A corrupção e os novos puritanos

Nunca deixamos de ser aquele lugar destinado apenas à exploração econômica, com instituições e leis para inglês ver.

Fernando de Aquino Fonseca Neto, via CartaCapital em 15/6/2017

De repente, todos se esqueceram aquela consulta ou venda no caixa 2 pra embolsar o imposto, a cervejinha que deram ao guarda de trânsito, a grana para o despachante desembaraçar aquele alvará na prefeitura, aquela carteirinha de estudante no curso de inglês do filho pra pagar meia entrada. Enfim, esses pecadilhos, menores que aquela reforma no sítio que dizem ser do cara que sistematizou a corrupção no Estado, deu organicidade a uma prática destinada a enriquecer os camaradas comunistas, tão ávidos pela riqueza individual quanto os empresários que querem destruir.

Contudo, como exaustivamente repercutido em nossas imparciais mídias, as austeras instituições policiais e judiciárias revelaram que alguns desses empresários merecem ser destruídos, não importa se isso desestruture as maiores empresas dos poucos setores em que a nossa economia está na fronteira e exporta serviços de alto valor agregado.

Isso não vem ao caso, afinal de contas a corrupção é o maior problema nacional, prestes a ser solucionado pelos imberbes heróis do Ministério Público e o grande vingador de capa preta, não o de Gotham City, mas o dali, de Curitiba.

Neste dia, com o grande vilão comunista preso, os governos não cometerão mais o pecado original de gastar mais do que arrecadam e ainda pagarão toda a dívida deles. Como o nosso ainda presidente falou, seguindo o exemplo das mulheres mais capazes, as que sabem cuidar do orçamento doméstico.

Mesmo pequenas empresas e famílias podem se beneficiar com financiamentos de terceiros, mas as finanças públicas são tratadas, até por muitos colegas economistas, como se fossem crianças do ensino fundamental.

Para completar o auspicioso futuro é indispensável que tudo esteja muito arrumadinho, restando aprovar a reforma trabalhista, para modernizar nossas relações de trabalho, deixando igual às do Tio Sam, afinal, alguém já disse que o que é bom pra eles é bom pra nós.

Também previdenciária, acabando com os abusos desses espertalhões ficarem ganhando um bônus, com dinheiro público, e continuarem a trabalhar. Se continuam trabalhando, não precisam se aposentar. Na Suécia é assim, previdência apenas para os que não têm condições de trabalhar.

Marcelo Nery falou, em alto e bom carioquês, que assim vai sobrar dinheiro para expandir os gastos sociais com a classe E. Certamente é isso que Meirelles vai fazer, preocupado como ele é com o destino desses infelizes. Não é só ele, mas um traço característico de nossa elite econômica, a empatia com os cidadãos de baixa renda. Lembra muito a homogeneidade de muitas nações europeias, pelo menos antes da invasão daquela gente do outro lado do mediterrâneo.

Pois é. Nunca deixamos de ser aquele lugar destinado apenas à exploração econômica, com instituições e leis para inglês ver. Os que sempre mandaram não estavam mais suportando as consequências de uma constituição difícil de acomodar todos os privilégios, um plano de estabilização que distribuiu poder de compra pra tanta gente e, depois, governos socialdemocratas, que valorizaram tanto o salário mínimo, empurrando pra cima os rendimentos do trabalho em geral.

O combate à corrupção é um dever permanente de todos, principalmente dos órgãos de fiscalização, investigação e julgamento. Todavia, o que vemos desde uma frágil vitória nas eleições presidenciais de 2014, é a utilização dessa cruzada contra a corrupção como uma cortina de fumaça pra facilitar a reversão das melhorias dos que nunca sequer foram considerados cidadãos pela casa grande e seus agregados.

Fernando de Aquino Fonseca Neto é doutor em Economia pela UnB e presidente do Corecon/PE.

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