Aécio e a pena da vergonha pública

Fernando Brito, via Tijolaço em 1º/7/2017

Leio, no Facebook do jornalista Luís Costa Pinto, aquilo que penso e disse, com menos competência, algumas vezes aqui.

A pena, inescapável, que vale mesmo para Aécio Neves é a da política.

[Aécio] flanava pelos corredores do Congresso, dos palácios e da Esplanada como se fosse questão de tempo a sua ascensão ao trono. Descobrirá, ao voltar ao Senado, que os antigos amigos irão lhe virar as costas. Que alguns fugirão de sua companhia como à de um pestilento. Que outros correrão do enquadramento para não saírem nas mesmas fotos que ele. Além disso, de volta ao mandato, terá de encarar uma reunião partidária para depô-lo. Ou o PSDB também irá restaurar Neves no posto de presidente da legenda?
Marco Aurélio Mello deu a Aécio a chance, desairosa, de encarar seus grilhões – e os morais serão os mais pesados.

É isso: as penas legais para Aécio virão (ou não virão) no tempo da Justiça e é assim que deve ser, se queremos um Estado de Direito e não as “cognições sumárias” do “morismo”. Deve ser, sim, e talvez não seja porque sabemos como é a Justiça brasileira e o que dela esperar.

Mas penas políticas já chegaram e serão executadas por longos e infindáveis dias em que viverá na “solitária política”, nas chibatadas do desprezo público, no exílio da consideração alheia.

Óbvio que ele, como qualquer um, deve responder penalmente e, certamente, nisso há de contar com a boa vontade de juízes, tribunais e de advogados como não contaria o homem comum e também não o político transformador.

Mas a pena que interessa à política – e, portanto, a que interessa ao país, porque Aécio foi o mais nefasto agente da ruptura institucional que sobremos – esta será aplicada, agora, até com mais eficiência do que quando permaneceu recluso em seu apartamento.

Afinal, a vergonha é algo que só existe em público.

E dessa não há decisão do STF da qual o livre.

***

A LIÇÃO DE MARCO AURÉLIO
Fernando Brito, via Tijolaço em 30/6/2017

Este blog, quem o acompanha o sabe, não vibra ou sequer se compraz com a prisão de seres humanos.

Muito menos com cassações de mandatos, que me acostumei a ver desde criança.

Não fico, por isso, chocado com a decisão de Marco Aurélio Mello de restabelecer o mandato de Aécio Neves e, por óbvio, recusar sua prisão preventiva.

Não, não é isso o que choca.

O que choca é nos termos acostumado a uma Justiça que, por muito menos do que a gravação explícita e o flagrante das malas de dinheiro apanhadas, ao que parece evidente, para o senador, encarcera e encarcerou pessoas durante meses a fio, ou até anos.

Quem está certo, Marco Aurélio Mello ou juízes – e cada vez são mais deles – padrão Sérgio Moro, que revive a polícia dos anos 50 e 60 com suas “prisões para averiguação”?

Aliás, também a polícia naqueles tempos teve sua “força-tarefa”, os popularíssimos “Homens de Ouro” , muitos dos quais se revelaram ladrões ou exterminadores.

É certo que a decisão de Marco Aurélio é cheia de contradições.

Aécio, por exemplo, votará para confirmar ou não a senhora Raquel Dodge à frente da Procuradoria Geral da República, órgão que quer a prisão do outra vez Senador. Se tiver um mínimo de vergonha na cara, sua ausência nas sabatinas da procuradora é uma imposição.

Mas é uma opção que, se não exercida, vai proporcionar um espetáculo deprimente no Senado da República.

É verdade, igual, que a decisão de Mello fez cair no ridículo a afirmação de Cármen Lúcia, ao encerrar o semestre do Supremo e abrir o segundo período de férias de suas excelências em 2017, de que ““o clamor por justiça que hoje se ouve em todos os cantos do país não será ignorado em qualquer decisão”.

Em matéria de clamor, dada a sua rejeição, não parece haver maior do que o que existe contra Aécio.

Mas, com o perdão da ministra, Justiça regida por clamor popular eu só tinha notícia naqueles enforcamentos de filme de faroeste.

Em qualquer decisão judicial, muito mais do que providências e penas, o mais importante é o caráter didático-pedagógico que elas têm. Que, neste caso, vai muito além da agora minúscula figura de Aécio Neves, afinal já reduzido à proporção de seu caráter, mas recobrarmos o entendimento de que prisão não é um brinquedo ou um garrote vil à disposição dos juízes.

Sei que é difícil reprimir ímpeto de desejar a Aécio apenas um pouco do mal que ele causou ao país quando, desde o processo eleitoral, passou a buscar na Justiça e fora dela os meios para derrubar o governo legítimo. É duro ter de reprimir o instinto primitivo de Talião, do olho por olho, dente por dente.

Talvez nos ajude um pouco a conter esta gana a providência de lembrar que, diante de sua restauração no mandato, dificultou-se um grau que seja do necessário equilíbrio das decisões judiciais.

Caminho que foi aberto pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, outro dia, reconhecendo que a simples delação não é ferramenta de condenação e que se amplia agora, ao recusar prisões preventivas com muito mais razão de ser do que o sequestro de Lula para depor na monstruosa “condução coercitiva” de que foi vítima.

A Justiça sempre foi tardia e, ao contrário do ditado, frequentemente falha.

De uns tempos para cá, declarou-se veloz, sumária e infalível.

E atirou a sociedade no caldeirão dos linchamentos morais, de onde saem, como vapores, os “clamores” aos quais a Dra. Cármen Lúcia diz que não há de faltar.

Tomara que falte.

Porque, afinal, quando os homens bons passam a ter a ousadia dos canalhas, como ela andou nos recomendando, deixamos de ser bons e em algum grau nos acanalhamos.

2 Respostas to “Aécio e a pena da vergonha pública”

  1. Érika Dal Colleto Says:

    Fernando Brito, que texto, companheiro! Cirúrgico, elegante, emocionante! Bravo!

  2. magda f santos (@magdafsantos) Says:

    OS LADRÕES SOLTOS COMENDO E BEBENDO AS NOSSAS CUSTAS E NOS PRESIDIARIOS EM CASA

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: