Miriam Leitão, capas de revistas, fake news e a teratopolítica

Wilson Roberto Vieira Ferreira, via Cinegnose em 16/6/2017

A denúncia tardia da jornalista Miriam Leitão de que supostamente teria sido vítima do ódio de petistas num voo entre Brasília-Rio tem um timing preciso: o momento no qual Lula e Lava-Jato estão em segundo plano diante da guerra entre os canhões da Globo e a resistência do desinterino Michel Temer em se agarrar à presidência. Além da palavra de ordem “Fora Temer!” ter evoluído nas ruas para o lema “Diretas Já!”. Miriam Leitão coloca mais uma vez em funcionamento os mecanismos da “teratopolítica” – a estratégia semiótica da criação de inimigos monstruosos (o morfologicamente disforme, o monstro ou o simulacro humano) na política. Por contraste, as recentes capas das revistas informativas nacionais sobre a atual crise política demonstram isso: enquanto as representações de Dilma e Lula derivam entre a deformidade e um simulacro humano que se quebra ou derrete, com Temer é diferente: é o enxadrista e o estrategista que mantém a morfologia humana. Diferentes planos semânticos, sintomas do atual racha na grande mídia e uma guerra fratricida entre aqueles que articularam o golpe político de 2016.

Nas últimas semanas, Lava-Jato, PowerPoints, tríplex do Guarujá, pedalinhos de Atibaia e Lula, se não desapareceram, pelos menos ficaram em segundo plano na pauta da grande mídia.

Juntamente com os repórteres e comentaristas da Globo (esbaforidos, perplexos e gaguejantes ao vivo com a repentina decisão da emissora de jogar Temer ao mar), os brasileiros ficaram eletrizados com áudio do desinterino Temer gravado secretamente por Joesley Batista, o vídeo de uma mala cheia de dinheiro conduzida às pressas em pleno bairro do Itaim/SP pelo deputado federal e assessor especial de Temer, Rocha Loures, entre outras revelações-bombas diárias que colocam em xeque o atual governo.

A divisão da mídia corporativa brasileira entre, de um lado, a Globo (que defendeu abertamente a renúncia do presidente e sustenta esmagadora maioria de manchetes tendo Temer como alvo), e do outro Estadão e Folha tentando apagar o incêndio marcou uma inédita ruptura na atuação em bloco das mídias nessas duas décadas de governos petistas.

Mas esse racha liderado pela poderosa Globo produziu um crescente e incômodo efeito colateral: o início da unificação das esquerdas e organizações sindicais em torno do “Fora Temer!” que evoluiu para a palavra de ordem “Diretas Já!”. Isso depois de uma bem-sucedida Greve Geral em abril e o anúncio de outra para o dia 30 desse mês.

Certamente o lema “Diretas Já!” será o mote dessa nova greve, carro-chefe de luta pela defesa dos ameaçados direitos trabalhistas e previdenciários.

E como nas recentes coberturas de manifestações, prevê-se mais uma vez a Globo, tal como uma avestruz tautista, enfiando a cabeça na terra e tentado fazer os telespectadores acreditar que todos nas ruas estão juntos com a emissora, apenas pelo “Fora Temer!” – sobre o conceito de “tautismo” (clique aqui).

Teratopolítica e vácuo político
Nesse vácuo político do cai-não-cai do desinterino Temer, e de um governo paralisado e sem conseguir tocar as reformas abençoadas pela mídia corporativa, começa a ficar preocupante a pretensão das esquerdas e centrais sindicais ocuparem o espaço político. E, o que é pior, ver o crescimento do capital político de Lula, como atestam pesquisas recentes, mesmo com todas as convicções da chamada “República de Curitiba” onde estão os próceres da Lava-Jato.

Portanto, entra mais uma vez em ação a estratégica semiótica de “teratopolítica” – derivado da teratologia ( de “depato”, “monstro”): ramo da ciência médica preocupado com o estudo das causas ambientais que possam alterar o desenvolvimento pré-natal levando a desenvolvimentos anormais.

Teratopolítica: demonizar o inimigo através da simplificação, exagero, vulgarização até transformá-lo em uma anormalidade, aberração e perigoso veículo de contágio de patologias sociais como ódio, violência, intolerância e preconceito.

Os instrumentos semióticos para a “teratopolitização” do inimigo vão das charges, montagens “fotoshopadas” em capas de revistas, mas, principalmente, matérias jornalísticas nas quais o jornalista é a própria (e única) fonte da informação de uma matéria ou coluna inteira.

O timing de Miriam Leitão
Eis que, após o “escândalo da fraude da Wikipédia” (mais uma das bombas ideológicas diárias feitas para minar o governo Dilma), no qual denunciava que o seu perfil na enciclopédia eletrônica tinha sido alterado a partir de um IP do Palácio do Planalto, a jornalista Miriam Leitão volta à cena – na sua coluna em O Globo denunciou que fora vítima de “duas horas de xingamentos e gritos” contra ela e a Globo em um voo Brasília-Rio.

