poderá formar sua própria equipe. Henrique Meirelles é uma autointitulada cláusula pétrea do ministério de seja lá quem for o presidente até 2018. Maia não poderá se desfazer do “núcleo duro” do governo Temer – Moreira Franco e Eliseu Padilha. Perdendo o foro privilegiado, seriam presos em semanas – dias talvez. Ocorre que Moreira Franco é o sogro de Rodrigo Maia. Não podendo lançar o sogro ao mar, deverá conservar Padilha. Que importam os demais ministros?

E mesmo Rodrigo Maia é o “Botafogo” da lista da Odebrecht. Não que isso não possa ser contornado, mas o coloca em uma posição muito frágil. Assim que assumir, o hino a ser tocado nas redações e nas relações entre o Planalto e o STF será o “Botafogo, Botafogo, campeão… desde 1910”.

Temer tem de sair porque mantê-lo tem um custo que ultrapassou o limite do mínimo benefício. Mas Rodrigo Maia não será a solução. Não tem a menor capacidade de gerir as pressões que surgirão logo após assumir. E elas surgirão. 2018 está às portas e as próximas eleições estão com cara de salve-se quem puder.

Rodrigo Maia é o “Botafogo”, mas não é Zagalo. O líder fraco, o não-líder que serviu de amortecimento entre os egos das estrelas fulgurantes da seleção de 70, mantendo assim o time coeso.

O tal acordo “com Supremo, com tudo” de Jucá deu na inviabilidade de Temer. Qual acordo seria agora costurado em torno de Rodrigo Maia? Maia parece-me mais uma improvisação, a solução surgida da necessidade de alguma ação e da falta de opção.

Na falta de Sérgio Moro, vamos de Rodrigo Maia. Pobre Manequinho, há coisas que só acontecem com o Botafogo.

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