Temer é encarado por líderes mundiais como presidente em um “governo terminal”

Para analistas de política externa, chefes de Estado dos países mais importantes já têm a percepção de que Temer não representa o Brasil e, se ele cair e entrar Rodrigo Maia, só resta esperar 2018

Eduardo Maretti, via RBA em 7/7/2017

Sem reuniões bilaterais e depois de hesitar entre ir ou não à cúpula do G20 em Hamburgo, na Alemanha, o presidente brasileiro, Michel Temer, é um retrato pálido e melancólico de um governo que praticamente não representa mais nada para as nações mais importantes do mundo.

“No governo Temer, a perda de espaço e de relevância do Brasil no concerto das nações é muito aguda. E, convenhamos, o atual governo não tem muito como aumentar sua participação, já que é extremamente questionado dentro de casa. Qual é o dignatário ou líder estrangeiro que vai fazer um acordo com um presidente que não se sabe se na semana que vem vai estar no cargo?”, avalia Thomas Heye, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF).

“O governo Temer está em estado terminal. Em termos de G20, os presidentes e líderes já têm a percepção de que Temer não representa o país”, afirma Miriam Gomes Saraiva, pesquisadora do departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Apartado de outros presidentes e isolado, o chefe de Estado brasileiro “não tem muito mais o que dizer”, na opinião da professora.

Ela lembra que quando ele foi à Noruega, na terceira semana de junho, a primeira-ministra Erna Solberg fez referência explícita ao status do governo brasileiro naquele momento, às vésperas da denúncia da Procuradoria Geral da República contra o peemedebista. “Estamos muito preocupados com a Lava-Jato. É importante fazer uma limpeza”, cutucou a norueguesa.

Para piorar a imagem brasileira perante o mundo, Temer declarou para toda a imprensa internacional ouvir –reforçando a percepção de seu autismo – que tudo está bem no país que governa. “Não existe crise econômica no Brasil“, disse ele na Alemanha. “Parece que ele está bem divorciado da realidade do país”, ironiza Thomas Heye.

Se a situação atual é o presidente do Brasil ser encarado como chefe de um governo terminal, um novo governo com o atual presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ), à frente, poderia apontar para novos rumos da política externa? “Se Temer cair e Rodrigo Maia assumir, não. Nesse caso, a única coisa que vamos fazer é manter as coisas do jeito que estão até 2018. Não tem espaço para iniciativas diplomáticas no atual cenário”, diz Heye.

Miriam anota que Maia, em termos de política externa, pertence a um grupo de pensamento bastante próximo aos atuais gestores da política externa, que ideologicamente transitam do DEM ao PSDB. “O governo Temer delegou a formulação da política externa, primeiro, a José Serra, e depois a Aloysio Nunes”. Assim, a professora calcula que, se Maia substituir Temer, o próprio Aloysio Nunes poderia seguir no cargo.

Ironicamente, o termo “anão diplomático”, utilizado pela diplomacia israelense ao se referir ao Brasil de Dilma Rousseff, quando a presidenta chamou para consultas seu embaixador em Tel Aviv em 2014, é uma expressão exata para definir o Brasil de hoje. “A nossa política externa não reflete um país que está entre as dez maiores economias do mundo e que é a maior potência regional na América do Sul. Com o Executivo extremamente fragilizado e uma crise permanente dentro do país, não tem como articular uma política externa no momento”, avalia Heye.

Brics
A professora da Uerj acredita que, apesar dos percalços da política externa brasileira, a importância do Brasil no Brics – bloco do qual faz parte junto com Rússia, Índia, China e África do Sul – se mantém, pelo menos por enquanto.

“O governo Dilma investiu muito no Brics. Houve a criação do Banco dos Brics, no final do primeiro mandato. O afastamento do Brasil data da mudança de governo para o governo Temer. Mas, até o momento, o que os países estão fazendo é deixar o Brasil como em banho-maria. Se o governo Temer continuar e a situação de crise se alongar, pode chegar o momento em que o Brics talvez não tenha mais interesse na participação brasileira. Mas até 2018, que é o limite do governo Temer, acho que eles esperam”, acredita Miriam Gomes Saraiva.

A professora considera relevante observar que o representante brasileiro no Banco dos Brics, hoje, Paulo Nogueira Batista Junior, vice-presidente da instituição, é o mesmo do governo Dilma. “O próprio governo brasileiro evitou mexer no Brics. O ativismo do representante brasileiro prossegue no banco, à espera de um governo mais definitivo”.

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