Preso por fraudar licitação de creche, deputado comanda sessão da Comissão de Educação da Câmara

Homens de bem: Eduardo Cunha, Celso Jacob e Michel Temer.

George Marques, via The Intercept Brasil em 7/7/2017

Mais um capítulo da surreal cena política de Brasília marcou a quarta-feira, dia 5/7, no Congresso. Preso no mês passado sob a acusação de fraudar uma licitação para a construção de uma creche quando era prefeito de Três Rios (RJ), em 2003, o deputado Celso Jacob (PMDB) se sentou na cadeira de presidente da Comissão de Educação da Casa, após o titular, Caio Narcio (PSDB/MG) ceder o lugar de honra. Jacob, que atualmente cumpre a sentença de sete anos e dois meses de detenção determinada pelo STF em regime semiaberto, ainda recebeu o carinho de colegas.

“Você pode ter tido um erro administrativo, mas não justifica o que fizeram. A cada dia que passa essa Casa se acovarda. É uma alegria tê-lo conosco presidindo esta comissão”, afirmou o deputado Damião Feliciano (PDT/PB) durante a sessão.

Antes de Damião, o presidente da comissão, Caio Narcio, que convocou Jacob ao deixar o plenário, também fez questão de mostrar sua solidariedade: “Reafirmo o apoio à conduta do colega, que jamais atuou contra os interesses do povo de seu estado”.

Mesmo condenado, Jacob mantém os mesmos direitos do que os outros parlamentares não condenados. O congressista continua a receber os R$34 mil de salário e pode contratar até 25 servidores, mas sem estourar os R$101.971,94 da cota que é destinada a cada parlamentar. O pacote inclui carro oficial, TV por assinatura, internet, telefone fixo, transporte e alimentação, auxílio moradia e saúde. Todos pagos pela Câmara dos Deputados com dinheiro do contribuinte.

Da Câmara para a Papuda
Quando o relógio marca 18h30m de uma sexta-feira, enquanto o restante de seus pares costuma voltar para casa ou viajar a seus estados, Jacob precisa tomar o rumo da Complexo Penitenciário da Papuda, que fica a 13 quilômetros do Congresso, e tem capacidade para receber até 5 mil detentos.

Por lá já passaram outros políticos importantes do cenário brasileiro: o ex-ministro petista José Dirceu; o “homem da mala” de confiança de Michel Temer, Rocha Loures; e Geddel Vieira Lima, braço-direito do presidente, levado recentemente para uma cela do presídio. Todos são acusados de corrupção.

O belo gabinete do deputado Celso Jacob na Câmara. Foto: George Marques.

Em dias de sessões que ultrapassem o horário das 18h30, como costuma ocorrer às terças e quartas, Jacob é obrigado a apresentar uma certidão, a ser emitida pela Câmara, atestando que esteve no plenário no período noturno. O descumprimento da ordem pode levar à revogação do benefício do regime semiaberto.

Procurado pela reportagem e após mais de duas horas de espera, Jacob mostrou-se econômico nas palavras. “Só falo na presença do meu advogado”, adiantou, em tom intimidatório.

The Intercept Brasil perguntou ao parlamentar sobre sua rotina de poder ir à Câmara só em dias úteis, das 9h às 12h, e de 13h30m às 18h30m. “Tudo normal, a vida tem que seguir, é algo desconfortável, mas irei mostrar minha inocência”. Talvez Jacob não tenha percebido que o último recurso já se esgotou e foi negado no STF.

Mas, se dependesse de seus colegas, Jacob seria absolvido. A sessão da Comissão de Educação teve uma carga intensa de solidariedade, recheada de frases de efeito. “Eu quando sou provocado fico mais valente”, proclamou o vigoroso Átila Lira (PSB/PI) em defesa de Jacob. Segundo Lira, a Câmara precisa aprimorar os mecanismos de “proteção” às investidas externas que visam unicamente constranger outros poderes. “Eu me sinto provocado e com muita mais coragem de enfrentar aquilo que é injusto quando vejo a justiça tentando nos constranger”, afirmou.

“Eu só confio na justiça divina”.

“Acho que estão usando vossa excelência como bode expiatório pra achincalhar esta casa”, esclareceu Sóstenes Cavalcanti (DEM/RJ), deputado com origem na Baixada Fluminense, em Duque de Caxias (RJ), ligado ao pastor Silas Malafaia. O congressista classificou a decisão da justiça contra Jacob de um “erro”. “Eu só confio na justiça divina. A sua insegurança, deputado, é a insegurança de todos os brasileiros deste país”, disse.

Há entre parlamentares no Congresso uma espécie de rede de amparo quando um colega é preso ou levado para depor pela polícia. Outros tipos de autoproteção são vistas também quando um senador, por exemplo, usa os milhões de votos de Aécio Neves (PSDB/MG) para livrá-lo do processo de cassação no Conselho de Ética. A autoproteção coletiva é justificada na premissa que hoje foi a vez do Jacob. Amanhã, pode ser a vez de qualquer um.

Uma resposta to “Preso por fraudar licitação de creche, deputado comanda sessão da Comissão de Educação da Câmara”

  1. COPACABANA EM FOCO Says:

    Esses bandidos vivem em um mundo surreal de que tudo pra eles é normal.

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