O fator Raquel Dodge na Procuradoria Geral da República

Raquel Dodge. Foto: Gil Ferreira / Agência CNJ.

Luis Nassif, via Jornal GGN em 29/6/2017

Primeiro, uma ressalva: há um fator indeterminado que afeta os mortais quando nomeados para cargos relevantes, especialmente na área jurídica. Luiz Edson Fachin, Luís Roberto Barroso, Ayres Brito, Carmen Lúcia eram um, antes da indicação; depois, viraram outro.

A história de que a subprocuradora Raquel Dodge – escolhida para substituir o procurador-geral da República Rodrigo Janot – era a preferida dos caciques do PMDB, de Gilmar Mendes, de Osmar Serraglio, da Joaquim Silvério dos Reis e Calabar foi uma invenção política do grupo de Janot em conluio com a Globo.

Aliás, se a corporação dos procuradores acreditasse minimamente nesses jogos de injúria, certamente não daria à Raquel a votação conquistada. Aliás, as jogadas acabaram por fortalece-la, em detrimento de outras candidaturas femininas afirmativas, como a de Ela Wiecko.

Aqui você tem uma explicação detalhada de outra jogada do gênero, armada por Janot para tentar caracterizar Raquel como inimiga da Lava-Jato. Aqui, outra explicação das jogadas mais recentes da dobradinha Janot-Globo.

O que está em jogo são as denúncias contra a Globo na Justiça norte-americana, em função de crimes de corrupção na compra da Copa Brasil da CBF (Confederação Brasileira de Futebol).

Janot era garantia segura de que os inquéritos não caminhariam, justamente por ser um comandante inseguro.

Ao entrar no jogo de queimar Raquel Dodge, talvez a própria Globo tenha cometido um erro fatal.

O candidato de Janot, Nicolao Dino, é um procurador respeitável, mentor das tais 10 Medidas, mas sem muitas ousadias. É só conferir a maneira com que (não) reagiu às ofensas violentas de Gilmar Mendes no julgamento do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). E no fato de, sendo o penalista de Janot, jamais ter ousado caminhar por mares onde pudessem circular tubarões de papel.

Já Raquel Dodge assumirá com a injúria lançando sobre ela a mancha da suspeita. O comportamento natural seria endurecer para comprovar sua independência.

Não se surpreenda se nesta quinta-feira, dia 29/6, colunistas e reportagens de O Globo começarem a lisonjear Raquel, proclamando sua independência.

Não há nada mais previsível do que os movimentos articulados com que a Globo enquadra seus jornalistas.

***

A NOVA PROCURADORA-GERAL: UMA AMEAÇA À CENTRALIZAÇÃO DE JANOT, NÃO À LAVA JATO
Via Jornal GGN em 29/6/2017

Michel Temer não ousou romper a tradição de nomear ao cargo máximo do Ministério Público Federal (MPF) os mais votados pelos procuradores da República. Mas, provocativamente, escolheu a segunda colocada da lista tríplice e a candidata que despontava como uma das principais oposições a Rodrigo Janot.

A subprocuradora-geral da República Raquel Elias Ferreira Dodge já estampava na última eleição, de 2015, o procurador-geral como “um pensamento único e hegemônico”, sem diálogo com os demais membros do órgão.

A ameaça da mais nova procuradora-geral não é em relação à descontinuidade das investigações da Operação Lava-Jato, mas ao jogo de poder determinado por Janot nestes últimos quatro anos em seus dois mandatos consecutivos.

Em evento realizado pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), em agosto de 2015, Raquel indicava que trabalharia para o “diálogo” e coesão entre os membros do Ministério Pública.

“O princípio da unidade da ação institucional opera o bom efeito de exigir a integração institucional”, dizia, sem deixar de enfatizar: “Também não pode afastar independência funcional na decisão de posição contrária. São princípios que se harmonizam e contribuem para a eficiência da atuação institucional, sem determinar um pensamento único e hegemônico”.

No início do ano, foi a subprocuradora que encampou a proposta que ameaça a centralização adotada por Janot em suas indicações nos cargos mais próximos de seu gabinete e de atuações estratégicas. A resolução do Conselho Superior do Ministério Público definiu limites para a convocação de procuradores pela PGR.

A medida impôs que a Procuradoria não poderia retirar mais de 10% do contingente de procuradores de uma determinada região, alocando à grupos da PGR. A restrição tentava manter os orçamentos da Procuradoria no Distrito Federal, que não poderia ter uma grande diferença de recursos em relação aos demais MPF regionais. A ideia que partiu de Raquel também visava descentralizar o controle do procurador-geral.

E, apesar de ser a segunda colocada, obteve 578 votos contra 621 de Nicolao Dino, o apadrinhado de Janot. Com respaldo e história dentro da Procuradoria, Raquel Dodge leva coerência ao compromisso que expõe de “plena continuidade do trabalho contra a corrupção da Lava-Jato, [operações] Greenfield, Zelotes e todos os demais processos em curso”, conforme disse à reportagem da Folha de S.Paulo.

Contradição os apontamentos do grupo de Janot e compradas pelos principais jornais, de relações da subprocuradora com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, de Torquato Jardim, de peemedebistas como Renan Calheiros, José Sarney e Osmar Serraglio.

Raquel atuou em 2009 na Operação Caixa de Pandora, que revelou o mensalão do DEM e gerou a prisão do ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (PR). Foi uma das responsáveis pela condenação do ex-deputado Hildebrando Pascoal, conhecido pelo assassinato com uma motosserra em 1996, e em 2003, amparou a ação que prendeu o ex-presidente da Assembleia do Espírito Santo, José Carlos Gratz (PSL).

Em debates organizados pela ANPR este ano, defendeu que a Operação Lava-Jato seja mais célere, não se posicionou contra as delações premiadas, mas disse que o delator também deve reparar o prejuízo e que haja “proporcionalidade” entre as provas entregues e os benefícios concedidos. Defendeu que o combate à corrupção “não só é dever como deve ser prioridade, porque tem a ver com tudo aquilo que é a missão principal do Ministério Público”.

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