Fernando Horta: Por que Temer não cai?

Fernando Horta, via Jornal GGN em 20/6/2017

A razão principal da manutenção de Michel Temer na presidência é Lula. Não é segredo que o ex-presidente apresenta boas chances de vencer eleições (em 2017 ou 2018) ainda no primeiro turno. Diante disto, a direita e a classe média anti-Lula (que não diminuiu um centímetro) veem na figura rota e estropiada de Temer um escudo contra Lula. Houvesse uma chance real de um candidato da direita de disputar o pleito e, creio, Temer já teria sido propriamente defenestrado.

Só esta avaliação, entretanto, não é suficiente. Temer perdeu o apoio do capital, tem a Globo contra si, suas reformas impopulares colocam trabalhadores de diversos setores contra o vice-presidente, e tudo isto se manifesta bem nas pesquisas de opinião que dão-lhe entre 3% e 4% de aprovação – com margem de erro de 3 a 4%. Ou seja, o governo Temer é a margem de erro. Depois da decisão do general Villas Boas de desautorizar o uso das forças armadas não se pode dizer que o exército esteja sustentando o vice. Mesmo que Etchegoyen se encontre com a versão norte-americana do 007 (o espião midiático), colocando isto em sua agenda pública.

Por que, de fato, Temer não cai?

Existem quatro grupos políticos que julgam que a continuidade de Temer é benéfica em algum sentido. O fazem baseado em um cálculo de custo-benefício a partir do que já foi demonstrado pelo vice a ser sua continuidade até 2018. Penso, entretanto, que estes podem estar errados.

O primeiro grupo a querer que Temer vá até 2018 é dos sócios do próprio presidente. Sun Tzu disse que devia-se deixar sempre uma fuga ao atacar o inimigo. Caso contrário, a resistência pela vida implicaria em pesadas perdas ao atacante. Temer e seu grupo não lutam por “política”, por “maiores ganhos” ou coisas do gênero. Manter Temer é a única alternativa. O contrário é renunciar ao poder e serem presos com delações em cascatas. Temer acredita que precisa suportar até setembro quando ele indicará um novo PGR que, com certeza, servirá aos interesses do vice-presidente. É uma luta factível, tem tempo para acontecer e Temer acredita dispor de meios para prevalecer.

Um segundo grupo que acredita na manutenção de Temer como forma de majorar seus ganhos são os caciques do PSDB. Nos últimos meses vimos uma dissidência interna entre os políticos mais antigos e os novos. O PSDB vem derretendo diariamente, Aécio na iminência de ser preso, Alckmin e Serra atingidos em cheio por investigações e delações e Dória, deixado governar, se enrola nas próprias pernas. Em menos de seis meses já há investigações sobre corrupção em andamento e as atitudes teatrais do início do mandato do “jestor” (sic) começam a ser desmascaradas. Particularmente o caso dos remédios “doados” em contrapartida de milhões em renúncias fiscais, as ações na Cracolândia e os estranhos contatos com a AmBev não são cartas de apresentação boas para o prefeito de São Paulo. Dória parece ser aquele aluno que se propunha a jogar futebol no segundo grau, sobre o qual se dizia que “a natureza marca”, tamanha sua ruindade.

O PSDB acredita que eleições agora, com o partido desorganizado, seriam uma péssima situação. Com os canais de financiamento bloqueados, uma militância que está rareando e que não tem histórico de aportes financeiros para ajudar candidatos, o PSDB não teria a mínima chance. Alguns temem por 2018, acreditando que sequer manter a bancada conseguirão. Também para o PSDB é vital “estancar a sangria”, acabar com as delações e reverter o dano causado a Aécio. Para isto contam com dois representantes no STF mais o incrível algoritmo de sorteio de processos do STF. Costumam não decepcionar.

Os outros dois grupos que não veem a queda de Temer como prioridade são, pasmem, da esquerda. A esquerda anti-Lula acredita que a queda de Temer deve se dar concomitantemente à condenação de Lula. Caso estas duas situações não ocorrem em ordem correta e próximas julgam que o melhor é permitir Temer continuar “derretendo”. Usam argumentos como “lutar contra o culto à personalidade de Lula” retomando a antiga fábula do monge, da família pobre e da vaquinha. Se a população pensa que Lula é a saída, ao tirarem Lula da população, esta se verá obrigada a “criar alternativas de luta” que não repousem na figura do ex-presidente. É a ideia do monge que mata a vaquinha da família pobre para fazer com que ela “se liberte” e progrida. Este é um cálculo recorrente numa parte da esquerda que diz lutar contra o “messianismo”, mas que normalmente têm seus próprios totens. No meio deste fogo-cruzado está a população que pode sair prejudicada caso não se consiga barrar as reformas trabalhista e previdenciária. Este grupo, de quebra, tem um problema lógico sério quando afirma que a falta de alternativas da esquerda atual é uma consequência do fenômeno Lula, quando o correto é que recorrer a Lula, hoje com mais de 70 anos, é consequência da incompetência desta mesma esquerda.

Existe um outro grupo que vê a permanência de Temer como algo benéfico, e este grupo se encontra dentro do próprio Partido dos Trabalhadores. Em que pese que a posição do partido tenha sido dada pela nova presidenta como “Fora Temer”, nos círculos internos gira uma versão da ideia de “sangramento” que teria sido originalmente pensada pelo PSDB contra Dilma. Como Temer é francamente incompetente, o tempo vai lhe cobrando capital político. Da mesma forma, a manutenção de Temer extermina a legitimidade das narrativas que colocavam em Dilma a culpa pela crise. Após um ano de governo (e se Temer for a 2018 serão dois) apenas os mais ingênuos ou desonestos podem afirmar que o que se vive hoje no Brasil é “herança maldita” de Dilma. Ademais, o tempo de Temer daria condições a que Lula se dedicasse somente a sua defesa (uma campanha hoje tomaria mais energia do ex-presidente, que já não tem 50 anos). Ainda, a flagrante situação de injustiça e violência institucional capitaneada por Moro tem aumentado muito a força política de Lula. O feitiço virando contra os feiticeiros. Calculam que, com mais tempo, mesmo uma eventual condenação do ex-presidente faria com que ele tivesse ainda mais força para “fazer” um novo sucessor.

O que estas análises não levam em conta é o crescimento das forças protofascistas no Brasil. O apelo à ação (ao invés da inação) é um poderoso aglutinador político, especialmente no judiciário, nos meios militares e numa classe média desiludida com a corrupção de seus antigos ídolos (Aécio, Serra etc.). Numa situação em que a confiança na democracia tem caído no mundo todo e os percentuais de votos nulos, brancos e abstenções têm crescido vertiginosamente, o cálculo racional que parece apontar pela manutenção de Temer pode ser mal interpretado como “apoio velado” a quem hoje simboliza hoje a “corrupção”. É perigoso o jogo de ceder espaço e tempo a quem tem por discurso o recrudescimento punitivista, a criminalização da política e a perseguição aos movimentos sociais. O “Fora Todos” e “Todos na cadeia” parecem fortes motes sociais, principalmente em tempos de crise econômica.

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