Denunciou que os agressores eram “representantes partidários do PT”. Leitão levou dez dias para denunciar as agressões em sua coluna, em uma narrativa repleta de lacunas como muito bem apontou o jornalista Luís Nassif e relatos de passageiros que estavam no voo, contradizendo a colunista global (clique aqui).

Assim como no episódio do “escândalo da Wikipédia”, Miriam Leitão levou dias para fazer a denúncia. Lá em 2014, o timing foi a Operação Anti-Copa (com o auxílio luxuoso dos black blocs e manifestações de rua) e a CPI da Petrobras (clique aqui).

Enquanto aqui, a “denúncia” de Leitão acontece num momento em que o desinterino Temer não caiu tão rápido como a Globo pretendia (a derrota da emissora no Tribunal Eleitoral que absolveu a chapa Dilma-Temer foi sentida nos telejornais globais) enquanto Lula e o PT ficaram em segundo plano diante da artilharia midiática voltada agora contra o governo.

Por isso, o escândalo do suposto linchamento dos petistas contra uma jornalista da Globo no voo da Avianca pode ser o início de uma nova escalada da estratégia semiótica teratopolítica: petistas (assim como bolivarianos, comunistas e afins) são monstros intrinsecamente violentos e intolerantes.

Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come
Estamos diante de típica fake news que evoluiu para uma pós-verdade: a presidenta do PT Gleisi Hoffmann passa recibo para a narrativa de Miriam Leitão ao pedir desculpas em nome do partido, acompanhando a solidariedade de órgãos de comunicação (Abraji, Abert, Aner, ANJ etc.).

Esse é o “double bind” (duplo vínculo – se ficar o bicho pega se ficar o bicho come) dessas não-notícias: mesmo que você desconfie que tudo seja uma fake news e dê tempo para apurar os fatos, involuntariamente passará a percepção de que é conivente com os supostos casos relatados – o tempo da Internet é instantâneo. Por outro lado, se reage aos acontecimentos dando anuência aos fatos, dará pernas a uma não-notícia. Qualquer desmentido ou relatos posteriores revelando a falsidade das notícias serão ignorados: a primeira impressão é a que fica!

Por contraste, essa estratégia semiótica de teratopolítica está em prosseguimento nas capas das revistas semanais atuais sobre a crise política em torno do cai-não-cai do desinterino Temer.

Teratopolítica nas capas de revistas
Comparando as capas de revistas na época da crise política Dilma-Lula com a atual crise são marcante as diferentes formas de significações dos protagonistas supostamente envolvidos em denúncias de corrupção.

Enquanto as representações de Dilma e Lula transitam entre as feições da derrota e resignação derivando para a monstruosidade, na atualidade as representações de Temer na grande imprensa estão entre os signos do guerreiro, do estrategista e do intrépido.

Por exemplo, comentaristas da GloboNews são unânimes em dizer que Temer fez a “fama” na política por “ser estrategista”, talvez como racionalização para a derrota da Globo em derrubá-lo rapidamente.

A “isotopia” (o plano de sentido semântico) das capas de revista informativas nacionais quando refere-se à Dilma e Lula é a do “terato” – algum tipo de deformidade que deve ser acuada, cercada, queimada, presa para depois ser despachada. E as representações icônicas transitam entre o monstro, o disforme ou algum tipo de simulacro humano como um fantoche controlado ou uma estátua que se quebra, se desfaz ou derrete.

Quando o tema das capas é Michel Temer a isotopia é totalmente diferente: é o “Pelejador” – guerreiro, enxadrista, estrategista, lutador. Temer mantém a integridade corporal e fisionômica. Para a grande mídia, a humanidade e morfologia do desinterino Temer são mantidas como se estivéssemos diante de um oponente digno e que deve, apesar de tudo, ser respeitado.

Bem diferente de quando estamos diante das capas com Lula e Dilma: parecem pertencer a uma outra classe dos seres vivos – a das aberrações e dos seres infernais.

Essas isotopias diametralmente opostas das capas de revista levam a uma conclusão óbvia: Dilma e Lula são seres estranhos ao mundo dos homens de bem (os leitores das revistas) e devem ser perseguidos e eliminados.

Enquanto Temer, dentro da taxonomia dos seres vivos, apesar de tudo, pertence à espécie humana. Mesmo como suspeito ou inimigo, Temer ainda possui a dignidade da condição humana.

Esse grande racha na mídia corporativa (de um lado os canhões da Globo e do outro o restante da mídia levando baldes para tentar apagar o incêndio) demonstrado pelos diferentes planos semânticos nas capas de revistas nacionais atesta que testemunhamos uma guerra fratricida: Temer é um dos seus, mas virou um enxadrista indesejável.

Enquanto isso, cabe à República de Curitiba prender os monstros para enviá-los de volta aos quintos dos infernos.

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