Mas a culpa não é das “pedaladas fiscais”?

Mariana Tripode em 22/6/2017

O fatídico dia 17 de abril de 2016 foi ano em que assistimos estarrecidos o parlamento brasileiro, um parlamento profundamente envolvido em casos de corrupção, decretar e destituir uma Presidenta sob o pretexto esdrúxulo de “pedaladas fiscais”. A cena se repete e deixam boquiabertos milhares de brasileiros que acreditavam na democracia, recém-chegada ao país e que a duras penas fora conquistada.

Não é de se estranhar em países que levam o apelido de Republiqueta de Bananas como Paraguai, por exemplo, ter como forma de Golpe de Estado uma prática legal, visto que parece ser tal conduta adotada como nova estratégia nas oligarquias latino-americanas, que eliminam presidentes sem fazer prevalecer à lei, a verdade, a justiça, as regras do jogo, a ética e, sobretudo, a moral.

Parece que a moda pegou no Brasil e passou a ser condição no país que tem tamanho de continente, onde moralistas sem qualquer resquício de moral, de ética e de disciplina crescem absurdamente, no país onde a elite capitalista e financeira não se contenta com concessões, porquanto vislumbram o poder todo em mãos.

Voltamos à era de 1964, onde um golpe militar foi deflagrado contra o governo legalmente constituído de João Goulart. Não se estranha saber, contudo, que no golpe moderno, assim como no golpe militar, essa bargantaria também foi saudada por importantes setores da sociedade brasileira.

Grande parte do empresariado, da imprensa, dos proprietários rurais, de líderes de igrejas evangélicas, e amplos setores da classe média pediram e estimularam a intervenção militar como forma de pôr fim à ameaça de esquerdização do governo e de controlar a crise econômica.

Mas aqui no mundo moderno, a culpa não é de uma sociedade elitizada, da classe média, dos empresários, sequer do governo Norte-Americano, que no golpe anterior ficara satisfeito em saber que o Brasil não seguiria o mesmo passo de Cuba, onde a guerrilha liderada por Fidel Castro havia conseguido retomar o poder.

Aqui, nada disso tem importância. A culpa do mundo atual das Alices, são das pedaladas fiscais, são as supostas irregularidades contabilísticas, que para ficar ainda mais espavorecido, deixando claro o golpe, ganhamos de presente após dois dias do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, a lei que alterou o Orçamento do ano e que mudou o entendimento sobre crime de responsabilidade, o mesmo crime que a “golpeou”.

A culpa não é do capital e da burguesia associada, nem da desnacionalização do pré-sal, da cadeia produtiva do óleo e gás, das terras, dos aeroportos, do aquífero Guarani que serão entregues e que serão vistos pelos olhos da mesma classe que usou irregularidades fiscais como forma de destituição de um governo legitimamente eleito.

A responsabilidade não é dos interesses manifestos do conjunto da classe burguesa, que agrupam uma necessidade estonteante de realizar uma reforma trabalhista e previdenciária.

Não, não incriminamos tais sujeitos que já são reincidentes na prática desse tipo de crimes que levam seus países à ruina. A culpa aqui é das pedaladas. A culpa, é tão somente pelo fato de retirar dinheiro de bancos estatais para reforçar programas sociais, enquanto no passado, era possível usar verbas do Tesouro para salvar bancos à beira da falência, como fez o famigerado Fernando Henrique Cardoso, em sua gestão.

A revelação de diálogos entre o presidente da JBS e o presidente ilegítimo da República desta republiqueta, como mais uma etapa da Operação Lava-Jato, nocauteou o governo. Ficou definitivamente provado que Temer trabalhou para comprar, com propina, o silêncio do gangster Eduardo Cunha, mas a culpa foi da pedalada.

A crise econômica no Brasil chegou a níveis heteróclitos, deixando por um fio um governo federal ilegítimo e corrupto, ferindo de morte Aécio Neves, que por sua desfaçatez colocou o país ao caos. Mas a culpa foi da pedalada.

Sendo a culpa da pedalada, Marx já escrevia que os acontecimentos históricos repetem-se duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: